Resumo De Livro: Os graus da humildade e da soberba (São Bernardo De Claraval)
2025-12-03
Este é um resumo adaptado para revisão futura. O método de escrita é ortodoxo.
Nota: 10/10
Dificuldade: Fácil
Título original: Gradibus Humilitatis et Superbiae Tractatus
S. Bernardus Claraevallensis ( Castelo de Fontaine-lès-Dijon, Borgonha - 04-12-1090 - Claraval, na moderna França - 20-08-1153 - 62y )
Bernard de Clairvaux, ordem cisterciense,
Tradução: Carlos Nougué - 1ª edição, 2016
SUMÁRIO
c01-fruto-que-devem-dar-os-graus-ascendentes-de-humildade
c02-em-que-ordem-conduzem-ao-premio-proposto
c03-primeiro-grau-da-soberba-a-curiosidade
c05-segundo-grau-a-ligeireza-de-espirito
c06-terceiro-grau-a-alegria-tola
c08-quinto-grau-a-singularidade
c11-oitavo-grau-a-escusa-dos-pecados
c12-nono-grau-a-confisao-simulada
c14-decimo-primeiro-grau-a-liberdade-de-pecar
c15-decimo-segundo-grau-o-costume-de-pecar
Obra é comentários ao Capítulo VII das Regras de São Bento
1º degrau: o temor de Deus (nos sentidos, na vontade e na inteligência);
2º degrau: a negação dos próprios desejos;
3º degrau: a prática da obediência;
4º degrau: suportar o desprezo e a injustiça dos homens;
5º degrau: confiar a consciência ao abade do mosteiro;
6º degrau: renunciar a qualquer conforto externo;
7º degrau: renunciar ao reconhecimento dos méritos pessoais;
8º degrau: renunciar ao desejo de governar a vida monástica;
9º degrau: exercitar o silêncio;
10º degrau: ser circunspecto e evitar o riso fútil;
11º degrau: ser discreto;
12º degrau: rememorar a própria pequenez e a degradação dos pecados cometidos, fazendo tudo não mais pelo temor do inferno, mas por amor a Cristo.
Escada de Jacó, comentário sobre humildade, autodomínio, ver:
Com ela, o homem equilibra-se; sem ela, perde-se numa vertiginosa descida aos sombrios meandros da consciência obliterada por paixões.
Gn 28:11-19. “Jacó viu em sonho que por uma mesma e só rampa subiam e desciam anjos. Que quer dizer isso? Que, se queres voltar à verdade, não precisas buscar um novo e desconhecido caminho: basta-te o mesmo pelo qual desceste. Já o conheces. E, desandando o mesmo caminho, sobe humilhado os mesmos degraus que desceste ensoberbecido”. Cf. páginas 61-63 desta edição.
Consciência de vileza, autoconhecimento, humildade é labor, verdade o prêmio do labor
O que é a Escada de Jacó
a descida acontece numa espiral de vícios que se vão intercalando: curiosidade, ligeireza de espírito, alegria tonta, jactância, singularidade, arrogância, presunção, escusa dos próprios pecados, confissão simulada, rebelião contra os mestres e os irmãos, licenciosidade no pecar e costume de pecar.
Como se pode deduzir, para São Bernardo a humildade é subida que pressupõe uma abertura dos olhos da alma; a soberba é descida na qual estão implicados variados tipos e graus de cegueira da mente.
“Crava os olhos na terra a fim de te conheceres: a terra dar-te-á tua própria imagem, porque, com efeito, és terra e à terra hás de voltar”.
Devaneios mentais como desvio do real propósito, paralelo a vida monástica e a própria psicologia
“os pensamentos sem vigilância e a vontade sem freio acarretam a indisciplina dos sentidos”.
D. Idelfonso Herwegen
A busca da Verdade ofuscada, fora o exercício de humildade
c01-fruto-que-devem-dar-os-graus-ascendentes-de-humildade
Retomada do labor, humildade caminho para a verdade, Cap. 7 da Regra de São Bento
“Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” [Mt 11, 29].
