Resumo De Livro: Laowai (Sonia Bridi)

2026-07-17

Título original: Laowai - Sonia Bridi (Caçador, Brasil-SC, 13-11-1963 - 63y - consulta em 17-07-2026)

Publicado em 2018

SUMÁRIO

c00-intro

c01-ola-pequim

c02-o-ano-do-galo

c03-a-vida-em-xidawang-lu

c04-lost-in-translation

c05-parceiros-da-aventura

c06-reportando-na-china

c07-os-ventos-da-primavera

c08-o-monge-e-a-galinha-de-ouro

c09-producao-e-consumo

c10-um-bom-dia

c11-uma-historia-cabeluda

c12-chinglish

c13-os-negocios-da-china

c14-remanescentes-da-revolucao-cultural

c15-a-medicina-tradicional-chinesa

c16-uma-chinesa-em-casa

c17-o-futuro-em-construcao

c18-abaixo-da-superficie

c19-ano-do-cachorro

c20-na-terra-do-sol-nascente

c21-o-afeto-reprimido

c22-deng-pufeng

c23-novos-males-novas-curas

c24-hostilidade-festiva-na-fronteira

c25-O-exilio-do-dalai-lama

c26-sucesso-incomoda

c27-enxergando-longe

28-uma-copa-do-outro-lado-do-mundo

c29-viagem-ao-topo-do-mundo

c30-pais-filhos-e-casamentos

c31-yunnan

c32-censura-e-uso-da-forca-para-calar -a-voz-do-povo

c33-cingapura

c34-muitas-cavernas-e-um-funeral

c35-guilin

c36-fabrica-de-artistas

c37-pamunjong

c38-sobre-mudancas-e-coisas-imutaveis

c39-mamae-chefe-a-princesa-que-recuperou-sua-corte

c40-tchau-zai-jian

c41-epilogo

c42-album-de-viagens

c43-os-autores

c00-intro

LAOWAI

Lao - velho

Wai - de fora

Laowai - tratamento informal para estrangeiro, gringo

“Travel is fatal to prejudice, bigotry, and narrow-mindedness,and many of our people need it sorely on these accounts. Broad, wholesome, charitable views of men and things cannot be acquired by vegetating in one little corner of the earth all one’s lifetime.”

“Viagens são fatais ao preconceito, à discriminação, à visão estreita, e muitos do nosso povo precisam terrivelmente de viagens, por causa disso. Uma visão ampla, integral e caridosa das pessoas e das coisas não pode ser adquirida vegetando num cantinho do planeta durante a vida inteira.”

Mark Twain

Aos meus pais, que cedo deram a minha herança:

Elvira, o amor pelas palavras e os livros,

Edemundo, a vontade de ver o mundo...

agradecimentos

Ao Jakzam e Tetê, mulher dele e querida amiga dos tempos de Floripa, por terem feito a marcação cerrada e me convencido a escrever este livro.

Ao Paulo Zero, que nos últimos anos não deixou passar um dia sem me lembrar que essa tarefa me esperava. Ao Pedrinho e à Mariana, que me fortalecem a cada dia com seu amor. A minha sobrinha Graziella, que dublou de mãe e pai tantas vezes em Pequim.

Romeo e Leilah Zero, que nos apoiaram e visitaram mesmo quando levamos o neto para o outro lado do mundo. À Maria de Fátima Brito, a Fafá, que por duas vezes se sacrificou por amor ao Pedro: quando foi para Pequim conosco e quando voltou ao Brasil deixando Pedrinho para trás.

Aos amigos que incentivaram e acreditaram: Chico José e Bia Castro, Chico Pinheiro e Carla Vilhena, José Luís Chiarelli, Márcio Canuto e sua linda Líbia.

Ana Escalada e Ivone Happ, que pacientemente leram e apontaram os (muitos) problemas da narrativa. Timóteo Lopes, que fez da revisão várias lições de jornalismo impresso.

À Lucy Villa Lobos, que da China nos garantia que Pedrinho estaria bem, que seríamos felizes – e fomos.

À Sônia de Castro Neves, que muito antes de ter um neto ofereceu os mimos de avó ao Pedro tantas vezes.

Ao Jayme Martins, por duas razões: ter incentivado a mim e ao Paulo a ir, sim, para a China, e participar da maior cobertura jornalística em andamento no mundo, e por ter tido a generosidade de, com seu imenso conhecimento do país, apontar meus equívocos, mostrar caminhos.

A todos os amigos de Pequim, chineses e brasileiros, devidamente citados ao longo das páginas seguintes.

Ao Eric Hart, o editor da TV Globo que foi nosso elo com o Brasil nos anos chineses. E, finalmente, ao Carlos Henrique Schroder, que, entre tantos repórteres, nos ofereceu o privilégio de embarcar nessa aventura que vocês vão conhecer agora.

apresentação

Por Mônica Waldvogel, jornalista

Elogio a autora sobre seu texto jornalístico bem como a escolha do repórter cinematográfico e marido Paulo Zero, muda toda família a China, Sonia, Paulo, filho de 3 anos, baba e Mariana Bridi, primogênita de seu primeiro relacionamento com Edson Spinello embarca e fica pouco até adaptação do irmão Pedro

São 2 anos da família por lá

apresentação da nova edição

Família vai em 2004 para a China, incentiva a escrever já neste ano, mas faz apenas em 2008, Sonia volta ao país mais de 1 vez:

introdução

Autora lembra quando foi seu primeiro trabalho com Paulo, inclusive é seu primeiro trabalho como correspondente internacional, nos Estados Unidos, Nova Iorque. Escultura de cupido, Michelangelo

Paulo já popular no ramo como excelente repórter cinematográfico (veja breve biografia dele aqui)

…lembrava do nome dele nos créditos desde a minha adolescência. O que eu não sabia é que ele era também jovem e bonitão…

Breve biografia dele narrada, 30 anos de carreira quando se conhecem, pai diplomata, abandona curso de cinema na UnB, parte a Nova Iorque, faz sua formação no New York Institute of Technology.

Aos 20 anos, estágio no escritório da TV Globo de Nova Iorque, por lá desde então. Personalidade dele, calado, não conta suas estórias de cinegrafista, diz Silvia Sayão, terremoto em El Salvador em 1987, outras estórias:

Colômbia - vulcão de Armero

México - explosão de gás em Guadalajara

América Central - Romero, década de 1980

El Salvador - enterro bispo Romero

Nicarágua - pega hepatite

Ruanda - massacre

Zaire - epidemia de ebola - Zaire é o que hoje se conhece como RDC, nome usado entre 1971 a 1997. Nota própria: conflitos no Zaire contra Bélgica, participação angolana nos conflitos com José Eduardo Van-Dúnem dos Santos

Irã - esteve em Teerã no seu aniversário de 22 anos, sequestro na embaixada dos Estados Unidos, repórter Sérgio Motta Mello, Paulo sai para fazer imagens abordados por uma milícia, separado do seu motorista/intérprete, interrogatório

…De repente, os dois veem-se cercados por uma milícia, o pavor estampado nos olhos do motorista. São presos. O motorista é levado para um lado, Paulo para outro, enfiado numa saleta para ser interrogado por um oficial que não se deixou convencer pelo passaporte brasileiro.

– Você é espião americano.

Sentado na sala escura, Paulo tem os olhos fixos na pistola que o interrogador, em pé, segura com a mão direita, e repete a mesma resposta:

– Sou brasileiro, jornalista brasileiro.

Depois de horas de tortura psicológica, perde a paciência:

– Já disse que não sou americano. Sou brasi-lei-ro! Sabe Brasil? Café, futebol, Pelé!

– Pelé? – diz o oficial.

E continua, no sotaque carregado:

– Pelé, Jairzino, Tostao, Gêrson, Rivelino…

E relembra toda a escalação da seleção brasileira de 1970. Quando continua, dando a escalação do Irã, Paulo é sarcástico, diz que o time é ruim, não joga nada. O rebelde percebe que um americano não poderia entender de futebol para uma análise tão crua, e então resolve soltá-lo.

O episódio, e outros semelhantes em que esteve com a vida em risco, nunca o assombrou - seus pesadelos têm corpos de crianças mortas na América Central, explosões de minas que tornam a vida humana massa ensanguentada.

Este é o meu parceiro. Na vida e nas reportagens.

Sonia diz que sempre descobre essas histórias de Paulo por terceiros.

tp-links-complementares

sonia-diz-nunca-ficamos-10-minutos-de-mal-o-globo

memoriaglobo-sonia-bridi

1ª-guerra-do-congo

c01-ola-pequim

Ken, chinês a espera da família, 3 quartos, família: Mari, Pedro, Paulo Zero E Sonia. A babá também vai, logo são 5.

…Mariana, minha filha, veio para ajudar na adaptação do irmão Pedro, nos primeiros dias. Paulo, eu e Fafá – a Maria de Fátima, uma piauiense gordinha, risonha e valente que embarcou na aventura conosco certa de que não seria muito mais difícil ir de avião para a China (32 horas, contando as escalas) do que num pau de arara de Cristino Castro, Piauí, até São Paulo.

Fafá praticamente viu Pedro nascer e seus cuidados se mostrariam fundamentais nos meses seguintes…

Família planeja ficar 2 anoa e 3 dias, como dito antes, não é a primeira vez de Sonia no país, mas relata sobre o céu azul é sol, mas com -10°C e a poeira da cidade. Compara de quando foi ao país no verão e haviam flores.

tp-O fuso e a fila

Dificuldades do fuso horário, 11h a frente, filho Pedro (3y), madrugada, 10 noites de revezamento para brincar, adultos com seu jeito para lidar com o fuso horário, ar seco, deserto de Gibi, Pequim 90 km da margem sul do mesmo, umificadores de ar, temperatura sempre a abaixo de zero desde novembro

Conhecem no hotel o casal de diplomatas brasileiros Marissol Romaris e Luís Fernando de Carvalho, família de Sonia convidada para festa no mesmo dia que chegaram, comemoração aniversário filho Lucas dos diplomatas (bebezão)

Pequena comunidade brasileira ali no hotel em Pequim, time da embaixada e grupo de engenheiros da empresa catarinense Embraco, empresa é uma das pioneiras em investir por lá em joint venture com outra companhia chinesa

…O embaixador Luiz Augusto de Castro Neves colocou-se à disposição, se precisássemos de ajuda. Nem imaginávamos o quanto iríamos precisar. E logo…

Trâmites para entrada no país, colheu informações na embaixada da China no Brasil:

Relata que foi mais difícil achar o endereço do birô de jornalistas a pegar a licensa de imprensa

Prosseguem para dar andamento ao processo

…No Birô de Relações Exteriores, jovens diplomatas com inglês fluente atendem os jornalistas. São simpáticos, gentis, eficientes. Temos de adotar nomes em chinês.

Por causa dos “erres”, que os chineses são incapazes de pronunciar, Bridi e Zero são descartados.

Eu agora sou 索妮雅 – Suo Ni Ya. Dizem que os três ideogramas significam delicadeza e feminilidade – sem me perguntar se é isso que quero implícito no meu nome.

