Resumo De Livro: Nós (Yevegeny Ivanovich Zamyatin)

2026-04-08


Este é um resumo adaptado para revisão futura. O método de escrita é ortodoxo.

Nota: 6/10

Dificuldade: Média


Título original: Мы/Mii - Евгений Иванович Замятин - Nós/Mii - Evgeny Ivanovich Zamyatin (Lebedyan, Ucrânia/Rússia, 01-02-1884 - Paris, França, 10-03-1937 - 53y)

SUMÁRIO

prefacio

01-entrada-a-mais-sabia-de-todas-as-linhas-um-poema

02-entrada-bailado-a-harmonia-do-quadrado-x

03-entrada-um-casaco-uma-muralha-uma-tabua-de-mandamentos

04-entrada-o-selvagem-e-o-barometro-epilepsia-se-ao-menos…

05-entrada-o-quadrado-soberano-do-universo-uma-funcao-agradavel-e-util

06-entrada-um-acidente-esse-maldito-é-evidente-24h

07-entrada-uma-pestana-taylor-a-margarida-e-o-junquilho

08-entrada-uma-raiz-irracional-r-13-o-triângulo

09-entrada-a-liturgia-jambicos-e-troqueus-a-mao-de-ferro

10-entrada-uma-carta-uma-membrana-o-meu-eu-peludo

11-entrada-nao-nao-pode-ser-fica-assim-sem-qualquer-sumario…

12-entrada-a-limitacao-do-infinito-o-anjo-reflexoes-sobre-a-poesia

13-entrada-neblina-eles-uma-aventura-profundamente-absurda

14-entrada-meu-impossivel-um-chao-frio

15-entrada-a-campanula-de-vidro-o mar-de-espelho-estou-condenado-ao-fogo-eterno

16-entrada-amarelo-uma-sombra-com-duas-dimensoes-uma-alma-incuravel

17-entrada-o-outro-lado-do-vidro-morri-corredores

18-entrada-as-selvas-da-logica-ferimentos-e-um-emplastro-nunca-mais

19-entrada-um-infinitesimal-de-terceira-ordem-um-olhar-carregado-do-parapeito

20-entrada-a-descarga-material-para-ideias-a-rocha-zero

21-entrada-um-dever-do-autor-engrossa-o-gelo-o-amor-mais-dificil

22-entrada-ondas-paralisadas-tudo-ainda-a-atingir-a-perfeicao-sou-um-microbio

23-entrada-superiores-dissolucao-dum-cristal-se-ao-menos…

24-entrada-limites-duma-funcao-pascoa-destrui-tudo

25-entrada-descida-do-ceu-a-maior-catastrofe-da-historia-chegou-ao-fim-o-conhecido

26-entrada-o-universo-existe-erupcao-quarenta-e-um-graus-centigrados

27-entrada-nao-ha-sumario-impossivel

28-entrada-elas-ambas-entropia-e-energia-parte-do-corpo-opaca

29-entrada-filamentos-na-cara-rebentos-uma-compressao-pouco-natural

30-entrada-o-ultimo-numero-o-erro-de-galileu-nao-seria-melhor-se…

31-entrada-a-grande-operacao-perdoei-tudo-colisao-de-comboios

32-entrada-nao-acredito-tratores-um-pobre-destroco-humano

33-entrada-nao-ha-sumario-sao-apontamentos-muito-apressados-esta-e-a-ultima…

34-entrada-os-libertos-uma-noite-de-sol-uma-valquiria-na-radio

35-entrada-uma-argola-uma-cenoura-um-assassino

36-entrada-paginas-em-branco-o-deus-dos-cristaos-sobre-a-minha-mae

37-entrada-infusorios-o-dia-do-juizo-o-quarto-dela

38-entrada-nao-sei-como-resumir-este-assunto-talvez-se-possa-reduzir-tudo-a-um-unico-item-um-cigarro-apagado

39-entrada-finis

40-entrada-fatos-a-campanula-de-vidro-tenho-a-certeza

41-autobiografia

42-notas-adicionais

prefacio

A liberdade no ano 3000

Literatura inglesa do século XX , Admirável mundo novo de Aldous Huxley e 1984 de George Orwell, respectivamente, 1930 e 1948, ambos influenciados por este livro

Escrito em 1920 na cidade de Petrogrado

1ª edição, inglesa, publicação em Nova Iorque, 1924

Em 1928, edição em francês, em russo somente em 1952 mas em Nova Iorque

Entrada na Rússia apenas no período do colapso (Perestroika)

Trama: Protagonista Nós De Zamiatine, engenheiro que projeta e constrói uma nave espacial, missão levar aos seres de outros planetas a condição de liberdade e felicidade da Terra como súditos do Benfeitor e do Estado Único.