Caminho de Cristo, refere-se a Escada de Jacó na conduta humilde
Por isso, além de dizer:
“Eu sou o caminho e a verdade”, disse ainda: “e a vida”.
É como se dissesse:
“Eu sou o caminho”, porque levo à verdade;
“Eu sou a verdade”, porque prometo a vida;
“Eu sou a vida”, porque a dou.
Justificativa em [Mt 11, 25]
O Senhor clama aos desencaminhados e aos ignorantes do caminho:
“Eu sou o caminho”; aos que duvidam e aos que não crêem:
“Eu sou a verdade”; e aos ascendentes, mas lassos:
“Eu sou a vida”. Está, ao que parece, suficientemente claro por capítulos do Evangelho que o conhecimento da verdade é fruto da humildade.
Definição da humildade
A humildade pode definir-se assim: a humildade é uma virtude que leva o homem a desprezar-se ante seu próprio e veríssimo conhecimento.
Esta definição convém aos que estão dispostos a ascender no coração de virtude em virtude, isto é, a avançar de grau em grau, até chegar ao cume da humildade, no qual, como em Sião, isto é, em especulação, descobre a verdade.
Justificativa, aos que estão fora do caminho [Sl 24, 8]
Desencaminham-se os que abandonam a verdade.
A caridade é banquete na busca da verdade (preparam-se nela todas as coisas que são da verdade ou da sabedoria).
O primeiro prato, por conseguinte, é o da humildade, uma purga amarga. Vem depois o prato da caridade, um consolo com dulçor. Segue-se o da contemplação, prato com vigor.
c02-em-que-ordem-conduzem-ao-premio-proposto
Correlação da humildade como busca da verdade e aplicação
a verdade buscamo-la em nós, no próximo e em si mesma: em nós, julgando-nos a nós mesmos; nos próximos, compadecendo-nos de seus males; em si mesma, contemplando-a com coração limpo.
Verdade em si antes, no próximo e contemplação
Com os doentes, adoecem; com os que se escandalizam, abrasam-se [II Cor 11, 29].
“Alegrai-vos com os que estão alegres, chorai com os que choram” [Rm 12, 15].
Cristo como homem, obediência e misericórdia
“fez-se obediente ao Pai até à morte, e morte de cruz” [Fl 2, 8].
Por quê? Responde o apóstolo Pedro:
“Também sofreu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais suas pegadas” [I Pd 2, 21], isto é, para que imiteis sua obediência.
Jesus sobre sua divindade como Deus e como homem Filho de Deus
Pedro compreendeu o que lhes quisera perguntar ao dizer “eu”, e respondeu certeiramente:
“Tu és o Cristo, o Filho de Deus” [Mt 16, 16]; mas não disse “Tu és Jesus, o filho da Virgem”.
Trave de teu olho, tira primeiro, clareza para os graus da humildade (15), assim, o 1º da verdade, apoio ao teu irmão
conhecer a verdade de si mesmo deve tirar a trave de sua soberba, porque ela impede a seus olhos a luz, e terá de dispor-se a ascender no coração, observando-se a si mesmo em si mesmo, até alcançar, com o décimo segundo grau da humildade, o primeiro da verdade.
Quando pois tiver encontrado em si mesmo a verdade, ou melhor, quando se tiver encontrado a si mesmo na verdade e puder dizer:
“Eu fiei-me, e por isso falei; eu estou pois extremamente humilhado”. [Sl 116, 10], ascenda mais então o homem no coração, para que a verdade seja exaltada, e alcance o segundo grau, e diga em seu arroubo: “Todos os homens são mentirosos”. [Sl 116, 11]
Segunda verdade, para se chegar a terceira
Se pois perseverarem nas três coisas ditas, isto é, o pranto da penitência, o desejo de justiça e as obras de misericórdia, limparão o olhar de seu coração dos três impedimentos contraídos por ignorância, por fraqueza e por desejo.
Assim, por meio da contemplação, passarão ao terceiro grau da verdade.
Três, com efeito, são os graus ou estados da verdade.