Paulo é 保罗 – Pau Luó –, um nome viril, garantem. Recebemos com as carteiras um livrinho – o livro de normas de comportamento dos jornalistas estrangeiros…

Abertura de conta bancária, ajuda do mesmo Ken que recebeu a família no aeroporto, papel de intérprete, Banco da China, processo arcaico para o sistema bancário, porém entidade com maior número de agências

…apart hotel na região de Yabao Lu. É um pedaço do Distrito de Chaoyang que concentra o comércio dos russos e fica ao lado do setor de embaixadas, onde está também a do Brasil…

Cambio negro na porta do banco, sem filas, Sonia diz que teve sua primeira lição de confucionismo (mais forte sobre o mais fraco), cultura do dinheiro vivo na China, automação bancária e crédito ainda arcaico por lá comparado ao Brasil, sua conclusão é que o Brasil avançou por conta da hiper inflação das décadas de 1980 e 1990

No dia seguinte vão a triagem médica, exames são mal feitos, exceto o de soropositividade

tp-Asian luxury

Buscam por intérprete, tempo de estudo para fluência são 2 anos de dedicação exclusiva, vão estudar 3x na semama só o básico, ajuda do estudante Timur Kao, nascido no Brasil, filho de uma mulher da embaixada e um engenheiro da Embraco, ambos são de Taiwan, ajuda do estudante até um intérprete definitivo, pela embaixada, contrato de motorista, Lu Baoyin

…O motorista, Lu Baoyin (pronuncia-se o “U” de Lu como se fosse com ü, estendendo o som do iiii. Mas, para nós, ficou só Li), tem 26 anos, mas aparenta ter 16. Ele é pequeno, parece leve, não deve pesar 50 kg e tem cintura fina, rosto delicado, sorridente.

Dirige uma Jinbei – espécie de Kombi chinesa –, perua de traços retos, bancos desconfortáveis e amortecedor de quinta. A de Li, ainda por cima, é velha, tapetes cobrindo os furos nos assentos. Mas a figura é tão simpática e prestativa que acertamos com ele por 2 meses – até comprarmos nosso próprio carro e contratarmos um motorista…

Sonia diz que para encontrar apartamento é fácil, muito por conta da bolha, sabe-se no momento que escrevo isso (2026) estourou há alguns anos depois do relato dela.

Relata sobre os condomínios onde há pequenos shoppings dentro, área dedicada a laowai em Chaoyang distrito de Pequim

…Até o fim dos anos 90 (1999-2000), estrangeiros, obrigados a morar, condomínios diplomáticos. Há vários em Pequim, distrito de Chaoyang áreas de embaixadas.

Mas com o boom imobiliário e as numerosas chegadas de laowais para viver e trabalhar na nova China, o governo afrouxamento das regrasd

Em 2005, 2 distritos de Pequim foram liberados para os laowai, 300 mil que viviam na cidade de Chaoyang. Depois, as regras de zoneamento para estrangeiros foram extintas. Os apartamentos diplomáticos têm fama de ser cheios de escuta.

Os empregados, indicados pelo Birô Diplomático, seriam espiões. Mesmo assim, é o primeiro lugar onde procuramos. Apartamentos amlugar perto dos colegas jornalistas.

No Jian Wai, o condomínio diplomático em frente à embaixada do Brasil, estão a CNN, a Reuters, a APTN, a Newsweek, a Al Jazeera e muitos outros escritórios de jornalismo estrangeird e centro de geração de satélite da CCTV (China Central Television), estatal, mmonopoliz, envio de imagens por satélite…

Situação engraçada com os corretores que falam inglês, piada entre o casal Asian luxulu, decoração deles não era muito agradável

…O pior é que as corretoras nos abrem a porta com um enorme sorriso e interpretam erradamente minha cara de surpresa.

– Não disse? – exclama uma delas, ao mostrar-me a piscina cercada de coqueiros artificiais de um condomínio com bons apartamentos (os vazios, pelo menos) em frente ao parque Chaoyang.

– Lu-xu-o-so! Luxury é a palavra mágica. Asian luxury vira nossa piadinha interna para descrever o mau gosto do novo-riquismo oriental…

Encontram um local, 2º andar, Lan Bao (Castelo Azul), lembra um pouco o bauhaus alemão (escola de arte), decoração até agrada a família, mas tem um tom kitsch

Kitsch é um termo estético que define objetos, obras de arte ou decorações caracterizados pelo exagero, sentimentalismo e mau gosto. Ele imita estilos clássicos ou eruditos para consumo de massa, resultando em produções vulgares que priorizam o impacto emocional fácil em vez do valor artístico.

…Outra peça super kitsch da decoração, entretanto, resolvemos manter, só por diversão – 2 deuses taoístas, cada um segurando uma espada, apoiando com elas um grande prato dourado. Batizamos os deuses de Xing e Ling e os deixamos sobre o aparador na entrada…

Ao visitar a academia do local e demais espaços encontram mais brasileiros

Locatário coloca no contrato que deseja receber em dólares, membro influente do Partido Comunista na região do interior, fuga do fisco

Li o motorista, dirige até a imigração, lá o intérprete Timur ajuda, formulário caneta azul, oficial (mulher) rude, preenchimento caneta preta, indagação de Sonia, por que não avisou antes, Timur não traduz a oficial, corrigido de caneta preta, falta carimbo da empresa no formulário, recebe autorização para fazer o carimbo, volta com o formulário carimbado, falta registro de residência na delegacia, fazem o registro, delegacia escondida em um beco. Volta a Imigração, na China não há união estável, funcionário pede para voltar outro dia, levará a um superior

tp-A noite do xamã

Paulo calado, febre alta, filhos também doentes (Pedro congestionado, Mariana com dor, Fafá espirrando), todos tomam própolis e vitamina C, Paulo atinge 40 graus, tilenol e novalgina não cedem, pedem socorro à embaixada, chega o médico brasileiro Ahmed Yousif El Tassa, especialista em medicina chinesa, examina Paulo e propõe guaxá (raspagem nas costas com espátula e óleo vermelho), apesar da descrença de Paulo, a febre baixa e ele sente náuseas, médico faz quiropraxia e receita ervas, atende Pedro com massagem entre dedos que provoca vômito, trata Mariana, Fafá e a narradora com acupuntura, após quatro horas todos melhoram, Paulo se converte à medicina alternativa, episódio fica conhecido como “a noite do xamã” na família.¬

siesta - descanso curto a tarde

Visto aprovado com favor especial pela amizade Brasil-China, funcionário recomenda casamento, Paulo e Sonia riem da ideia, equipamento chega na alfândega, vão ao aeroporto mas são enviados a outra sede para preencher papéis, no dia seguinte Li evita pedágio para economizar, mas preferem pagar o dólar para ganhar tempo, 3 dias de idas e vindas, exigem documento dos três “Cês” para mixer e conversor de áudio, ninguém sabe explicar o que é, descobrem que é tradução técnica para chinês, equipamentos são made in China para exportação, último dia antes do feriado voltam com despachante e intérprete Alison, pedem para falar com o diretor, estava na siesta, diretor diz que sem proposta mais interessante pedirá documento para todos ou confiscará tudo, saem sem sucesso, fogos e cantoria celebram o Ano-novo, Ano do Galo começa mal, pedem ajuda ao embaixador, que acionará contatos no Conselho de Estado só após o feriado de dez dias.

c02-o-ano-do-galo

Ano novo chinês (ano do galo, frustração pela não reportagem, passeio para simulação de como seriam as gravações, -14ºC, templo taoista, desfile de ano novo, crianças maquiadas 6-8 anos trajes imperiais como cantoras de ópera chinesa. Alegorias de papel, carro de bombeiros com 7 brigadistas

taoismo - Lao TSE, contemporâneo de Confúcio, no século 6 a.C. Tao significa o caminho. Como os budistas, os taoístas também têm uma grande tradição de exercícios físicos e artes marciais ligados à prática religiosa.

Dentro do templo confraternização similar as quermesses brasileiras, fruto do espinheiro (similar a maçã doazedo), azedo, homem com doce de caramelo

…Um grupo de crianças em círculo chama a atenção. No centro, um homem prepara os doces mais pitorescos que se possa imaginar: soprando o caramelo, como um artesão vidreiro, ele vai fazendo cavalos, ratos, serpentes, tudo de açúcar derretido. O campeão de vendas em caramelo é o galo, signo do ano que começa.

As crianças saem carregando seus doces troféus na ponta de espetinhos de bambu. Acho meio nojento esse negócio de balas sopradas pelo artesão de dentes escuros e saio sem levar um “caramelo-murano” para o Pedrinho provar…

Fogos de artifício, proibição de queima até o 4º anel viário, no 1º Cidade Proibida e Palácio Imperial

Deslocamento ao Parque do Dragão, Templo da Água, 4 elementos (fogo, ar, água e terra), um dos 4 templos dedicado, ambulantes noa arredores do parque, palmilhas de feltro, isolamento térmico para os pés, frustração consigo pelo despreparo, Pequim é seca e fria, chuva é neve raramente aparecem

Atração no Parque do Dragão, barco no rio congelado, navega do Palácio Imperial de verão até lá (Pequim)

…Simboliza a volta a Pequim de uma princesa dada em casamento ao rei do Tibete no século VII, que levou o budismo àquele reino do Himalaia, transformando-o para sempre e inaugurando a relação conflituosa entre China e Tibete que perdura até hoje…

Voltam ao apartamento, Sonia descreve sua preocupação com a volta da filha para o Brasil

Migração interna e especialização das províncias

Pequim, migrantes de toda a China, construção do Dongbei, motoristasdo Hebei, 300 mil domésticas do Anhui, no Ano-novo deixam patrões, província natal, trens lotados com viagens de dias, Ano-novo chinês como Natal brasileiro, 600 milhões viajando, em Pequim difícil achar restaurante, há dez anos tudo fechava e faziam estoque de comida.

Primeira ida ao supermercado, Carrefour vira Calefu, Tchalefu, adaptação a cultura local, tanques com rãs vivas e peixes vivos nadando, Pedrinho tenta pegá-los, etiquetas em inglês nos supermercados mas nome em caracteres ocidentais só dão pronúncia, brincadeiras tipo “ba xi quio”, dificuldade de ler rótulos, analfabetismo sentido na prática, decoreba de marcas e símbolos, adaptação em um mês, Jenny Lou’s com produtos importados (biscoito, bife, leite condensado, vinhos), friendship stores remanescentes da China fechada, hoje vendem DVDs quase todos piratas.

tp-Nomes e números

Não liga para previsões do Ano do Galo, nascida em dia 13, número de telefone com 4 custa um dólar (pré-pago, laowai não tem pós-pago), Paulo tem número com 6, feriado com passeio do Clube da Cultura Chinesa à Vila das Melancias, recepção com fogos e banda, liteira enfeitada para mulheres dançarem, Fafá vai e Pedrinho ri, homem sem camisa quebra tijolos e tábuas, vão às casas dos camponeses fazer jiaozi (pastel com carne de porco e cebolinha), casa simples com quartos em C e pátio interno, avós encantados com Pedro de olhos claros, chineses adoram crianças e param para fotos e abraços, no começo Pedro se assusta, depois curte, mas meses depois fugirá da atenção.

Curiosidade rotina dos locais, cultura do sepultamento com objetos de papel, queima, fumaça para elevação, citação de Qin Shi Huang unificação da China, exército de Terracota, descoberto em 1974, datado em 210 A.C.

Cita sua lembrança de Taiwan, tradições mais preservadas, agosto mês dos mortos cerimônia queima de papel, cita como nasceu Taiwan e Shian Kai-shek

c03-a-vida-em-xidawang-lu

Aluguel com mobília chinesa, wok frigideira funda, sem pratos mas com tigelas de arroz, sem talheres mas com palitos

Liberação do equipamento para gravação, contato embaixador brasileiro e da diplomata para América Latina, He Feng Hua - cujo nome ocidental é Diana

…Em poucos minutos liga também a diplomata responsável pela América Latina no Ministério das Relações Exteriores da China. Dá a mesma boa notícia.