Se passa no século XXX, idioma da época

Tem consciência de que está falando para leitores do Passado e, ironicamente, desculpa-se sempre que usa uma linguagem anacrônica: a palavra pão, por exemplo, será um anacronismo no século XXX, em que se come um único alimento, um derivado da nafta…

Tema central, dilema Felicidade-Liberdade, Paraíso versus Inferno, Éden versus Árvore da-Sabedoria (gnose), Conhecimento do Bem-e-do-Mal

De certa forma é antagonista com o stalinismo (antes mesmo da revolução russa)

Leiam o livro depressa.

E corram depois para a televisão, a ver até que ponto, hoje, os oprimidos estão libertos e os libertos oprimidos…

Comédia trágica. Tragédia irónica. Como este livro.

M.J.G.

01-entrada-a-mais-sabia-de-todas-as-linhas-um-poema

120 dias para o Integral, publicação na gazeta, último passo para “junção” daqueles que estão fora do sistema

Se acaso não percebem que nós lhes levamos a felicidade matemática e exata, é nosso dever forçá-los a serem felizes.

Mas, antes de puxarmos das armas, tentaremos recorrer à palavra.

Narração de D-503, construtor do Integral, matemático dentre muitos no Estado Único (utilitarismo)

A minha caneta, acostumada aos números, não consegue criar a música das assonâncias e dos ritmos. Farei o possível por descrever o que vejo o que penso, ou mais precisamente o que nós pensamos (precisamente, nós, e será este “Nós” o título dos meus apontamentos).

Estes serão o produto da nossa vida, da vida matematicamente perfeita do Estado Único e, sendo-o, não serão por si só um poema, independentemente do meu querer? Não tenho dúvidas, sei que assim é.

02-entrada-bailado-a-harmonia-do-quadrado-x

Mirante, planícies, pólen, comparação de baile com movimento dos mecanismos que constroem o Integral

Comparação de beleza, estética e rigor

E não pude deixar de perguntar a mim mesmo:

Porque é que tudo isto é belo?

Porque é bela esta dança? Porque se trata de um movimento que não é livre, porque o sentido profundo da dança reside exatamente na obediência absoluta e extática, na não liberdade ideal.

Ritos da humanidade, ligação liberdade/servidão

Apresenta 0-90 (mulher ou humanóide?), marcha

hirsutos - Hirsutos é o plural de hirsuto. O mesmo que: arrepiados, ásperos, cabeludos, cerdosos, desalinhados, hirtos, intratáveis.

Significado de hirsuto

Cheio de pelos longos, rijos e espessos; cabeludo, barbado: rosto hirsuto.

Com aparência desalinhada, falando especialmente dos pelos ou dos cabelos; desalinhado, arrepiado: cabelos hirsutos.

[Figurado] Desprovido de gentileza; áspero ao tratar alguém; intratável: gênio hirsuto, personalidade hirsuta

Riso de D-503, divagações acerca da criação, indagado por outro

Atavismo - Reaparecimento numa pessoa das características de um antepassado que permaneceram escondidas por muitas gerações.

[Figurado] Hereditariedade; aparecimento de características biológicas, intelectuais, comportamentais ou biológicas: o talento de representar apareceu por atavismo.

[Figurado] Retorno da utilização de algo já não usado, de uma opinião antiga, de um estilo: atavismo artístico.

Indagação pela humanóide mais jovem

03-entrada-um-casaco-uma-muralha-uma-tabua-de-mandamentos

É possível que ignorem elementos tais como as Tábuas dos Mandamentos Horários, as Horas Pessoais, a Norma Maternal, o Muro Verde, o Benfeitor.

Sentimento cômico, para etimologia de palavras e semântica, andamento de forma nômade a sedentária (natureza humana)

Homem seu cauda, moscas afastamento

Tábuas dos Mandamentos Horários

Horas Pessoais, momentos do tempo cedido a si, não controlado

…(Duas vezes por dia, às horas ordenadas pelas Tábuas (das 16 às 17) e das 21 às 22)…

tp-para-refletir

O Estado (na sua desumanidade) proibia o assassínio da pessoa singular, sem, todavia proibir o sema assassínio de milhões.

Era criminoso matar uma pessoa, ou seja, subtrair à soma total das vidas humanas uns cinquenta anos; mas não era crime subtrair à soma total das vidas humanas vinte milhões de anos.

Digam lá se não dá vontade de rir?!

Qualquer número com dez anos de idade é hoje em dia capaz de resolver este problema matemático-moral, mas naquele tempo não houve nenhum Kant capaz de resolvê-lo.