1 - Ao primeiro sobe-se pelo trabalho da humildade;
2 - ao segundo, pelo afeto da compaixão;
3 - ao terceiro, pelo vôo da contemplação.
1 - No primeiro grau, mostra-se-nos severa a verdade;
2 - no segundo, piedosa;
3 - no terceiro, pura.
1 - Ao primeiro conduz a razão com que nos examinamos a nós mesmos;
2 - ao segundo, o afeto com que nos compadecemos dos outros;
3 - ao terceiro, a pureza que arrebata, e pela qual nos alçamos às realidades invisíveis.
1 - no primeiro grau lhe parece ver a obra do Filho;
2 - no segundo, a do Espírito Santo;
3 - no terceiro, a do Pai.
“O ímpio se ensoberbece todos os dias de sua vida” [Jó 15, 20]?
E diz-se ainda que
“há vias que parecem boas aos homens” [Pr 16, 25], as quais no entanto conduzem ao mal.
Há pois um caminho para cima e outro para baixo. Um caminho leva ao bem, enquanto o outro ao mal. Esquiva o mau caminho, e escolhe o bom.
Se porém te sentes incapaz disso, suplica com o profeta dizendo:
“Da via da iniquidade, afasta-me” [Sl 118, 29]. De que modo?
“E concede-me o favor de tua lei” [Sl 118, 29], ou seja, da lei que deste aos que delinquem no caminho, aos que deixam a verdade. Um destes sou eu, que caí da verdade.
Mas, então, o que cai já não poderá levantar-se?
Por isso elegi o caminho da verdade, para ascender até à cúspide de onde caí por causa de minha soberba.
Ascenderei e cantarei:
“Foi bom para mim, Senhor, que me humilhasses; melhor para mim é a lei de tua boca que milhares de moedas de ouro e de prata” [Sl 118, 71-72].
Pode parecer-te, sim, que Davi propõe dois caminhos; mas presta atenção e verás que não é senão um, ainda que com dois nomes.
Chama-se iniquidade para os que descem, e verdade para os que sobem.
Os degraus são os mesmos tanto para os que ascendem ao trono como para os que descem. Um só, com efeito, é o caminho tanto para os que se aproximam da cidade como para os que a deixam; e uma só é a porta tanto para os que entram na casa como para os que saem dela.
Jacó viu em sonho que por uma mesma e só rampa subiam e desciam anjos.
Que quer dizer isso?
Que, se queres voltar à verdade, não precisas buscar um novo e desconhecido caminho: basta-te o mesmo pelo qual desceste. Já o conheces. E, desandando o mesmo caminho, sobe humilhado os mesmos degraus que desceste ensoberbecido.
c03-primeiro-grau-da-soberba-a-curiosidade
Atenção a externalidade, descuido interno
Curioso, escuta a Salomão; escuta, néscio, ao sábio: “Acima de toda custódia, custodia teu coração” [Pr 4, 23]
Curioso, aonde vais quando te afastas de ti? A quem te confias durante esse tempo? Como ousas erguer os olhos para o céu tu, que pecaste contra o céu?
Crava os olhos na terra a fim de te conheceres: a terra dar-te-á tua própria imagem, porque, com efeito, és terra e à terra hás de voltar.
Por duas causas, todavia, é-te permitido erguer os olhos sem cometer a menor falta: para pedir ajuda e para oferecê-la.
Olhar ao céu clemência, a ti, ao irmão, olhar soberbo, Eva, Diná, diabo:
Diná, por que tiveste de ir ver a mulheres estrangeiras? Que necessidade ou utilidade se te impunha? Fizeste-o por pura curiosidade? Tu olhas com ingenuidade, mas outros te olham com malícia.
Tu contemplas com curiosidade, mas outros contemplam com outra curiosidade. Quem pensaria então que tua curiosa inocência, ou tua inocente curiosidade, seria não só ociosa, mas muito perniciosa para ti, para os teus, até para os hostis a ti?
E tu, Eva, foste posta no paraíso para cultivá-lo e custodiá-lo com teu varão, e, se cumpres o ordenado, passas a outro lugar, melhor, onde já não tens de ocupar-te de nada nem preocupar-te com custodiá-lo.