He Feng Hua – cujo nome ocidental é Diana – tem, a partir de agora, um papel importante na nossa vida. Nossa facilitadora – e controladora – estudou em Cuba, fala espanhol com fluência e é a única chinesa que, ao me cumprimentar, me abraça e me beija: uma intimidade raríssima na China…

Conseguem retirada dos equipamentos, 20% imposto importação, símbolo do fisco chinês é um elefante (trocadilho para elefante branco), 80 mil yuans em espécie, não fila no Banco Da China e fisco

Sede com a ilha de edição casa, escritório TV Globo Ásia, Xi Da Wang Lu, Lan Bao Gong Yi, Bei Bi Er Lin San.

Internet muito boa, cômodo de 30m² aos fundos, filho Pedro começa a ter vida de estudante, visitam várias escolas, uma perto de casa tem cheiro horrível e promessa bilíngue falha (professores não falam inglês), preferem escola de Cingapura com método montessoriano, professores chineses e ocidentais, campus novo no condomínio da piscina very luxurious, nos primeiros meses Pedro fica só nas manhãs, Marissol e Luís Fernando consultores para comprar carro, mostram caminhonete de 7 lugares por 10 mil dólares, vão à Great Wall, test drive com a narradora dirigindo assusta vendedor, decidem uma preta para os Romaris-Carvalho e prata para os Bridi-Zero, com desconto.

Cores amarela e vermelha são mais caras, por simbolizar status, assim como os números de celular

Memória do último imperador

…Aisin Gioro Pu Yi, conta que sua memória da infância, na Cidade Proibida, parecia envolta numa bruma amarela…

Reportagem de estreia, Assembleia Popular Nacional da China, funcionamento por Jayme Martins

Teste carteira de motorista, 100 questões, 90 acertos, mais de 700 tópicos, questão sobre o cuspe

…Começamos a responder e não consigo conter um ataque de riso: o cuspe, caiu a questão do cuspe!

Estava no capítulo dedicado a questões de civilidade do manual, sob o número 10.25:

O que o motorista deve fazer se tiver necessidade de cuspir enquanto dirige?

a) Cuspir pela janela.

b) Cuspir num pedaço de papel e depois jogar no lixo.

c) Cuspir no chão do carro.

Ganha um caramelo soprado quem respondeu “b”. E não, não há a alternativa de não cuspir. As cuspidas, sempre estrondosas, daquelas que brotam do fundo da alma, são a trilha sonora das cidades chinesas. Nunca olhe para o lado de onde vem o som, se não quiser ver a ostra sendo expelida para o chão…

…Esperando do lado de fora, Li pergunta em chinês:

– Hao bu hao? (Bom ou não - o teste?)

– Hen hao! (Muito bom!) – respondemos.

…Tínhamos gabaritado a prova e partíamos em direção ao Palácio do Povo, onde, enfim, vamos iniciar nossa primeira reportagem…

tp-3 de março de 2005

Entrevista congressista mais antigo, funcionamento

Reunião dos membros, Audi A6, diversas etnias do país, Tiananmen (Praça da Paz Celestial - 05-06-1989), moças de qipao (cheongsam) no recebimento, politburo

Politburo (bureau político) é o principal órgão executivo e de decisão de um partido comunista, termo originado na Rússia em 1917 por Lenin e adotado por nações socialistas.

Entrevista coletiva com o ministro das Relações Exteriores, Li Zhaoxing, perguntas combinadas e enviadas previamente, controvérsia Zhang Zeming, ex-presidente, a Hu Jintao, o atual. Passagem em 2003, Zhang Zeming manteve o comando das Forças Armadas e fez Hu Jintao “perder a face” – vergonha difícil para um chinês carregar. Hu Jintao, deixa de pintar os cabelos

Zhang Zeming (ou Jiang Zeming) presidiu a República Popular da China de 1989 a 2003.

Teria sido escolhido pelo antecessor, Deng Xiaoping, que começou as reformas econômicas em 1978.

Sua principal qualidade teria sido reprimir sem violência em Xangai, onde era o chefe político, os protestos que ocorreram simultaneamente no Tiananmen.

Perder a face é uma expressão muito usada no Oriente. Significa passar vergonha, ser humilhado, mas com um peso social muito maior. Quem perde a face perde a autoridade moral, a autoridade vinda do respeito.

c04-lost-in-translation

Intérprete chinês-português, Sonia diz que no seu ciclo as pessoas que sabem bem o idioma são as filhas do jornalista Jayme Martins, Raquel e Andréa.

…Jayme Martins, que em 1965 veio para a China fugindo da ditadura militar no Brasil. Ele foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo e trouxe Raquel para Pequim com apenas um ano de idade. Jayme conta que a menina deu os primeiros passos no aeroporto de Orly, em Paris, esperando o voo para Pequim.

A irmã dela, Andréa, também fala perfeitamente os dois idiomas, mas não mora mais na China. Raquel Martins só voltou ao Brasil em 1980, já adolescente. Em 1987, estava de volta a Pequim. Ao todo, já viveu 36 anos na China.

No ano anterior, quando viemos fazer uma matéria para o Globo Repórter e acompanhar uma viagem do presidente Lula ao país, ela foi uma de nossas entrevistadas.

Naquela ocasião, foi um prazer vê-la dando uma bronca em chinês no oficial que o governo designou para nos “guiar” na viagem. O susto dele foi tão grande ao ver uma laowai falando aquele mandarim perfeito que o chinês arredondou os olhos…


tp-notas-próprias

Trajetória de Jayme Martins e suas filhas

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tp-Sob os olhos de Lao Ma

Programa a nova China, entrevistas, estrutura da CCTV, contatos por Paul Liu, da Câmara de Desenvolvimento Econômico Brasil-China, que tem sede em São Paulo. Do Brasil, nos correspondíamos com uma senhorita Wen, do Departamento Internacional da CCTV

Em 2004, China com pouca visibilidade no Brasil, após programa Sonia, abordada por admiradores, respostas vagas de senhorita Wen (“não se preocupem”), sem organograma ou roteiro, embarcam Paulo, Ana, Rosana e Sonia para cobrir visita de Lula em 10 dias, maio de 2005 com calor infernal e névoa seca de poluição, céu vermelho ao fim do dia, Lao Ma produtor da CCTV não fala inglês, comunicação via Priscila (tradutora filha de Paul Liu), “Lao” como respeito aos experientes, cabelos tingidos de preto.

mandarim - Mandarim é como em geral os estrangeiros chamam a língua chinesa. Seu nome em chinês é Han Yi, Língua Han, falada pela maioria étnica Han, que representa 90% da população chinesa.

Etnia % da população da China Idioma(s) principal(is) Peculiaridade
Han 91,11% Mandarim e outras variedades chinesas Maior grupo étnico; enorme diversidade linguística interna
Zhuang 1,39% Zhuang Língua Tai-Kadai; variedades norte e sul
Hui 0,81% Mandarim e outras variedades chinesas Em grande parte muçulmanos; linguisticamente próximos dos Han
Uigur 0,82% Uigur Língua túrquica; escrita oficialmente em alfabeto árabe
Miao 0,79% Línguas Hmong Família Hmong-Mien; possui vários dialetos
Manchu 0,74% Manchu; principalmente mandarim Língua tungúsica; atualmente muito ameaçada
Yi 0,70% Yi/Nuosu Língua tibeto-birmanesa; possui escrita silábica própria
Tujia 0,68% Tujia; mandarim Idioma Tujia muito ameaçado
Tibetanos 0,50% Tibetano Possui escrita própria e diversas variedades
Mongóis 0,45% Mongol Língua mongólica; escrita mongol vertical tradicional
Buyei 0,25% Buyei Língua Tai-Kadai, relacionada ao Zhuang
Dong 0,25% Dong Língua Kam, da família Tai-Kadai
Yao 0,23% Línguas Yao/Mien Grande diversidade linguística
Bai 0,19% Bai Língua sinítica com características próprias
Cazaques 0,11% Cazaque Língua túrquica; relacionada ao uigur
Hani 0,11% Hani Língua tibeto-birmanesa
Li 0,11% Hlai Língua Kra-Dai; tradicionalmente falada em Hainan
Dai 0,10% Várias línguas Tai Diferentes povos Tai; algumas possuem escrita própria
Lisu 0,05% Lisu Língua tibeto-birmanesa; possui diferentes sistemas de escrita
Gelao 0,03% Gelao Língua Kra-Dai muito ameaçada
Lahu 0,03% Lahu Língua tibeto-birmanesa
Dongxiang 0,03% Dongxiang Língua mongólica, com forte influência chinesa
Wa 0,03% Wa Língua austro-asiática
Shui 0,03% Shui Língua Tai-Kadai; possui tradição escrita própria
Naxi 0,03% Naxi Famosa pela escrita pictográfica Dongba
Qiang 0,02% Qiang Língua tibeto-birmanesa
Tu 0,02% Monguor/Tu Língua mongólica com forte influência chinesa
Xibe 0,02% Xibe Língua tungúsica; escrita derivada do manchu
Mulao 0,02% Mulao Língua Kra-Dai
Quirguizes 0,02% Quirguiz Língua túrquica
Daur 0,02% Daur Língua mongólica
Jingpo 0,02% Jingpo/Kachin Língua tibeto-birmanesa
Salar 0,02% Salar Língua túrquica com influências chinesas e persas
Blang 0,02% Blang Língua austro-asiática
Maonan 0,02% Maonan Língua Kra-Dai
Tajiques 0,02% Tajique Língua iraniana; parente do persa
Pumi 0,02% Pumi Língua tibeto-birmanesa
Achang 0,01% Achang Língua tibeto-birmanesa
Nu 0,01% Línguas Nu Línguas tibeto-birmanesas
Ewenki 0,01% Even  

A China tem 55 minorias étnicas, que ao
todo somam pouco mais de 10% da população

- dos Manchus e Mongóis, no Norte, aos
Bai e Miaos, no extremo Sul.

Yunnan é a província com maior variedade
étnica.

Tibetanos nas montanhas e uigures,
do Noroeste muçulmano, também são
considerados minorias, embora tenham
movimentos independentistas e se
considerem nações ocupadas pela China.

Os Han, os chineses propriamente ditos,
são mais de 90% da população.

Lao Ma, capitão reformado do Exército Vermelho, velha geração, roteiro próprio, gravação da NHK japonesa, espionagem, angústia de Sonia para gravações nós melhores períodos (manhã e entardecer), controle de Lao, cultura chinesa para a experimentação da culinária, maior atenção ao Paulo

Em cada vila e cidade, dirigente local com séquito os esperava, salas privativas com mesas redondas e círculo giratório de vidro, só se falava amenidades para firmar laços, nunca tratar de trabalho ou política.

Chineses bebem Maotai e Wuliangyê, fumam à mesa, brindes individuais rodando a mesa, noivos sofrea com brindes em casamentos, Rosana Teixeira teve dificuldade com comidas (pata de pato), engolia com vinho para disfarçar, arroz servido por último, garantia de saciamento com pratos principais, chefe se levanta e encerra o banquete de imediato, ajudaram Rosana já alterada a chegar ao hotel.