Até porque nenhum Kant pensou algum dia em construir um sistema de ética científica, isto é, um sistema ético fundado na subtração, na adição, na divisão e na multiplicação.

04-entrada-o-selvagem-e-o-barometro-epilepsia-se-ao-menos...

Até aqui, tudo me parecia claro (não será por mero acaso que olho com alguma parcialidade para a palavra claro).

05-entrada-o-quadrado-soberano-do-universo-uma-funcao-agradavel-e-util

Auto conhecimento, comparação com seu amigo R-13, compara ao leitor

Imagina um quadrado, uma figura quadrangular, um equilátero, vivo, belo.

Ele informa-te a seu respeito, fala-te da sua existência. Compreenderás que a última coisa que passaria pela sua mente de quadrilátero seria dizer-te que todos os seus ângulos são iguais:

ele já nem sequer sabe disso, para ele é um fato normal, uma coisa de todos os dias.

Lutas diárias fome e amor, Guerra dos 200 anos, cálculo utilitarista para “amor”

O que para os antigos constituía uma fonte de incontáveis e estúpidas tragédias converteu-se para nós numa função harmoniosa, aprazivelmente útil, o mesmo acontecendo também com o sono, o trabalho físico, a ingestão de comida, a defecação, etc.

Por aqui se vê como a grande força da lógica limpa tudo aquilo em que toca. Ah se tu, leitor desconhecido, lograsses conhecer esta força divina, se a seguisses até ao fim!

Conflito do narrador com as características humanas

Compreendam que escrever, para mim, é mais difícil do que foi para qualquer outro autor de toda a história do género humano.

06-entrada-um-acidente-esse-maldito-é-evidente-24h

Festa da Justiça na Praça do Cubo

tp - D-503 - narrador

E-330, mulher

Ida a Casa de Antiguidades

tp - Gelosia - uma grade de fasquias (tiras compridas e estreitas) de madeira ou pedra colocada no vão de janelas ou portas para proteger da luz e do calor, e através da qual se pode ver sem ser visto.

A palavra “gelosia” surgiu a partir do árabe. É uma estrutura herdada da arquitetura da etnia árabe, popularizada na Península Ibérica, e é constituída por treliças de madeira capazes de vedar vãos de janelas, formando uma espécie de gaiola, cujo objetivo era aprisionar ou proteger as mulheres em casa.

Uma vez que a gelosia evita que quem está atrás da janela seja visto por quem está de fora, os maridos árabes costumavam usar esta janela nos quartos de suas esposas para que elas não tivessem contato visual direto com outros homens, daí a palavra “gelosia” vir do francês jalousies, ou do inglês jealous, significando “ciúmes”.

Literatura russa (inauguração), Aleksandr Serguêievitch Púchkin - Алекса́ндр Серге́евич Пу́шкин

tp - roçagar - Arrastar levemente; tocar; roçar: a cauda do vestido roçagava pelo chão.

07-entrada-uma-pestana-taylor-a-margarida-e-o-junquilho

Sonho como anomalia, pálpebras e sono, menção ao taylorismo

…fiquei com o que li no jornal: “De acordo com informações fidedignas, acabam de ser descobertos sinais de uma organização ainda por desmantelar, a qual teria por objetivo a libertação do jugo do Estado”.

Libertação?

É intrigante como entre o gênero humano continua enraizado o instinto criminoso. Uso deliberadamente esta palavra criminoso. A liberdade e o crime estão tão indissoluvelmente ligados como…

Digamos o movimento dum aero e a sua velocidade; supondo que a velocidade do aero = 0, o aero não se move; assim também se a liberdade do homem = 0, o homem não comete crimes. É evidente.

A única maneira de livrar o homem do crime é livrá-lo da liberdade. Ainda mal acabámos de libertá-lo (à escala cósmica, evidentemente, só daqui a séculos) e já alguns desgraçados…

08-entrada-uma-raiz-irracional-r-13-o-triângulo

Choque com números irracionais, comparação com matemática e retórica

09-entrada-a-liturgia-jambicos-e-troqueus-a-mao-de-ferro

tp - jâmbico - jâmbico (ou iâmbico) é um ritmo poético formado por iambos, pares de sílabas onde a primeira é átona e a segunda é tônica (ritmo “tã-TÔ). O exemplo mais comum é o pentâmetro iâmbico, composto por cinco iambos (10 sílabas por linha).

Exemplo clássico de Pentâmetro Iâmbico:

“Amor é fogo que arde sem se ver” (Camões)

Análise: a-MOR / é-FO / go-QUE / ar-DE / sem-se-VER (ritmo ascendente).