É-te permitido comer de todas as árvores do paraíso, menos a chamada da ciência do bem e do mal. Se, com efeito, os frutos das outras árvores são bons e sabem bem, o que te leva a comer da árvore que sabe mal?
“Não saibam mais do que convém saber” [Rm 12, 3]. Pois provar o mal não é saboreá-lo, mas perder o gosto. Custodia bem o que te foi confiado, e espera o prometido. Evita o proibido, para que não percas o que já possuis.
Por que te preocupas tanto com tua morte? Por que diriges tão amiúde teus olhos inquietos para aquela árvore? Por que gostas de olhar o que não se pode comer?
Respondes-me: “Aproximo-me apenas com os olhos, não com as mãos. Não me foi proibido olhar, só comer. Será que não posso levantar aonde eu quiser os olhos que Deus me deixou a meu alvedrio?”
Responde-lhe o Apóstolo: “Tudo [o que é indiferente em si] me é permitido, mas nem tudo me convém” [I Cor 6, 12]. Não é pecado, mas é indício de pecado. Se, com efeito, tua alma se mantém alerta, a curiosidade não achará momentos ociosos; e, se isso tampouco é pecado, faz-te porém propensa a cometer faltas. É indício de pecado que se cometeu, e causa do que se cometerá.
c04-sentenca-sobre-o-serafim-apostata-(lucifer)-nao-tomada-dos-doutores- mas-inventada -pelo-proprio-escritor
beneplácito = consentimento, aprovação
Presumes tramar tudo isso diante costas do Altíssimo? Com seu beneplácito ou sem ele?
Aquele cuja vontade é insuperável, e cuja ciência é perfeita, como haverá de ignorar todo o mal que estás tramando?
Porventura estás convencido de que Ele o sabe, mas não quer ou não é capaz de opor-se? Se ainda te aceitas como criatura, com efeito, não ouses duvidar da onipresença ou da onímoda ciência e bondade do Criador, que quis, soube e pôde criar-te do nada, tal qual és.
Como pensas que Deus consentirá no que Ele mesmo não quer e pode impedir?
São Bernardo De Claraval, dá clareza sobre a insensatez do pecado, onde mais tarde São Leonardo De Porto Maurício diz: sua condenação vem de ti
Isto, ó miserável, é o que pensas; esta é a iniqüidade que meditas em teu leito, dizendo: “Destruirá o Criador a obra de suas próprias mãos?”
Sei perfeitamente que a Deus não se oculta nenhum de meus pensamentos, justo porque é Deus. Sei ainda que não lhe apraz este pensamento meu, justo porque Deus é bom.
E sei também que, se o quiser Ele, não poderei eu escapar de suas mãos, justo porque é todo-poderoso. Mas haverei de temê-lo? Sim, porque, se por ser bom não pode aprazer-lhe meu mal, quanto menos não o fará o seu?
Meu mal consiste em querer algo que vai contra sua vontade; seu mal, em vingar-se. Mas, assim como Ele não quer nem pode ser privado de sua bondade, assim tampouco pode querer vingar-se do mal. Tu, ó miserável, tu te enganas a ti mesmo, não a Deus.
Tu te enganas, repito-o, enquanto a iniqüidade mente contra si mesmo, mas não contra Deus. Ages de modo doloso, e diante d’Ele: e por isso tu te enganas a ti mesmo, mas não a Deus. Como para corresponder a um tão grande bem d’Ele em ti, maquinas tão grande mal contra Ele.
Não sem razão, portanto, tua iniquidade atrai-te o ódio de Deus. Pode dar-se maior perversidade que desprezar a Deus no que merece ser mais amado? Não duvidas do poder de Deus, capaz sempre de criar-te ou de destruirte, e todavia que atitude pode ser mais reprochável que a tua quando abusas de sua grande doçura, crendo que não se levantará para vingar-se se lhe pagas com mal o bem, e com ódio o amor?
que loucura a tua: como se pode ambicionar um reino de tanta miséria, e preferir uma miserável realeza a uma feliz submissão? Não te aproveitaria mais participar da luminosidade do espaço do que ser príncipe nas trevas? Mas talvez não hajas calculado bem, e provavelmente pelo que eu disse: atendendo à bondade de Deus, disseste em teu coração:
“Esqueceu-se [apartou seu rosto, não vê jamais]” [Sl 9, 34], com o que, ó ímpio, irritaste a Deus; ou porque, ao ver o reino, cresceu em teu olho a trave e te impediu a visão da queda.