Jantar em Xangai com engenheiros locais, designação aos ocidentais, pecuária bovina fraca na região, consumo de proteína, pêlos dos ocidentais

…Mas outras expressões muito usadas são bem menos gentis:

…Paulo Zero, um legítimo dabizi, acabara de confirmar nossa reputação de maozi…

Sonia ainda preocupada com as pautas e plano para apresentação jornalística ao Brasil

tp-Cães e bicicletas

Cidade de Chongquing (pronuncia-se Tchuntchin), antiga Chumquim ou Chongking, 30 mi de pessoas, ingrime, muita neblina, 2ª Guerra, japoneses aviadores, erro em bombardeios por conta da neblina, esconderijo do governo de Shian Kai-Shek

Cidade, encontro do rio Jialing com o Yangtsê

Lao Ma, apelido em chinês a Paulo:

…Lin Lin Bá (008, irmão mais moço de James Bond). E, a partir daí, chamado de Lin Lin Bá por todos os chineses até o fim da viagem. Lao Ma fazia um gesto com a mão, como o de uma pistola - polegar para cima, indicador apontado e os outros 3 dobrados. Claro que pensamos que ele fazia o gesto de uma arma, tal qual a do agente com licença para matar. Até que, um belo dia, descobrimos que aquela é a representação do número 8 num gestual que os chineses têm para contar de 1 a 10, usando só uma mão…

História da praça, dança a noite, By the Rivers of Babylon…, sucesso disco dos anos 70 (século XX), passeio ao porto fluvial da cidade, comércio a beira rio, nativos, pescadores

País com 12% de terras agricultáveis e 1,3 bilhão de pessoas, China tem mesma área de lavoura que Brasil com 8 vezes mais população, aproveita todo espaço, 65% das propriedades têm menos de 1 hectare, 500 milhões de micropropriedades alimentam o país, vilarejos verticais com prédios economizam espaço para plantar

Construção da usina 3 Gargantas, geração de energia mais limpa que carvão, com 18 mil MW previstos em 2009, superará Itaipu, estrada sem buracos, do outro lado obra em mutirão sem máquinas, Lao Ma explica que estradas reconstruídas em pontos mais altos para absorver mão de obra, atravessam ponte alta, Paulo grava barcos e camponeses, jovens de moto gritam “Hello”, respondem com acenos, única expressão em inglês que conhecem.

Próxima cidade Fengdu, 400 mil habitantes, deslocados para lá por conta da obra

tp-O céu e o imperador

Em Chongqing, jovem oficial Chen (inglês fluente) os acompanha, respostas evasivas (“você saberá quando chegar”), jantar com líder local do Partido, vice-prefeito, chefe de polícia, hot-pot, panela Yin-Yang (apimentado e caldo), Sonia insiste sobre roteiro para Fengdu, Chen finge não ouvir, Priscila traduz, chefe do partido (mulher magricela, arrogante) é brusca, negam acesso às ruínas (cidade-fantasma abandonada) por perigo, Sonia insiste, Chen diz “Não! Assunto encerrado!”, Paulo observa que ela obrigou um chinês a dizer não (perda de face para Chen diante das autoridades), lição cultural: “não” direto é falta de habilidade, ditado:

“O céu está lá em cima e o imperador mora longe” mostra poder da pequena autoridade, governo central dá poder aos líderes locais em troca de fidelidade, nem Lao Ma nem Chen podem contestar a decisão, paciência chinesa não é virtude, é conformismo ou se conforma, ou enfrenta e perde, ou se joga no Yangtsê ou vai embora.

Visita ao Templo das Almas, parte destruída durante Revolução Cultural, acompanhantes não conseguem seguir no calor, ponto para Paulo gravar a cidade abandonada, que não estava realmente abandonada (havia gente que não quis se mudar, não recebeu indenização ou protestava contra a usina), Madame PCC de Fengdu mentiu sobre perigo para evitar manifestações diante das câmeras, depois escândalos revelaram desvio de indenizações por autoridades, roupas em varais, pessoas cozinhando na rua, resgatando tijolos e madeira, velho de terninho Mao, sentado com olhar perdido no horizonte, gravam mais do templo de outro ângulo e Sonia faz stand-up sobre as dificuldades e a impossibilidade de falar com os moradores que ficaram.

Camponeses escolhidos e orientados pelo partido, ninguém falou mal, lado bom da mudança (casas, comércio), crianças sem fralda com calças abertas no bumbum (aprendem rápido a usar banheiro, evitam fraldas), Lao Ma facilita entrada na escola (maternal sem vidro, chão de terra batida, banquinhos, crianças recitam poema Tang e respondem “Bom-dia” e “Blassiu” em português), nova estratégia:

Paulo manda Priscila ordenar parar o carro (funciona), voo de Embraer da Sichuan Airlines para Yichang, visita à Usina de Três Gargantas (2.300m de largura, 185m de altura, maior que Itaipu, 4 turbinas instaladas, formigueiro de operários, custo social astronômico, custo oficial de 22 bi de dólares (Banco Mundial), polêmica ambiental, garante energia para delta do Yangtsê e controla cheias, eclusas para navegação), operária varrendo com luvas e chapéu de palha (cuidado com a pele, bronzeado é carimbo social de camponesa).

Conhecer Vale Das Gargantas (nome da uusina, cemitério, posicionamento conforme feng shui

Feng shui – literalmente, significa vento e água. É uma prática milenar que combina conhecimentos de astronomia e geografia (céu e terra) para tentar melhorar o fluxo de energia vital, o qi. Usado para determinar a posição de prédios, a decoração das casas, a localização de cemitérios.

Volta, vendedores de tartaruga para consumo, Sonia prova, bem ruim, Lao Ma se diverte

Na volta, vimos vendedores oferecendo tartarugas para vender – não para colocar em aquário, mas para comer. Elas são criadas em cativeiro, na beira do rio.

No jantar, um dos pratos oferecidos é tartaruga – os chineses acreditam que a gordura seja um potente rejuvenescedor. Lao Ma nos desafiou a provar. Olhei para Rosana e percebi que ela passava mal só com o pensamento.

Peguei uma, pouco maior do que uma mão fechada, e provei a gordura que fica presa ao casco. Horrível! Lao Ma morreu de rir da minha cara feia, mas depois que ele mudou de atitude fiquei feliz em proporcionar o entretenimento.

Na companhia de Lao Ma passamos por muitos outros lugares. No fim, ele estava até dançando para nós durante o jantar. Imitava mocinhas das montanhas de Sichuan, que comem muita pimenta. Até o procurei quando voltamos para morar definitivamente em Pequim, mas Lao Ma estava aposentado e a senhorita Wen não sabia o endereço dele.

Relembro toda essa história ocorrida em maio de 2004 para contextualizar o meu desafio neste mês de março de 2005:

Encontrar um intérprete que, além de permitir nossa comunicação, seja capaz de driblar situações difíceis. E que também nos oriente na maneira chinesa de proceder; abrace, enfim, a ideia de, passo a passo, ao nosso lado, ir descobrindo a China.

c05-parceiros-da-aventura

Compra da impressora, barganha como cultura, preço similar ao dos Estados Unidos, Bai Nao é trocadilho com “buy now” (compre agora) e “bai dien nao” (Cem Computadores), prédio de quatro andares no centro de Pequim, vende computadores e acessórios originais e falsificados (tudo made in China), precisam de referências de lojas honestas dadas por Angela Liu (especialista em informática da embaixada), vendedor oferece por 3 mil, ela contra-oferece 2.500, ele aceita com “Oquê”, fecham negócio no preço americano, pagam em dinheiro

Contratação de intérprete, Sra. Hu Hua, inglês-chinês

…O nome dela é Hu Hua. Tem o nariz levemente aquilino, os cabelos compridos um pouco ondulados, pernas roliças e a derrière convexa, em vez dos gambitos fininhos e a ausência total de bunda das chinesas.

Ela conta que a mãe é do povo Yi – uma das mais de 50 minorias étnicas chinesas. É formada em turismo, com especialização em inglês. Responde facilmente às minhas perguntas. Hu Hua é simpática e a conversa flui.

– Você vai precisar que eu trabalhe
à noite? – me indaga.

– Eventualmente, sim – respondo.

– Por quê? Você estuda à noite?

– Não! – surpreende-me.

– Eu canto.

– Canta? Que legal!

Conto a ela que no ano anterior passei uma temporada na China e relembro que na última noite vi um grupo maravilhoso no bar do Hotel Hyatt. Formado só por meninas, o grupo tocava instrumentos tradicionais chineses e cantava músicas contemporâneas. Na época, a Ana Escalada ficara tão impressionada com a performance das meninas que passou a viagem de volta se lamentando.

Primeiro, por não ter comprado um disco delas para sonorizar o Globo Repórter. E, também, por não termos tido tempo de fazer uma reportagem sobre elas – uma ligação artística entre o passado e o presente, a China e o Ocidente. Hu Hua começa a rir com uma cara marota:

– Você está me gozando, né? – indaga

– Já te falaram sobre mim?

– Como assim? – devolvo a interrogação.

– Ora! – ela me surpreende mais uma vez.

– Eu sou a cantora do grupo.

Como já deixei claro, não sou supersticiosa. Mas diante da coincidência tão improvável, decido contratar a moça. Ela é durona na negociação salarial. E quando se vai, lembra de dar mais uma informação.

– Meu nome ocidental é Sheryl.

– Sharon?! Como a Sharon Stone?

– Não! – explica ela.

– She-ryl, como a Sheryl Crow!

– OK. Run, baby, run, certo?

Hu Hua passa a ser minha voz em chinês. Uma voz que soa bem e, ainda por cima, canta!

tp-sobre a intérprete Hu Hua

Ela nasceu numa pequena cidade da província de Yunnan (significa “ao sul das nuvens”), nas montanhas entre o Himalaia e a fronteira com Mianmar, Laos e Vietnã.

Quando completou 4 anos, os pais a mandaram para viver com a avó paterna, que morava em Kayuan. Enquanto eles continuavam a trabalhar no interior, Hu Hua, ou melhor, Sheryl, iria viver numa cidade maior e poderia, entre outras boas possibilidades, frequentar uma escola.

A casa da avó era típica da região: 2 andares de madeira com uma varanda em cima, onde tranças de pimenta e milho eram penduradas para secar. Embaixo, a cozinha. Em cima, os 2 quartinhos. O sofrimento da menininha de viver longe dos pais era agravado pelo fato de que a avó era má.

– Ela era muito má! – enfatiza Sheryl
sempre que conta sua trajetória infantil.

– Nunca tinha um carinho, uma palavra
gentil, um momento de afeto.

Deitava na cama e chorava até pegar no sono. Quando ficava doente, em vez de levá-la ao médico para ser examinada, a avó decidia poupar alguns trocados e ela mesma aplicava o guaxá. Raspava as costas da criança usando uma moeda e óleo de cozinha.

São torturas e sofrimentos que ela nunca superou. Quando fazíamos um documentário sobre medicina chinesa e uma médica estava aplicando um guaxá, Sheryl saiu da sala. A avó fumava muito, tinha a voz rouca e assustadores acessos de tosse. E tinha um caixão no meio da cozinha. Como muitos idosos na China, a senhora Hu comprou o próprio caixão e fazia preparativos para seu funeral.

Jantando sozinha, olhando para o caixão, a menininha torcia para que ele fosse usado logo e ela pudesse voltar para a casa de seus pais. Não foi preciso a avó morrer. O pai conseguiu emprego em Kayuan, e aos 7 anos Hu Hua voltou a viver com os pais e o irmão, 2 anos mais moço.

A cidade era fedida – com fábricas de papel, cimento e fertilizantes disputando o título de maior emissora de cheiro ruim. A intimidade com os pais nunca foi plenamente restabelecida. Os chineses têm dificuldade para demonstrar afeto.