Características:

Ritmo: ta-DUM ta-DUM ta-DUM ta-DUM ta-DUM.

Pentâmetro: 5 iambos por verso.

Uso: Popularizado por Shakespeare e Camões.

Encontro na Praça Do Cubo, comparação com religião, em especial o Cristianismo

A julgar pelas descrições que até nós chegaram, devia ser semelhante à emoção que os antigos sentiam durante os Serviços Divinos.

Eles, porém, celebravam-nos em honra de um Deus absurdo, desconhecido, ao passo que os nossos se dirigem a um Deus coerente e perfeitamente conhecido em toda a sua perfeição; o Deus deles só lhes dava inquietações eternas, torturantes, e a coisa mais brilhante que lhe passou pela ideia foi oferecer-se a si próprio em sacrifício, sabe-se lá por que motivos; o sacrifício que nós ofertamos ao nosso Deus, que é o Estado Único, é um sacrifício profundamente ponderado, racional.

Sim, foi solene a cerimonia que celebramos em louvor do Estado Único, uma comemoração dos dias e dos anos cruciais da Guerra dos Duzentos Anos, uma majestosa festividade ao triunfo de todos sobre o um, da soma sobre a unidade.

tp-hierofante - Hierofante é o termo usado para designar os sacerdotes da alta hierarquia dos mistérios da Grécia e do Egito. É o sacerdote supremo, que pode ser chamado também de Sumo Sacerdote

10-entrada-uma-carta-uma-membrana-o-meu-eu-peludo

O dia de ontem foi para mim uma espécie de papel através do qual os químicos filtram as soluções; ficaram nele todas as partículas suspensas, todos os elementos estranhos.

E estas manhas puderam descer as escadas purificadas, destiladas, transparentes.

- A rápida destruição de alguns é mais racional do que dar a todos a oportunidade de trabalhar para a sua própria ruína…

E-330 (feminino), expressa características humanas, constrangimento ao narrador (D-503)

11-entrada-nao-nao-pode-ser-fica-assim-sem-qualquer-sumario...

Estou diante dum espelho. Pela primeira vez na vida (isso, exatamente, pela primeira vez na vida) estou me vendo de forma clara, distinta, conscientemente; olho para mim, admirado, como se estivesse vendo alguém diferente de mim.

Lá está ele, o meu eu: ele franze as sobrancelhas negras, linhas tão direitas como se fossem desenhadas à régua, com uma ruga vertical no meio, que dá a ideia duma cicatriz (não sei se já estava lá antes).

Olhos cor de aço, rodeados pela sombra das olheiras, e atrás do aço… De fato, nunca soube o que haveria lá atrás.

tp - Menciona Adão e Eva

Aquele casal, no Paraíso, teve que escolher entre felicidade sem liberdade ou liberdade sem felicidade. Não havia terceira alternativa. Os pobres doidos escolheram a liberdade e aconteceu com eles sabes o quê?

Evidentemente, durante as épocas que se seguiram suspiraram pelas algemas. Algemas percebe? É o significado de Weitschmerz. Durante séculos! E só nós é que por fim descobrimos a maneira de recuperar a felicidade.

Mas escuta, (escuta agora o seguinte: o Deus dos antigos e nós sentamo-nos lado a lado, à mesma mesa). Sim! Ajudámos Deus a vencer o Diabo de uma vez por todas.

Porque era o Diabo que incitava os mortais a transgredirem o interdito, a provarem a liberdade perniciosa, era ele, a serpente sutil. Mas nós, com calcanhar forte, esmagamos a cabeça do insignificante ofídio e scrach! E chamamos pra nós o Paraíso, novamente. Tornamos a ser simples de coração, inocentes como Adão e Eva.

Acabaram-se todas aquelas tolices a respeito do Bem, a respeito do Mal; tudo é tão simples quanto pode sê-lo, infantil, paradisíacamente simples. O Benfeitor, a Máquina, o Cubo, a Campânula Pneumática, os Guardas: tudo isso é bom, grande, esplendidamente belo, nobre, exaltado, cristalino.

São tudo formas de proteger a nossa não liberdade, ou seja, a nossa felicidade. No nosso lugar, os antigos começariam a refletir sobre tudo isso, a fazer comparações, a quebrar a cabeça com o que é e o que não é ético.

Voltando ao princípio, enfim, que achas de um pequeno poema paradisíaco assim? E o tom será austero, percebes? Bonito, não achas?