Curiosidade, gênese da perdição
c05-segundo-grau-a-ligeireza-de-espirito
inveja e maldade, soberba e prepotência
e quiseres, compara estes dois graus da soberba com os últimos da humildade, e verás que no último se cerceia a curiosidade, enquanto no penúltimo a ligeireza: e o mesmo se dará nos outros graus, se os comparares entre si. Passemos agora, porém, a explicar o terceiro grau – sem cair nele.
c06-terceiro-grau-a-alegria-tola
“Está o coração do estulto ali onde há alegria” [Ecl 7, 4].
A cada grau passado, fingimento, soberba, alegria falsa, não penitência, meditação no silêncio
c07-quarto-grau-a-jactancia
Mazelas internas ainda mais exteriorizadas
Na primeira oportunidade, se o assunto são as ciências, traz à colação sentenças tanto antigas como novas, e desfia uma peroração com palavras que ressoam ostentosas.
Antecipa-se às perguntas; e responde até a quem não lhe pergunta. Propõe questões; resolve-as ele mesmo, e interrompe o interlocutor, impedindo-lhe que termine o que começara a dizer.
Quando soa o sinal e se tem de suspender a conversação, a longa hora transcorrida parece-lhe um instante, razão por que pede para voltar a suas histórias após o tempo determinado.
Não o faz, claro está, para edificar a ninguém, mas para cantar sua própria ciência. Poderia, sim, edificar; mas não o pretende.
Não tenta ensinar-te nem valer-se de teus conhecimentos, mas apenas demonstrar-te que sabe algo.
Se a conversa é sobre religião, logo saca à luz visões e sonhos. Depois louva o jejum, recomenda as vigílias, exalta acima de tudo as orações; quanto à paciência, à humildade ou a cada uma das virtudes, disputa plenissimamente mas vanissimamente, de modo que ouvindo-o digas que “a boca fala da abundância do coração” [Mt 12, 34], porque, “o homem bom tira boas coisas do bom tesouro [de seu coração]” [Mt 12, 35].
Se a conversa porém se torna recreativa, então ele se encontra tão loquaz como de costume. Se o ouvires, dirás que sua boca é uma corrente de vaidade, um rio de chocarrices, a ponto de concitar até as mais graves e severas almas a rir levianamente. E, coligindo brevemente de tudo isso, diga-se que no muito falar se nota a jactância.
c08-quinto-grau-a-singularidade
Teomania, quebra da tradição, insubordinação a autoridade
Com efeito, não buscam ser melhores, mas tão-somente parecê-lo. Não viver melhor, mas aparentar que são melhores para poder dizer:
"”Não sou como os outros homens” [Lc 18, 11].*
Lisonjeia-se mais com jejuar um só dia em que os outros comem como se houvesse jejuado sete dias com toda a comunidade.
Como não pode ver seu próprio rosto nem saber o impacto de seu semblante entre os outros, olha suas mãos e seus braços, toca suas costelas, apalpa suas clavículas e suas omoplatas.
Pretende assim verificar, segundo o estado de seus membros, mais ou menos descarnados, o que seu rosto pode delatar.
c09-sexto-grau-a-arrogancia
Crê o arrogante no que ouve [a seu respeito], louva o que faz, mas não atende ao que pretende.
c10-setimo-grau-a-presuncao
Ação a onde não lhe diz respeito, falsa ação para reivindicar mérito a si, julgador
Se ao ser corrigido vires que seu coração reage com palavras maliciosas, advertirás que incorreu no oitavo grau, dito “a escusa dos pecados”.
c11-oitavo-grau-a-escusa-dos-pecados
Sem responsabilidade para suas faltas
c12-nono-grau-a-confisao-simulada
Má confissão
“O justo, ao começar a falar, acusa-se a si mesmo” [Pr 18, 17].