O irmãozinho era sua companhia, e assim Hu Hua cresceu sendo boa aluna e esperando ser aceita por uma boa universidade. Aos 17 anos, recebeu a aprovação da Universidade de Comunicação de Pequim. Antes de embarcar, no entanto, uma tragédia se abateu sobre a família Hu.

O irmão de Sheryl, então com 15 anos, saiu com amigos para nadar num lago perto da vila. E desapareceu. Durante dias, pais e irmã se juntaram às buscas, até encontrar o corpo do adolescente que, ninguém sabe em que circunstâncias, morreu afogado.

De novo, ela chorava sozinha no quarto. Desta vez não queria mostrar seu sofrimento aos pais, que mal suportavam o peso da própria tristeza. Num feriado de Ano-novo, Sheryl saiu da universidade e viajou 4 dias de trem até Yunnan para ver os pais.

Saiu com a mãe para fazer compras e, ao atravessar a rua, a mãe instintivamente segurou sua mão para protegê-la.

– Aquele gesto me abalou muito – rememora
ela.

– Minha mãe não me tocava há muitos anos
e eu não sabia o que fazer com aquela
mão segurando a minha.

Naquele feriado, Sheryl revelou aos pais
tudo o que havia passado na casa de sua
avó – que nessa altura já estava
definitivamente no caixão que guardara
por tanto tempo.

Foi então que todos choraram abraçados. Perdoaram-se mutuamente pelo estranhamento, pela falta de intimidade e, pela primeira vez, lamentaram juntos as perdas que sofreram.

Num momento de tantas revelações, o pai de Hu Hua contou a história de sua mãe, a avó malvada.

Quando o Império foi derrubado na China, em 1911, o caos se apoderou da maior parte do país. Senhores de exércitos lutavam entre si pelo poder e reinavam pelo terror. Nos anos 30, a barbárie ainda perdurava e a vovó Hu não passava de uma menina, filha de donos de terras em Yunnan. Num dia, um grupo armado invadiu a propriedade. Escondida atrás de uma pedra, a garota de 6 anos viu o pai e os irmãos serem executados, a mãe violentada e morta, a fazenda incendiada.

Recolhida por uma família vizinha, nunca voltou a ser uma criança normal. Ainda jovem se casou com um próspero comerciante, dono de um armazém que vendia de ferramentas agrícolas a tecidos de seda. Quando os comunistas chegaram à província, tudo foi confiscado. E, junto com todos os “burgueses exploradores das massas”, os Hu foram humilhados publicamente e obrigados a se ocupar das tarefas mais degradantes.

Conversa com intérprete sobre tratamentos (Xiao Li, Jie-Jie, Hua Meimei, variedade de tios por lado e casamento, mas isso está desaparecendo com a política de filho único), Li recusa ser motorista porque com negócio próprio ganha mais, mas ajuda a buscar substituto, vão buscar o carro, Li inspeciona o carro (banco de couro, estepe, arranca tapetes de brinde), Paulo mostra câmera de ré com tela LCD que sai do painel (zzzziiii), Li faz careta de espanto (hã? bate na testa), quer levar os outros para casa dirigindo (“é perigoso”), dirige com floreios de tai chi chuan/flamenco, aceita ser motorista após ver o carro, dizem “Hen hao, Xiao Li!” (muito bom), prioridade é entrada em mina de carvão (atividade mais perigosa, 6 mil mineiros mortos por ano).


Tratamentos gerais (não parentesco)

  1. 小 (Xiǎo) + sobrenome – Xiao (ex: Xiao Li) Pequeno / Jovem (usado para quem é mais novo ou em posição inferior).

  2. 老 (Lǎo) + sobrenome – Lao (ex: Lao Ma) Velho (usado para quem é mais velho e experiente, como sinal de respeito).

  3. 姐姐 (Jiějie) e 妹妹 (Mèimei) – também usados fora da família para se dirigir a mulheres de forma afetuosa (moça / irmãzinha).


Irmãos

  1. 哥哥 (Gēge) – Gue-gue (som de “gâ” com “e” seco) Irmão mais velho (usado por quem é mais novo).

  2. 弟弟 (Dìdi) – Di-di (pronúncia rápida, “dji-dji”) Irmão mais novo (usado por quem é mais velho).

  3. 姐姐 (Jiějie) – Jie-jie Irmã mais velha (usado por quem é mais novo).

  4. 妹妹 (Mèimei) – Mei-mei Irmã mais nova (usado por quem é mais velho).


Tios (lado paterno – pai)

  1. 伯伯 (Bóbo) – Bô-bô Tio (irmão mais velho do pai).

  2. 叔叔 (Shūshu) – Xiu-xiu (som mais fechado) Tio (irmão mais novo do pai).

  3. 姑父 (Gūfu) – Ku-fu (som de “K” suave) Tio (marido da irmã do pai).


Tias (lado paterno – pai)

  1. 伯母 (Bómǔ) – Bô-mǔ Tia (esposa do irmão mais velho do pai).

  2. 婶婶 (Shěnshen) – Xêm-xêm (som de “X” suave) Tia (esposa do irmão mais novo do pai).

  3. 姑姑 (Gūgu) – Ku-ku Tia (irmã do pai, solteira ou casada – o marido dela é o 姑父).


Tios (lado materno – mãe)

  1. 舅舅 (Jiùjiu) – Jiu-jiu (som de “djôu”) Tio (irmão da mãe).

  2. 姨夫 (Yífu) – Í-fu Tio (marido da irmã da mãe).


Tias (lado materno – mãe)

  1. 阿姨 (Āyí) – Á-í Tia (irmã da mãe). Obs: 阿姨 também é usado coloquialmente para qualquer mulher mais velha (como “tia” ou “moça” em serviços, domésticas etc.).

Avós

  1. 爷爷 (Yéye) – Iê-iê Avô (pai do pai, lado paterno).

  2. 奶奶 (Nǎinai) – Nái-nai Avó (mãe do pai, lado paterno).

  3. 外公 (Wàigōng) – Uái-gong Avô (pai da mãe, lado materno).

  4. 外婆 (Wàipó) – Uái-pó Avó (mãe da mãe, lado materno).


tp-sobre o motorista Li Baoyin

Xiao Li chegou a Pequim adolescente, no meio dos anos 90, quando ainda era ilegal mudar de cidade sem permissão. Veio sozinho de uma pequena cidade na província do Hebei trazendo só um espírito empreendedor e a vontade de fugir da miséria.

Começou a vida fazendo entregas a pé. Depois, comprou uma bicicleta. Em seguida, colocou uma carrocinha a reboque e passou a ganhar a vida fazendo entrega de cargas. O que ganhava, guardava atrás de um tijolo escondido na parede do quartinho do hutong onde morava, no norte da cidade.

Já sonhava em trocar a bicicleta por uma motoca quando um dia chegou em casa e o hutong estava cercado pela polícia. O quartinho dele ficava exatamente no lugar onde hoje está o Estádio Olímpico. O bairro inteiro seria demolido, criando um espaço para a construção do estádio, da Vila Olímpica e do Centro de Natação.

Pequenino, porém valente, Li se juntou aos outros moradores que protestavam e enfrentavam a polícia.

Preso sem documentos (ele nem tentou se registrar na polícia local, que já começava a legalizar a situação de alguns imigrantes), foi “deportado” de volta para sua província. Escoltado até o trem, ele só tinha passagem até Handan, a maior cidade próxima da vila dele, Lin Zhang. Ao terminar a viagem, Xiao Li estava a 300 km de Pequim e a 100 km da casa de seus pais. Sem um único tostão no bolso.

– Nunca pensei na vida que um dia iria
mendigar, mas não tinha o que
fazer – relembra Li.

– Comecei a parar as pessoas, contar
minha história. Eu chorava, desesperado.
Ganhei comida, mas nenhum dinheiro.

Ele então driblou os guardas, entrou em um trem e se escondeu no banheiro. Mal tinham deixado a estação e foi descoberto pelo controlador. Mas a sorte estava ao lado dele. O homem encarregado de enxotá-lo do trem era um colega da mesma vila. Um laço de lealdade liga os chineses de mesma origem: ser da mesma vila é quase como ser irmão. Xiao Li não só viajou de graça, como comeu e bebeu com fartura.

A chegada não era o que ele esperava, depois de três anos trabalhando duro na capital. Caminhou 10 km da estação até em casa. Ele era um homem envergonhado por estar sujo, com a roupa de 3 dias atrás. Estava de novo em casa: sem dinheiro, fracassado. Mas assim que ouviram sua história – e sobre a fortuna escondida atrás do tijolo – pais, irmãos, tios, primos e vizinhos se juntaram para comprar a passagem dele de volta a Pequim. Lá chegando, Li, sorrateiramente, entrou no hutong interditado, recuperou o dinheiro e recomeçou a vida.

Hoje, se considera um empresário do setor de transporte e, dono de duas Jinbei, é um vencedor. Na vida amorosa, a sorte não foi a mesma. A namorada de infância o abandonou e ele acabou casando com a filha de um casal amigo de seus pais.

As brigas eram constantes e a mulher passava mais tempo com a filha na província do que em Pequim.

No primeiro dia, Xiao Li aparece de luvas brancas (como motoristas de táxi do Japão), ela se segura para não rir, explica que não é necessário e que pode escorregar, as luvas vão para o porta-luvas e depois desaparecem, forma-se o time UPJ Zero (Unidade Portátil de Jornalismo, equipe completa, cada UPJ tem número, a deles é zero).

Hutong – é como são chamados os bairros antigos, formados de casas voltadas para dentro de si mesmas, com pátios internos. Da rua, veem-se apenas os portões.

Tradicionalmente, os hutongs de Pequim eram habitados pelos ricos, os que tinham o privilégio de viver perto da Cidade Proibida, do palácio imperial. Depois da Revolução Cultural, as casas foram subdivididas para abrigar várias famílias – viraram cortiços.

Em muitos lugares de Pequim, os hutongs têm aparência de favela; em outros, estão sendo restaurados e recuperando o antigo esplendor, com ruas charmosas, lojinhas, restaurantes e casas de chá. A maioria dos hutongs foi destruída nos últimos anos no processo de modernização que prepara a cidade para as Olimpíadas.

c06-reportando-na-china

Manual do Jornalista Estrangeiro, junto com o IPC registro (Centro Internacional de Imprensa do Ministério das Relações Exteriores). 74 páginas, parte em chinês parte em inglês, como se faz para tirar visto, pagar impostos, estudar chinês, alugar apartamento e contratar funcionários.

Manual de reportagem na China: entrevista funcionários públicos, permissão da instituição, órgão superior, 3 semanas antes, perguntas escritas (raramente atendidos), proibido “falsos rumores”, reportagens mal-intencionadas, não deixar a cidade sem avisar ao IPC, permissão da província e prefeitura, autoridades avisadas da chegada, hotéis comunicam delegacias, lista de lugares abertos a estrangeiros (áreas proibidas, bases militares ou separatistas), Tibete e Xinjian em cidades abertas, com escolta e intérpretes proibidos, drible: sair sem avisar, mas quase tudo depende do governo (empresas têm sala do Partido), colega espanhola detida em Xangai por não avisar deslocamento.

Internet lenta: velocidade reduzida no congresso do partido para censura, evitar oposição, 50 mil censores e voluntários, filtros por palavras-chave (Taiwan, Tibete, democracia), gargalo de infraestrutura, cortam reportagens em pedaços de 10-15 segundos e monitoram envios à noite, buscam sinal em cafés ou hotéis , às vezes a internet melhora, acesso a jornais, matéria especial enviada por passageiros ao Brasil, comunidade brasileira avisa quem está partindo.