12-entrada-a-limitacao-do-infinito-o-anjo-reflexoes-sobre-a-poesia

Narrador volta a rotina de “máquina”, anjo da guarda humano, matemática, comparação criatura e Deus, mar, energia, design inteligente

tp - empíreo Empíreo refere-se à parte mais elevada do céu na mitologia e cosmologia antiga, considerada a morada de deuses, santos e seres abençoados. Derivado do grego émpyros (“no fogo”), representa o paraíso supremo, muitas vezes associado ao elemento fogo ou éter. Também pode significar algo celestial, divino ou superior.

Os nossos poetas não vivem já no empíreo. Desceram a terra, caminham ao nosso lado, avançam ao ritmo da Marcha mecânica e austera que se ergue da Oficina Musical; a lira deles é a fricção matutina da escova de dente elétrica, o belo trovejar das faíscas na Máquina do Benfeitor, o eco majestoso do Hino do Estado Único, o íntimo tilintar dos cristalinos vasos de noite, o hilariante cair das persianas que se fecham as vozes contentes do último livro de cozinha e o quase inaudível sussurro das membranas de escuta sob o pavimento das ruas.

*Os nossos deuses estão aqui em baixo no meio de nós: nos Gabinetes, na cozinha, na oficina, no lavabo… Os deuses passaram a ser como nós; ergo, nós passámos a ser como os deuses. E vamos agora ter convosco, leitores planetários desconhecidos, vamos até vós para tornarmos a vossa vida tão divinamente racional e regular como a nossa.

13-entrada-neblina-eles-uma-aventura-profundamente-absurda

Encontro com a figura feminina do “veneno”

Deve ser assim a alegria que sente um bocado de ferro quando se submete a uma lei inevitável, infalível, e se deixa atrair pelo ímã. Ou a da pedra que, uma vez no ar, hesita um segundo e logo a seguir se precipita impetuosamente para a terra.

Ou a do homem que, no extremo da agonia, solta o último suspiro e… Morre.

Sobre o nevoeiro e atração

- Gostas do nevoeiro, tu?

Aquele tu de antigamente, há muito esquecido, o tu do dono para o escravo, enterrou-se em mim profunda e lentamente: sim, eu era um escravo e, mais uma vez, assim tinha que ser; e era bom que o fosse.

- Sim, é bom - disse em voz alta, de mim para mim, e só depois lhe respondi:

- Detesto o nevoeiro. Tenho medo do nevoeiro.

-Significa isso que gostas dele. Tens medo dele por ele ser mais forte do que tu; odeia-lo porque tens medo dele; tens medo dele porque não podes deixar de te submeter a ele. Porque só podemos amar o indomável.

Sim, era isso. E era precisamente por… Era precisamente por isso que eu…

tp - algures - Em algum local ou parte; num lugar onde não se quer indicar ou falar diretamente; num local que não se sabe ao certo: vi o anúncio algures.

Narrador em fuga com as regras e sua responsabilidade com O Integrador

14-entrada-meu-impossivel-um-chao-frio

Justificativa de suas “falhas a regra

15-entrada-a-campanula-de-vidro-o mar-de-espelho-estou-condenado-ao-fogo-eterno

tp - campânula - Flor das plantas campanuláceas, com forma de uma campainha. Pequeno vaso, geralmente de vidro, em forma de sino, ou parabólico Campânula é um vaso de metal ou de vidro em forma de sino, utilizado comumente como equipamento de laboratórios de física e de botânica.

Ausência do narrador, pessoa sem número no estaleiro do Integral

…Aqui o objetivo a atingir é a segurança do Estado Único. Ou por outra: a felicidade de milhões. Há cinco séculos, mais ou menos, quando o trabalho da Divisão Operacional estava ainda na fase de formação, houve pobres de espírito que compararam a Operacional à antiga Inquisição.

Vendo bem, trata-se de um absurdo tão grande como colocar no mesmo plano um cirurgião que faz uma traqueotomia e um salteador que corta pescoços. Ambos recorrem a uma faca, porventura uma faca do mesmo género; fazem ambos a mesma coisa, que é cortar a garganta duma pessoa viva.

Mas um é benfeitor e o outro é um criminoso; um está marcado pelo sinal mais e outro pelo sinal menos. Os fatos não podem ser mais claros, basta um segundo, basta rodar uma só vez o botão da máquina lógica…

16-entrada-amarelo-uma-sombra-com-duas-dimensoes-uma-alma-incuravel

Tentativa de nova visita a E-330

Consulta para ficar fora do radar

17-entrada-o-outro-lado-do-vidro-morri-corredores

Narrador, busca pela origem dos desdobramentos até então, volta a Casa de Antiguidades, narração de fantasia/delírio e talvez fato real sobre o que passa consigo

18-consigo-as-selvas-da-logica-ferimentos-e-um-emplastro-nunca-mais

Sono, regras da Tábuas dos Mandamentos Horários, âmago de si sobre o que acontece desde o primeiro encontro

estou a fazer um romance de aventuras fantásticas. E se ele fosse realmente um romance fantástico e não a minha vida presente, cheia de X, de -1 e quedas?