*O forno prova os vasos do oleiro; a tribulação discerne os verdadeiros penitentes.
O que verdadeiramente faz penitência, esse não aborrece o trabalho da penitência: aceita pacientemente e sem queixa alguma qualquer ordem que lhe dêem para que repare uma culpa que abomina. E, se na mesma obediência surgem conflitos duros e contrários, ao topar com qualquer sorte de injúrias, suporta-os sem desfalecer.
Manifesta assim que se encontra no quarto grau da humildade.
O que porém se acusa com dissimulação, quando é posto à prova por qualquer injúria, ainda alguma insignificante, vê-se incapaz de aparentar humildade e de dissimular o próprio fingimento. Murmura, brama de furor, é tomado da ira, e não mostra indício algum de que se encontre no quarto grau da humildade.
c13-decimo-grau-a-rebeliao
Insatisfação com seu jugo de carregamento da cruz
Há que saber que todos estes graus, doze no total, podem reduzir-se a três.
-
com efeito, os seis primeiros referem-se ao desprezo dos irmãos;
-
o quatro seguinte, ao desprezo do mestre;
-
os dois últimos, ao desprezo de Deus.
Deve notar-se ainda que estes dois últimos graus da soberba correspondem inversamente aos dois primeiros da humildade, e que devem subir-se antes de entrar na congregação, sem que se possam descer na mesma congregação.
c14-decimo-primeiro-grau-a-liberdade-de-pecar
“O ímpio, ao cair no profundo dos pecados, cai também no desprezo” [Pr 18, 3].
Por isso o décimo primeiro grau pode chamar-se liberdade de pecar: aqui o monge já não vê a um mestre a quem tema, nem a irmãos a quem respeite.
Regozija-se com realizar seus desejos com tanto mais tranquilidade quanto mais livre se encontre dos que de algum modo o coibiam ou pelo pudor ou pelo temor.
Se porém já não teme aos irmãos nem ao abade, resta-lhe ainda certo resto de temor de Deus.
E sua razão, que ainda insinua algo, antepõe este temor ao desejo e comete coisas ilícitas, ainda que não sem alguma hesitação.
Imita ao que atravessa um rio: não se precipita, senão que entra antes paulatinamente na corrente dos vícios.
Sem parcimônia, falha com a busca da salvação
c15-decimo-segundo-grau-o-costume-de-pecar
Alto grau de apostasia
Com o ardor da concupiscência, a razão adormece, e o costume liga-a.
Arraste para a morte sem a arrependimento, contrição e penitência
Doravante o prazer é sua norma moral, e nada impede que sua alma, suas mãos e seus pés pensem, executem e investiguem coisas ilícitas; e - malévolo, bravateador, delinquente – maquina, intriga e leva a termo quanto lhe vem ao coração, à boca, às mãos.
Nota própria: Miserável eu, que dê tempos em tempos, provei desse fel. Senhor, tende piedade de nós.
c16-volta-aquele-quem-escrevo
São Bernardo De Claraval ao abade Godofredo:
Talvez digas, irmão Godofredo, que escrevi sobre algo muito diferente do que tu me havias pedido e eu prometido: pode parecer-te que, em vez dos graus da humildade, descrevi os graus da soberba.
Mas considera minhas razões: não poderia ensinar nada distinto do que aprendi; e, se não me pareceu conveniente descrever as subidas, é porque tenho mais experiência nas descidas.
Que te exponha São Bento os graus da humildade, os quais ele dispôs antes de tudo no coração. Quanto a mim, não posso apresentar-te senão a ordem que segui na descida.
Se meditares seriamente sobre isto, talvez aches aqui teu mesmo caminho de subida. Se tu, com efeito, a caminho de Roma, deparas com um homem que vem de lá, e lhe perguntas a direção que leva até ela, que melhor lhe pode fazer que assinalar o caminho já percorrido?