Na época, trabalho de imprensa em fonte estrangeira, contato fora e reenvio.

Nota própria: se entre 2007-2012 a autora cita censura, qual a razão atual para distribuição de conteúdo não mencionar os tempos atuais?

tp-A falsa pressão das ruas

Camponeses não satisfeitos com a desapropriação, censura e controle da Praça da Paz Celestial

Trabalho de imprensa complexo com grandes equipamentos, cobrança em lugares não controlados, uso de câmera menor para agilidade e passar como turista

Gravação 40 anos da Revolução Cultural, Cidade Proibida, abordagem das senhoras, cor dos olhos de Sonia, equipamento escondido, guarda, dispersão. Detenção a laowai não tão grave, chineses que cooperam com laowai pena pesada

Para esses serviços, Paulo e Sonia não avisam Li e Sheryl

Protestos direcionados, embaixada do Japão, governo no apoio, ressentimento chinês com os acontecimentos em 1931, 2ª Guerra Sino-Japonesa, em 2005 questões geopolíticas para o Conselho De Segurança da ONU, apoio da China ao Brasil é Alemanha, chineses contra o Japão

Controvérsias de propaganda livros de história no Japão e atitudes de Junichiro Koizumi visita o santuário de Yasukuni, em Tóquio

tp-Ao vivo do Templo do Céu

Pedido do Rio para transmissão ao vivo da festa de 40 anos da TV Globo, local significativo em Pequim, tentam Praça da Paz Celestial (impossível), Cidade Proibida, Muralha, Templo do Sol, mas menção de “satélite” ou “vivo” fecha portas, Norman (APTN) sugere varanda, Ministério das Relações Exteriores aprova após incidente do Conselho de Segurança da ONU, consenso pelo Templo do Céu (arquitetura Ming, mais belo monumento de Pequim, onde imperador prestava contas aos deuses), a 3 dias do evento CCTV recua por falta de autorização e cobertura de Taiwan, telefônica local salva com transmissão via satélite, técnicos orientados por Paulo, no local negociam taxa extra: chinês pede 100 mil yuans (12 mil dólares), Sonia reduz para 10 mil em espécie no dia, recebem 2 recibos: um oficial de 4 mil e outro rabiscado de 6 mil (60% de comissão), transmissão ao vivo do Templo do Céu, com imagem da pedra do imperador, aparece no telão da gala no Rio, segunda transmissão desse tipo da China, emoção dos colegas, porteira aberta para outros jornalistas estrangeiros.

c07-os-ventos-da-primavera

Primavera em Pequim, rosas várias cores no caminho até aeroporto, temperaturas acima de 10°C, visita ao Parque Beihai, tudo lá design inteligente (feito pelo homem), visitações a mais parques quase todo final de semana, Chaoyang, maior da Ásia na época

Curiosidades: Distrito de Chaoyang é o maior de Pequim, o Parque Chaoyang (288 hectares) já foi considerado o maior parque urbano da Ásia, e o Parque Ritan (20 hectares), também fica no Distrito de Chaoyang.

Parque Ritan: Construído em 1530 durante a dinastia Ming, onde os imperadores das dinastias Ming e Qing realizavam cerimônias em homenagem ao Sol.

1 Ritan (Templo do Sol – 日坛)

Local: Leste (Chaoyang). Construído em 1530 para rituais ao Sol.

Hoje: Área calma, perfeita para tai chi e meditação.

2 Ditan (Templo da Terra – 地坛)

Local: Norte. Também de 1530, dedicado às cerimônias da Terra.

Hoje: Famoso pela feira de Ano-Novo; ao amanhecer, danças e peteca.

3 Yuetan (Templo da Lua – 月坛)

Local: Oeste. O menor dos quatro altares rituais (1530).

Hoje: Ambiente reservado e intimista, ótimo para caminhadas.

4 Tiantan (Templo do Céu – 天坛)

Local: Sul. Maior altar e Patrimônio UNESCO (1420).

Hoje: Ponte Danbi elevada, cercada por pinheiros seculares.

5 Longtan (Parque do Lago do Dragão – 龙潭湖)

Local: Sudeste. Não é um altar, mas sim um parque lacustre.

Hoje: Muito movimentado durante o Ano-Novo e festivais juninos.

6 Chaoyang Gongyuan (Parque Chaoyang – 朝阳公园)

Local: Centro-leste. Já foi considerado o maior parque urbano da Ásia.

Hoje: Ótimo para lazer, shows e feiras sazonais.

Comemorações de Páscoa escola de Pedro, brincadeira do coelho, mulher fura fila e empurra filho, professoras não agem, pais e avós chineses pulam na frente disputando a vez, outros pais ocidentais chocados, Paulo argumenta traço cultural: durante os anos da fome quem esperava em fila morria de fome, confucionismo despreza cortesia ocidental (exemplo do embaixador japonês que achou cavalheirismo ocidental sinal de fraqueza), decidem conversar com a direção depois das festas, pais que pagam por escola bilíngue precisam saber que, sem cortesia, serão discriminados no Ocidente.

Crianças, primeira geração da política filho único

tp-Um universo de sabores

Primavera, ventos do deserto, areia fina, somente reclusão em dias ruins onde não há possibilidade de sair. Exploração de novos cardápios, diz Sonia:

…Aos poucos, a curiosidade vence. Ao passar por um restaurante e sentir o cheirinho de comida boa, entramos e nos viramos do jeito que dá. Ou seja, geralmente eu, mais cara de pau do que o Paulo, pego o garçom pelo braço e passo pelas mesas, espiando os pratos das outras pessoas e pedindo “aquilo, este, e este daqui, deste eu quero dois…”

Imagine o espetáculo em que se transforma a passagem de laowais por entre mesas, a escolher pratos. Em pouco tempo, os clientes passam a sugerir:

– Pegue este! – diz um.

– Ele é muito bom.

– Não! – intervém outro.

– Este aqui é muito melhor.

Tudo vira uma farra. Nem sempre a estratégia dá certo. Num dia gelado, vejo um macarrão mergulhado numa espécie de brodo, com legumes cortados em tiras muito fininhas sobre ele. Decido arriscar e, quando levo a primeira colherada à boca, tomo um susto: é frio e terrivelmente carregado de pimenta.

A pimenta é uma grande descoberta pessoal. Começo a apreciá-la em Chongquing, onde todos os pratos são vermelhos – geralmente uma baciada de pimenta tipo dedo de moça frita com pedaços de carne, peixe ou porco, junto com outra pimentinha chamada de huajiao…

Jiezi - berinjela

Gong bao jidin - é a versão original do que conhecemos como frango xadrez, só que mil vezes melhor: cubinhos de peito de frango com alho poró, amendoim ou castanha de caju, pimenta dedo-de-moça e huajiao, num molho especial.

Jing jian rou si - é feita de tirinhas de carne de porco como que empanadas num molho adocicado, servidas com cebolinhas cortadas em tiras muito finas e pequenas panquecas de tofu, que são usadas para enrolar a carne e a cebolinha.

Mo shi rou - é também com carne de porco picada, cogumelo preto (ou orelha de árvore), pepino (sim, levemente cozido), tomate, cebola e ovos batidos.

Não se come nada cru, qualidade da água, alta densidade populacional, primeira visita ao país, Wuhan (província de Hubei), pato assado com arroz negro (doce e grudento), melhor que já provaram

Sobre os hábitos alimentares:

…Claro que a culinária chinesa é recheada de pratos esquisitos. A maioria relacionada ao mito da potência masculina.

Abalone, ninho de passarinho, sopa de cobra, sopa de barbatana de tubarão, todas iguarias caras que os chineses comem mais para ostentar do que por apreciar o sabor.

Em Taiwan, o mercado noturno vende cobra preparada de várias maneiras. Elas são exibidas vivas, porque o conceito de comida fresca para os chineses é matar o bicho e comer na hora. Um espetáculo mórbido. Algumas cobras são penduradas defronte da loja e têm um pequeno corte na altura do coração, que é puxado para fora e continua batendo, à vista do freguês. Uma tortura para o bicho e para pessoas com alguma sensibilidade. Se o freguês pedir, a bílis da cobra é retirada e preparada com Maotai. De novo, um afrodisíaco.

Carne de cachorro e de outros bichos estranhos é consumida no sul do país, na província do Cantão.

Os cantoneses são aqueles que, segundo um ditado muito popular:

comem tudo o que voa e não é avião,

o que tem pernas e não é mesa,

o que se arrasta e não é trem,

o que está na água e não é navio.

Pequim há opções ocidentais, restaurante Alameda da brasileira Viviane (natural de São José Dos Campos), apresenta a Sonia o mercado Sanlitun, muito limpo, carne halal, baixo preço

tp-Sobre automóveis e bicicletas

Pequim construída com bases no feng shui , tabuleiro de xadrez, disposição das vias:

…todas as ruas e avenidas correm de norte a sul ou de leste a oeste. E sempre é fácil saber em que direção a gente está indo, porque no sentido norte-sul a placa da rua é branca, leste-oeste é verde e os caracteres em chinês são fáceis de memorizar…

Ruas estreitas com 2 sentidos, travamento, cultura do mais forte

Boom de carros particulares a partir de 2003, 1000 novos motoristas a cada ano, Pequim como metrópole. Mesmo ano (2003), casos de SARS (Covid):

…SARS, a Síndrome Respiratória Aguda, é uma doença causada por um vírus Corona, do mesmo tipo que provoca gripe. Acredita-se que o vírus da SARS tenha sido um ou mais vírus de animal que sofreu mutação para infectar humanos.

Os primeiros casos apareceram em 2002, na província do Cantão, no sul da China, mas não foram notificados à Organização Mundial da Saúde. Até que um médico foi infectado pelos pacientes, viajou a Hong Kong e, de lá, a doença literalmente viajou de avião para os quatro cantos do planeta, infectando quase 10 mil pessoas das quais calcula-se que 10% morreram.

Durante a epidemia, controlada no segundo semestre de 2003, Pequim esteve sob uma espécie de lei marcial, com bairros inteiros isolados…

Por conta disso, compra de veículos particulares para não se expor no transporte público

…Meu maior pavor é a possibilidade de atropelar um ciclista. Eles parecem extremamente frágeis quando vistos de dentro do carro, aparecem de não sei onde, se multiplicam diante dos nossos olhos. Temo por eles e por mim.

Já ouvi inúmeras histórias de estrangeiros envolvidos em acidentes de trânsito que são espancados por uma multidão de chineses que resolve punir o laowai sem saber quem é o verdadeiro culpado…

c08-o-monge-e-a-galinha-de-ouro

Ida ao monastério shaolin logo cedo, Dengfeng é uma cidade na província de Henan, na China. Ela fica ao pé do Monte Song, um dos montes sagrados do país. A cidade é muito famosa por causa do Templo Shaolin e de sua longa história ligada ao kung fu, ao budismo, ao taoísmo e ao confucionismo.

Budismo chinês, meditação de Dharma durante 9 anos (impressão na parede da montanha), monge responsável por trazer o budismo a China, quando desceu, ensinou movimentos inspirados em animais, aliado a meditações, século 5

Wu-shu (“parar as armas”), origem do kung fu, tai chi chuan, todas artes marciais orientais. Templo, semelhante e mais modesto que os prédios da Cidade Proibida, pavilhões interligados por pátios, moradias laterais, colunas de madeira laqueadas e telhados com figuras em procissão.