Noite

Carta

19-entrada-um-infinitesimal-de-terceira-ordem-um-olhar-carregado-do-parapeito

Construção do Integral, acidente com os números, dizimados durante a fabricação

Concepção de um filho

20-entrada-a-descarga-material-para-ideias-a-rocha-zero

Discorre sobre direitos

tp - reductio ad finem - redução até o fim

Há ideias de argila e há ideias moldadas para todo o sempre em ouro ou então no nosso vidro precioso. E para se determinar a substância duma ideia, basta aplicar-lhe uma gota de ácido forte.

Um desses ácidos era já do conhecimento dos antigos: reductio ad finem. Era assim que eles lhe chamavam, creio; mas tinham medo desse veneno. E preferiam antes ver uma espécie de céu (ainda que um céu de argila, de brincar) do que um nada azul.

Bom… vamos então aplicar uma gota de ácido à ideia de direito. Mesmo entre os antigos, havia alguns mais maduros que sabiam ser a força a fonte do direito, ser o direito uma função de força.

Suponhamos dois pratos duma balança. Num está um grama, noutro está uma tonelada; naquele, Nós; neste, o Estado Único. Não é nítido que a ideia de eu ter alguns direitos em relação ao Estado e a ideia de um grama poder contrabalançar uma tonelada, não é nítido que essas duas ideias se reduzam à mesma única ideia.

Há que distinguir: os direitos para a tonelada, os deveres para o grama e o percurso natural para se passar da nulidade à grandeza é esquecermo-nos de que somos um grama e sentirmos que somos a milionésima parte duma tonelada.

21-entrada-um-dever-do-autor-engrossa-o-gelo-o-amor-mais-dificil

se afinal de contas não há quebra-gelo capaz de quebrar o mais translúcido, o mais sólido cristal da nossa vida…

Narrador ainda em choque com todo acontecido, narrativa tende de obediência a destaque de sentidos humanos

22-entrada-ondas-paralisadas-tudo-ainda-a-atingir-a-perfeicao-sou-um-microbio

Sem notas

23-entrada-superiores-dissolucao-dum-cristal-se-ao-menos...

Mais cupom cor de rosa, preocupação, relógio, 20 minutos

24-entrada-limites-duma-funcao-pascoa-destrui-tudo

Sobre a morte

Sou uma espécie de máquina forçada a rodar excessivamente: os eixos estão ao rubro; mais um minuto e o metal quente começará a derreter, ficará tudo desconjuntado.

Depressa: que é da água da lógica? Despejo alguns baldes da água da lógica sobre a máquina, mas ela, assobiando ao contato com o metal, sobe no ar em forma de vapor fugidio e branco.

Pois é: para se atingir o verdadeiro significado da função, é preciso ter em consideração quais os seus limites. E é evidente que a absurda dissolução no universo ontem referida, será a morte, se for levada até ao limite.

Até porque a morte é precisamente a nossa dissolução total no universo.

Ergui, se Amor for A\text{Ergui, se Amor for } A  e a Morte for M, teremos: \text{ e a Morte for } M \text{, teremos: } A=f(M)A = f(M) ou seja, amor e morte...\text{ou seja, amor e morte...}

Sim, é isso mesmo! E é por isso que eu tenho medo de E-, é por isso que luto contra ela, é porque não quero morrer.

Talvez uma crítica que se estenda a democracia

As eleições têm um significado que é acima de tudo simbólico: recordam-nos que somos um organismo poderoso, com milhões de células, que somos (falando a linguagem do Evangelho dos antigos) a Única Igreja.

Além do mais, a história do Estado Único não registra um único exemplo de vozes que tenham ousado violar a majestade do coro uníssono deste Dia solene.

Que parece contradição em um próximo parágrafo

Diz-se que os antigos faziam as eleições deles de maneira secreta, escondendo-se como salteadores, e alguns dos nossos historiadores dizem até que os antigos iam votar cuidadosamente mascarados (imagino um espetáculo fantasticamente soturno; noite; uma praça; figuras negras encapotadas cosidas com as paredes; tochas acesas, com chamas negras e rubras bailando ao vento).

Não foi até hoje claramente definida a necessidade que eles tinham de tanto mistério; o mais provável será estarem estas eleições relacionadas com certos rituais místicos, supersticiosos, possivelmente criminosos.