Após as orações, velho monge, chá e pratica caligrafia, exercício, zen-budistas, benefícios da meditação: perfeição dos traços, a perfeição do caráter, à firmeza dos atos e à excelência na luta.

Os jovens monges desapareceram: o templo, restabelecido nos anos 70 após a Revolução Cultural, 2 décadas proibido de receber aprendizes, religião banida, monges atacados.

Shaolin passou a funcionar mais como escola de kung fu que como templo, novatos artistas que religiosos. O oficial Zhang, jovens em turnê internacional, presidente Hu Jintao.

Equipe chega sem os monges, transporte oficial desconfortável, caro, carro alugado. Café simples, sopa de arroz, conserva de repolho e peixe seco, reportagem redirecionada para as centenas de escolas de kung fu da região, muitas com mais de 1000 alunos. A prefeitura calcula mais de 100 mil crianças e adolescentes vivendo nessas escolas, aprendem kung fu, junto com o currículo normal.

Escolas de kung fu, crianças a partir dos 5 anos, nos colégios e visita pais apenas 1 vez por mês. Casal do interior, trabalhando na capital, internou o filho, educação melhor. Contrário, ficariam com os avós paternos.

Escolas bem estruturadas, centenas de alunos treinando ao mesmo tempo, com espadas flexíveis, saltos e movimentos repetitivos. Escola possui teatro com apresentações diárias dos melhores alunos.

Menina de 6 anos, 2º ano de treinamento, deseja ser como Zhang Zi Yi, estrela do cinema chinês. Não há espaço para tantos artistas, que provavelmente seguirão para Forças Armadas, polícias ou empresas de segurança. Apesar da quantidade de estudantes de artes marciais, o chinês comum não domina luta.

Brigas de rua frequentes, mas diferentes dos filmes de kung fu, com pontapés, puxões de cabelo e mordidas.

Almoço com Zhang, frango escolhido ainda vivo e servido posteriormente cozido com gengibre. Conta de 500 yuans, 5x vezes mais que um almoço melhor em Pequim; a galinha custou 450 yuans, levantando suspeita de dinheiro por fora.

Encontro com Shi Yan Lu, monge treinador-chefe do templo, que demonstra movimentos sofisticados de kung fu. Histórias sobre os monges Shaolin, destaque para 8 religiosos que salvaram o príncipe herdeiro de um sequestro, impediram um golpe e garantiram sua chegada ao poder, explicando a ligação dos monges com o poder secular chinês.

Shi Yan Lu apresenta um espetáculo raro: estudantes do templo treinando numa clareira da floresta. Antes, visita à Floresta de Pagodes, com centenas de monumentos em homenagem aos heróis Shaolin, torres de pedra de até 15m entre os pinheiros.

Estudantes de 7 a 16 anos chegam em formação, uniformizados e cantando. As apresentações incluem técnicas com bambu, usadas para invadir fortalezas como a Muralha da China, o lutador bêbado, espadas, saltos e movimentos inspirados em animais, como tigres e dragões.

Os estudantes são mais artistas que lutadores, mais lutadores que religiosos, mas seguem os ensinamentos com disciplina sacerdotal. Jovens europeus também treinam no templo, porém com desempenho inferior ao dos chineses.

No aeroporto, Zhang insinua que merece um presente após a viagem. A jornalista interpreta como pedido de gorjeta e, fingindo-se de laowai desentendida, apenas sorri e segue para o embarque.

c09-producao-e-consumo

400 milhões na classe média, grande concorrência, climatização e refrigeração Gree, Midea…

Panorama industrial chinês, carga alta de trabalho, migração

Retirada de 400 milhões da pobreza segundo Banco Mundial, ex-presidente da Universidade de Harvard, o economista Lawrence Summers, outro estudo, evolução chinesa 20 últimos anos (2018), equivale a 2 séculos que ocorreu para a Europa, industrialização, urbanização e transformação social

…enquanto na Europa do pós-guerra a qualidade de vida da população aumentou em média 50% numa geração, a atual geração de chineses vai ter sua vida melhorada em 10.000%…

Ascensão da classe média chinesa, contraste social

tp-A morte do rock e a descoberta do vaso sanitário

Demolições para as Olimpíadas de Pequim, distrito dos bares e vida noturna, Sanlitun, formação das bandas chinesas nesse ambiente, alguns restantes no bairro, não conversam com laowai, receio de represálias

Rua da Ópera, bairro de instrumentos, ao sul

Sra. Liu Rui Hua, trajes típicos da dinastia Qin

…Depois que a velhinha se cansa de mostrar seus artigos, sua filha sai para atender um grupo da ópera de Tianjin que veio renovar estoque.

Sentamos para tomar chá e conversar.

- Minha Pequim vai desaparecer comigo - esmorece a velha senhora.

- Nem a ópera é a mesma. A maioria das montagens só é assistida por turistas, eles nem exibem uma peça inteira. Uma peça inteira se prolonga até nove horas, e na velocidade do mundo de hoje não é de se admirar que não haja tempo para um espetáculo dessa duração…

– Nunca viajei para lugar algum – desabafa a senhora Liu Rui Hua.

– Mas se tudo é posto abaixo para construírem esses prédios modernos do Ocidente, Pequim poderá ser qualquer coisa, qualquer cidade, e não Pequim.

Torre dos Sinos, Torre dos Tambores, Hohai, lago congela no inverno, patinação, verão, barquinhos, restaurantes, turismo

Hutongs preservam construções da Dinastia Ming, casas de tijolos cinza voltadas para dentro, com pátios internos. Da rua, veem-se apenas muros e portões ornamentados. Algumas casas são compradas e reformadas por chineses ricos, mas a maioria virou espécie de cortiço, dividida entre várias famílias.

Passeio de riquixá pelo hutong. Condutor, ao perceber que são estrangeiros com câmera, insiste em mostrar uma casa reformada. Casa de 400 anos, telhado, janelas de madeira, pátio com antiga romãzeira e móveis tradicionais misturados a TV de plasma. Dono afirma que a árvore foi plantada pelo construtor e traz boa sorte.

Dono insiste em mostrar o banheiro. Banheiro particular, com cerca de 5m², chuveiro, banheira infantil de plástico, banheira de madeira tipo ofurô e vaso sanitário. Sônia não entende inicialmente o orgulho do homem.

Depois, percebe que ele se refere às instalações usadas por todo o bairro: banheiro público. Um homem chega com um penico para descarregar o conteúdo. O banheiro é identificado pelo cheiro forte e insuportável, sendo dividido entre masculino e feminino.

Sônia entra para inspecionar, usando um lenço umedecido perfumado sobre o nariz. O banheiro público não possui louças ou vasos sanitários, apenas buracos no chão para as necessidades feitas de cócoras, sem cabines ou divisórias entre os usuários. Sônia decide não observar mais detalhes.

Após compreender a situação, percebe o motivo do orgulho do proprietário: ter em casa um banheiro limpo e com vaso sanitário era uma grande conquista, algo que ela inicialmente não havia entendido.


Nota própria: talvez isso explique a bolha de imóveis chinesa

Li Hong, morador do hutong, não quer sair: gosta das noites de verão, quando vizinhos se reúnem na rua, levam fogões para fora, cozinham e interagem.

Mulher de Li Hong é contra: não suporta usar penico à noite por falta de banheiro em casa e se incomoda com a falta de privacidade entre os vizinhos. Casal discute vantagens e desvantagens do hutong, mas permanece junto; aluguel equivale a apenas 5 dólares por mês.

Men, namorado de Sheryl e baixista da banda, questiona se vale comprar um apartamento novo nos prédios que surgem pela cidade. Conhecedor de chá, prepara woolong seguindo o ritual tradicional. Tem 1,80m e mora com a mãe em apartamento construído nos anos 60.

Apartamento de Men segue o padrão dos antigos condomínios chineses e de países comunistas ou ex-comunistas: prédios retangulares de até 15 andares, com apartamentos lado a lado. Corredores não aquecidos no inverno funcionam como freezer, onde moradores armazenam acelga junto às paredes. Era uma das poucas verduras consumidas no inverno no Norte da China.

Apartamento de Men: vestíbulo com 3 portas, cozinha pequena, quartos nas laterais e banheiro pequeno reformado, com chuveiro e vaso sanitário de sentar, substituindo o modelo para usar agachado. O quarto também funciona como sala de visitas, sem espaço para sofá; recebem visitas sentados na cama.

Men considera que apartamentos modernos são melhores por terem sala de estar e facilitarem receber amigos. Porém, vender o imóvel atual permitiria comprar apenas outro no subúrbio, mais distante e dependente de metrô e ônibus. No apartamento atual, Men pode circular pela cidade de bicicleta e manter maior independência.


História de Liu Chun Xia e seu marido, Liu foi colega de Sheryl na universidade, renda do casal US$ 1200, classe média em ascensão na época, álbum de casamento, cultura dos casais para fotografias de casamento em pontos históricos

…Qindao (antiga Tsingtao, possessão alemã antes da guerra e de onde sai a cerveja mais famosa da China), vimos dezenas de casais na praia, as moças de branco, eles de terno, fazendo fotos para o casamento.

Era uma excursão de noivos vinda do interior para fazer fotos na cidade. Sem querer, Paulo gravou uma imagem nojenta: uma das noivas se vira para o lado e dá uma escarrada. O noivo nem se mexe…

Apartamento dos amigos de Sheryl tem 3 quartos: 1 reservado para o filho que planejam ter em 5 ou 6 anos e outro ocupado pelos pais do marido, trazidos da Mongólia Interior, onde moravam.

Condomínio segue o padrão das novas construções: prédios altos, jardim central com playground e caminhos de pedras onde idosos caminham de meias, sem sapatos, para estimular a circulação. Reprodução dos tradicionais pátios internos em grande escala.

Governo incentiva o mercado imobiliário com financiamentos a juros de 3% ao ano, fazendo da construção civil um dos motores do forte crescimento econômico chinês.

Ter casa própria é um valor cultural importante na China, comparável à busca por uma boa educação para os filhos.

tp-O fascinante mundo dos mercados

Luiza Louzada, vice cônsul apresenta a Sonia os mercadões chineses, variedade de objetos, comida a utensílios

Elsa Pastro, grande especialista em Pequim, mulher do doutor Ahmed e secretária do embaixador. Gaúcha de família italiana de Caxias do Sul, vive há mais de 15 anos em Pequim. Conheceu Ahmed, muçulmano filho de sírios, quando ele foi ao Sul do Brasil estudar medicina. Converteu-se ao Islã por amor, sem exigência para o casamento, mas demorou anos para ser aceita pela família dele.

Em 1991, Jaafar tinha 2 anos e Ahmed conseguiu bolsa para estudar medicina chinesa in loco. Ao chegar a Pequim, descobriram que o visto de Jaafar estava carimbado como “cancelado”. O desespero de Elsa e o amor dos chineses pelas crianças convenceram os guardas a deixá-los entrar.

Planejavam ficar 4 anos, mas continuaram na China. Jaafar mora nos Estados Unidos e faz faculdade; Mariam nasceu em Pequim. Durante a gravidez, Elsa subia 11 andares pelas escadas durante frequentes blackouts causados pelo racionamento de energia. Deu à luz em hospital público, antes da existência do Hospital Internacional.

Elsa conhece profundamente a China e os chineses, percebendo tanto sua agressividade quanto sua capacidade de compaixão e de ajudar um laowai. Torna-se parceira de chimarrão, conselheira de Sônia sobre questões chinesas, amiga nos momentos de solidão e guia de compras.