Pela nossa parte nada temos a esconder, não temos de que nos envergonhar; celebramos as nossas eleições abertamente, honestamente, à luz do dia; eu vejo como todos votam no Benfeitor e todos veem como eu voto no Benfeitor…

Como poderia não ser assim, quando todos e eu somos um só Nós. Quanto mais nobre, sincero e sublime é isto do que aquele mistério covarde e suspeito dos antigos?

E quanto mais expedita não é a nossa maneira de proceder! Ainda que acontecesse o impossível (como sejam certas dissonâncias na nossa monotonia habitual), lá estão os guardas, invisíveis, no meio de nós, e eles sabem determinar imediatamente quais os números que caem no erro, saberiam evitar-lhes maus passos, salvando assim o Estado Único.

E, finalmente, há uma outra coisa…

25-entrada-descida-do-ceu-a-maior-catastrofe-da-historia-chegou-ao-fim-o-conhecido

Naquele momento, fui de novo o miúdo que noutros tempos chorava por ter uma mancha no uniforme, uma mancha tão insignificante que só ele a via.

Muito embora ali à minha volta ninguém visse as manchas negras e indeléveis que agora me cobriam, ou sabia perfeitamente que para mim, criminoso que era, não havia já lugar entre aqueles semblantes francos e abertos.

Ah, se eu pudesse erguer-me e, com a voz embargada, libertar o peito, confessando, aos gritos, tudo o que tenho aqui dentro! Que tudo acabe depressa…

26-entrada-o-universo-existe-erupcao-quarenta-e-um-graus-centigrados

Mais comentários sobre democracia

O Dia da Unanimidade, tão impaciente e universalmente esperado, celebrou-se ontem. O mesmo Benfeitor que tantas e tantas vezes provou a sua inegável sabedoria, foi unanimemente eleito pela 48ª vez.

A cerimónia foi marcada por alguns distúrbios provocados pelos inimigos da felicidade, que com tal façanha se privaram do direito de ser pedras dos alicerces do edifício, ontem renovado, do Estado Único.

É para todos os números evidente que ter em consideração os votos destes delinquentes seria tão absurdo como incluir numa sinfonia magnífica e heroica a tosse de alguns enfermos que casualmente se encontravam na sala do concerto.

27-entrada-nao-ha-sumario-impossivel

Sem comentários.

28-entrada-elas-ambas-entropia-e-energia-parte-do-corpo-opaca

Exploração fora do Muro Verde

Quem sabe como tu és? O homem é como os romances: só na última página é que se sabe o final!

Se assim não fosse, também não valia a pena lê-los…

Regresso como primitivos e nômades, possível crítica ao urbanismo.

tp-entropia

Repara: há neste mundo duas forças, a entropia e a energia. A primeira leva ao quietismo beatífico, a um equilíbrio venturoso; a outra, à destruição do equilíbrio, ao movimento dolorosamente perpétuo.

Era a entropia que os nossos melhor dizendo, os vossos antepassados cristãos adoravam como um deus. Mas nós somos anticristãos, nós…

A entropia (S) é uma grandeza termodinâmica que quantifica o grau de desordem ou aleatoriedade de um sistema. Mede o número de microestados possíveis compatíveis com um dado macroestado — quanto mais formas um sistema pode se arranjar microscopicamente, maior sua entropia.

Formulada por Rudolf Clausius (1865):

ΔS=QT\Delta S = \frac{Q}{T} onde Q eˊ o calor transferido e T eˊ a temperatura absoluta (Kelvin)\text{onde } Q \text{ é o calor transferido e } T \text{ é a temperatura} \text{ absoluta (Kelvin)}

segunda lei da termodinâmica

Em um sistema isolado, a entropia total nunca diminui espontaneamente. Formalmente:

ΔSuniverso0\Delta S_{\text{universo}} \geq 0

Os processos naturais possuem direção preferencial: caminham sempre para maior desordem. Isso confere uma assimetria temporal à física — explica a irreversibilidade dos processos e a “seta do tempo”.


Correlação

A entropia é o objeto mensurável; a Segunda Lei é a regra que governa seu comportamento. Juntas, descrevem a tendência universal à desordem.

Aspecto Entropia Segunda Lei
Natureza Grandeza de estado (mensurável) Princípio físico universal
Função Quantifica a desordem Governa a evolução da desordem
Escopo Propriedade de um sistema Lei que rege o universo

Exemplos - Entropia

1. Dissolução de açúcar no café

Moléculas de um cristal organizado se dispersam no líquido, passando de um estado ordenado para máxima dispersão molecular. Processo espontâneo e irreversível — o açúcar jamais se reorganiza em cristal sozinho.

2. Envelhecimento biológico

Com o tempo, proteínas se degradam, erros de DNA se acumulam e a organização celular se deteriora. O envelhecimento é, em parte, manifestação do aumento irreversível da entropia nos sistemas biológicos.

3. Expansão de um gás

Ao abrir um recipiente pressurizado, as moléculas se dispersam pelo espaço disponível. O número de microestados aumenta drasticamente. O processo inverso — retorno espontâneo ao recipiente — é termodinamicamente impossível.


Exemplos - Segunda Lei

1. Motores a combustão

Nenhum motor converte 100% da energia do combustível em trabalho útil. Parte é obrigatoriamente dissipada como calor — exigência direta da Segunda Lei. A eficiência máxima teórica é definida pelo Ciclo de Carnot:

ηCarnot=1TfrioTquente\eta_{\text{Carnot}} = 1 - \frac{T_{\text{frio}}}{T_{\text{quente}}}

2. Transferência de calor

Uma xícara quente em ambiente frio sempre perde calor para o entorno, nunca o contrário. O calor flui espontaneamente apenas do corpo mais quente para o mais frio. A Segunda Lei proíbe o processo inverso:

ΔStotal=ΔSfrio+ΔSquente0\Delta S_{\text{total}} = \Delta S_{\text{frio}} + \Delta S_{\text{quente}} \geq 0

3. Deterioração de estruturas físicas

Pontes, edifícios e máquinas se degradam naturalmente. Manter a ordem exige aporte contínuo de energia. Sem intervenção externa, o sistema caminha inexoravelmente para maior desordem.


Síntese

Aspecto Entropia Segunda Lei
Foco Estado de desordem do sistema Direção e irreversibilidade
Exemplo 1 Açúcar dissolvido no café Motor que dissipa calor
Exemplo 2 Envelhecimento celular Calor do quente para o frio
Exemplo 3 Expansão de um gás Deterioração de estruturas físicas

Entropia e Segunda Lei governam desde motores industriais até os processos fundamentais da vida — a ordem no universo sempre exige energia para existir.

tp - excelso

Ponto superior, mais sublime

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E depois?

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41-autobiografia

1929

Relato sobre sua avó, mãe que parte, vista de pessoas com 3 anos em Zadonsk

Voronej.

O rio, banheira singular para mim e lá dentro (recordar-me ia mais tarde quando num lago vi ursos brancos) banha-se um corpo feminino enorme, róseo, volumoso, a tia da minha mãe.

Sinto curiosidade e um certo medo.

Pela primeira vez compreendo o que é uma mulher.

4 anos de idade, conhecimento de alfabetização

Ida ao liceu com 8 anos de idade

Tudo isto nos campos de Tambov, numa cidade célebre pelas suas traficâncias, os seus ciganos, as feiras de cavalos e a sua língua solidamente russa, em Lébédyan, da qual falaram Tolstoi e Turgueniev. Nos anos 1884-1893.

12 anos, briga no liceu, leitura de clássicos russos

A partir de 1896, o liceu em Veronej. A minha especialidade por todos conhecida: a redação em russo.

A minha especialidade por ninguém conhecida: todas as experiências possíveis sobre mim próprio - para me temperar.

Mordida por um cão, suspeita de raiva, lida de um manual de medicina, comunicado ao liceu, ida a Moscou para vacinação

…e recambiaram-me logo para Moscou, para fazer as inoculações de Pasteur.

A experiência terminou bem. Mais tarde, dez anos mais tarde, no decorrer das noites brancas de Petersburgo, quando conheci a raiva do amor, fiz a experiência com mais seriedade, não com mais inteligência.

1900-1905, saída do liceu, vida em São Petersburgo, estudo na Escola Politécnica, estágio no navio Rossiya, rota entre Odessa e Alexandria (canal de Suez)

Piquetes, prisão, expulsão de São Petersburgo, bolchevique, volta a terra natal, término do curso de Engenharia naval, aulas da cadeira, atividades da área, pouco escrito até 1911.

1913, tricentenário dos Romanov, ida para Nikolaiev, escrita do romance Em Cascos de Rolha

…Assim que este apareceu na revista Zavet, o número foi confiscado pela censura - a redação e o autor, levados a tribunal. Julgaram-nos pouco antes da Revolução de Fevereiro: quando veio a absolvição.

1915 e 1916, relata vivência no ocidente, período na Escócia, navios quebra gelo, decide voltar a Rússia por conta da revolução e relata sobre a o ímpeto germânico na guerra.

Volta a lecionar mas na cadeira de literatura

…Herzen (1920-1921), um curso de técnica de prosa artística no Estúdio da Casa das Artes…

42-notas-adicionais

Personagens principais

História (resumo)

Lições a tirar