Muxuyuan, mercado de tecidos enorme, comparado ao tamanho do bairro Leblon, no Rio de Janeiro, entre a praia e a lagoa. Apesar do caos, é organizado por setores: caxemira, algodão, seda do Sul, seda crua, lã para ternos, cortinas e aviamentos, com linhas e ornamentos. Lojas simples, muitas sem aquecimento, muita poeira e sem café para beber água ou usar o banheiro.

Trânsito intenso em Muxuyuan, com carrocinhas, bicicletas de carga e Jinbei carregando, descarregando e estacionando no meio da rua. Sônia e Elsa vão direto aos setores desejados, compram e saem; raramente encontram um laowai no mercado.

Sun, costureiro com mais de 50 e menos de 60 anos, gentil e talentoso, transforma os tecidos em roupas. Chega de bicicleta carregada e sai ainda mais carregado. Graças a Sun e ao Muxuyuan, Sônia consegue se vestir em Pequim.

Comprar roupas prontas é difícil: ao perguntar sobre seu tamanho, Sônia ouve constantemente “Noooooooo! Too big woman!”. Ela tem 1,70m e, em Pequim, fica sempre uma cabeça acima da multidão. Sônia comenta sobre a magreza das chinesas, em tom de brincadeira. Sun, habilidoso, consegue copiar qualquer peça apresentada.

…Malu Verdi, adida cultural da embaixada, marido, Hugo Mader, talentoso fotógrafo, nos levam ao Gaobeidian, o distrito dos móveis, no extremo leste da cidade.

…Como tudo em Pequim, um lugar superlativo… Distinção de original e cópia, Mercado de grilos…

Mercado de grilos, no sul de Pequim, ocupa um quarteirão inteiro. Grilos são animais de estimação muito populares na China; o último imperador, Pu Yi, também costumava ter um. Há várias espécies, com diferentes tamanhos, cores e cantos, organizadas por setores em pequenas caixas plásticas.

Grilos cantadores são avaliados com um instrumento feito de PVC, semelhante a um periscópio: um funil é colocado sobre a caixa e a outra ponta se encaixa no ouvido, permitindo comparar os cantos até encontrar o preferido.

Um homem mais velho escolhe cuidadosamente e explica que, quanto mais proporcional o grilo, melhor. Sônia pergunta:

- Mas por que grilo?

Ele responde:

- Porque eles nos alegram. Se estamos deprimidos, levamos um grilo dentro da gaiolinha junto ao coração. Se precisarmos de sorte, ele tem que estar ao alcance da mão. E o canto deles é bonito – e beleza é bom. Sônia concorda:

- Beleza é bom.

Chefe do mercado leva a equipe a um salão de acesso controlado, masculino, com fumaça de cigarro e homens reunidos em mesas fazendo apostas. É um centro de lutas de grilos. Cada mesa tem um ringue, caixa de acrílico de 30 x 30cm, e as gaiolas dos lutadores, identificadas pelo peso: peso-leve, 4g; peso-pesado, 6g.

Os grilos são apresentados e começam as apostas, com notas de 10, 50 e 100 yuans. Depois, os grilos kung fu são colocados no ringue e estimulados por pequenos fios que imitam as antenas do adversário. A luta pode ser fatal e envolve grandes quantias. Um grilo campeão de Hong Kong chegou a ser vendido por 100 mil dólares.

Vendedores dão a Sônia um grilo para levar a Pedrinho. Ela não consegue deixá-lo na caixa e o animal passa a viver na varanda, entre as plantas, subindo pelas cortinas. Após duas semanas, aparece morto aos pés de um bonsai.

Ao voltar da escola de Pedro, Sônia encontra um vendedor de grilos na esquina. Compra um grilo grande e ganha um pacote de vermes vivos como alimento. Sem conseguir explicar que não quer os vermes, leva-os para casa, preocupada com a possibilidade de o grilo morrer de fome.

Ninguém em casa consegue manipular os vermes, então eles são soltos no jardim e o grilo se torna vegetariano. Vive forte e feliz, cantando dia e noite.

c10-um-bom-dia

Foca - repórter iniciante

Yuan chinês e a política cambial, Até 07-2005 a moeda era atrelada ao dólar. Uma reforma deixou a moeda oscilando de acordo com uma cesta de moedas, euro, a libra esterlina e o yen japonês.

Dificuldades para reportagens oficiais, apenas externas, tradição dos cortes de cabelo a céu aberto, xadrez chinês (Xiangqi - Chinese: 象棋; pinyin: xiàngqí) ver

Pipas como exercício para correção de postura

Liberação para cobertura das reformas no palácio imperial de verão, muitos repórteres estrangeiros, liberação pela prefeitura de Pequim, noroeste da cidade

Palácio de Verão, construído pela imperatriz Cixi, considerada a mulher mais poderosa da história da China. Segundo a lenda, após a morte do marido, Cixi mandou matar a concubina preferida do imperador, jogando-a em um poço da Cidade Proibida. Tomou o poder e continuou governando mesmo após o filho assumir.

O antigo Palácio de Verão havia sido destruído pelos ingleses durante a Segunda Guerra do Ópio. Cixi decidiu construir outro usando dinheiro que deveria ser destinado à construção de uma armada para enfrentar a Marinha inglesa. O único barco construído foi de mármore e funciona como casa de chá à beira do lago.

O palácio preserva construções do estilo Qing, pavilhões decorados com o símbolo da longevidade, obsessão de Cixi, grande lago com barcos em forma de dragão no verão, plantações de lótus e canteiros de peônias. Patrimônio da UNESCO em restauração, a equipe busca autorização para gravar.


O trecho de Sônia Bridi apresenta as Guerras do Ópio, a abertura forçada da China às potências estrangeiras, a criação das concessões e a Rebelião dos Boxers como etapas de um processo mais amplo de enfraquecimento da dinastia Qing. A pesquisa histórica confirma esse quadro geral, mas permite acrescentar alguns detalhes importantes e também fazer algumas correções de precisão.

tp-1. A Primeira Guerra do Ópio (1839–1842)

A origem da guerra esteve ligada ao desequilíbrio comercial entre China e Grã-Bretanha. Os britânicos compravam grandes quantidades de chá, seda e porcelana chineses, enquanto os chineses tinham pouco interesse em produtos britânicos. Como resultado, a prata fluía para a China.

A Companhia Britânica das Índias Orientais passou a participar do comércio de ópio produzido na Índia e vendido ilegalmente na China. Isso ajudava os britânicos a compensar o déficit comercial, ao mesmo tempo em que aumentava o consumo de ópio na sociedade chinesa.

Em 1839, o funcionário imperial Lin Zexu recebeu a missão de combater o comércio de ópio em Cantão. Ele confiscou e destruiu grandes estoques da droga pertencentes a comerciantes estrangeiros. A Grã-Bretanha respondeu militarmente, dando início à Primeira Guerra do Ópio.

A derrota chinesa resultou no Tratado de Nanjing, de 1842. Entre suas consequências esteve a cessão de Hong Kong à Grã-Bretanha e a abertura de cinco portos ao comércio estrangeiro: Cantão, Xiamen, Fuzhou, Ningbo e Xangai.

Esse tratado inaugurou o sistema que posteriormente ficou conhecido como “sistema dos tratados desiguais”, porque as potências estrangeiras obtiveram vantagens comerciais e jurídicas que a China não conseguiu negociar em condições de igualdade.

tp-2. O envolvimento de outras potências

A abertura não ficou restrita aos britânicos. Em 1844, os Estados Unidos assinaram o Tratado de Wangxia com a China, obtendo privilégios comerciais semelhantes aos concedidos à Grã-Bretanha.

A França também conseguiu privilégios por meio de seu tratado com a China.

Um mecanismo particularmente importante era a cláusula de “nação mais favorecida”. Na prática, quando uma potência conseguia uma vantagem adicional em um tratado, outras potências podiam exigir privilégios semelhantes.

Isso fez com que as concessões obtidas inicialmente pelos britânicos fossem progressivamente ampliadas para outras potências.

Fonte complementar: Office of the Historian, U.S. Department of State. https://archive.ph/O28kd

tp-3. A Segunda Guerra do Ópio (1856–1860)

A Segunda Guerra do Ópio aprofundou a situação. Grã-Bretanha e França pressionaram militarmente a China para ampliar os privilégios obtidos na primeira guerra.

Os Tratados de Tianjin, assinados em 1858, ampliaram o número de portos abertos ao comércio estrangeiro e concederam novos direitos às potências ocidentais.

Entre as exigências estava a possibilidade de diplomatas estrangeiros residirem em Pequim. O governo Qing resistiu à implementação dessas condições, e a guerra continuou.

Em 1860, forças britânicas e francesas chegaram a Pequim. O Palácio de Verão (Yuanmingyuan) foi saqueado e destruído pelas forças anglo-francesas. A Cidade Proibida, entretanto, não foi destruída.

O episódio tornou-se um dos símbolos mais fortes da humilhação sofrida pela China diante das potências estrangeiras.

Fonte complementar: Office of the Historian, U.S. Department of State.

https://archive.ph/O28kd

Fonte complementar: Metropolitan Museum of Art.

https://lnk.ink/G4weP

tp-4. Uma distinção importante: portos, concessões e territórios arrendados

O trecho do livro apresenta as concessões territoriais de maneira bastante abrangente. Historicamente, é importante distinguir três situações.

Os “portos do tratado” eram cidades ou áreas abertas ao comércio estrangeiro por imposição de tratados.

As “concessões” eram áreas específicas dentro de algumas dessas cidades, nas quais estrangeiros receberam direitos especiais de residência, administração e jurisdição.

Já os territórios arrendados posteriormente pelas potências eram áreas maiores, obtidas por acordos específicos no final do século XIX.

Portanto, não era correto imaginar que cada potência simplesmente possuía uma cidade chinesa inteira. Em muitos casos, tratava-se de uma área determinada dentro de uma cidade.

Xangai é um dos melhores exemplos. A cidade passou a possuir diferentes áreas de presença estrangeira, incluindo a Concessão Internacional e a Concessão Francesa.

Documentos diplomáticos norte-americanos do período mostram que essas áreas possuíam regras próprias e diferentes formas de administração, inclusive questões relacionadas à propriedade e à jurisdição.

Fonte complementar: Office of the Historian, U.S. Department of State.

https://archive.ph/4peNs

tp-5. A extraterritorialidade

Um dos aspectos mais importantes desse sistema foi a extraterritorialidade.

Em determinadas situações, estrangeiros não estavam sujeitos à jurisdição normal dos tribunais chineses. Seus próprios representantes consulares podiam exercer jurisdição sobre eles.

Isso criava uma situação profundamente desigual: uma pessoa chinesa estava submetida às leis e autoridades chinesas, enquanto um estrangeiro de uma potência com esse privilégio podia responder perante autoridades de seu próprio país.

A extraterritorialidade tornou-se um dos elementos mais marcantes do sistema dos tratados desiguais e alimentou o ressentimento contra o imperialismo estrangeiro.

Fonte complementar: Office of the Historian, U.S. Department of State. https://history.state.gov/milestones/1830-1860/china-2

tp-6. A China e a crise interna

As guerras contra as potências estrangeiras ocorreram enquanto a dinastia Qing já enfrentava graves problemas internos.

O século XIX foi marcado por grandes revoltas, crises econômicas, corrupção, problemas administrativos e dificuldades para controlar um território enorme.

Entre os acontecimentos mais importantes esteve a Rebelião Taiping (1850–1864), uma das guerras civis mais devastadoras da história chinesa.

A dinastia Qing precisou enfrentar simultaneamente conflitos internos e a pressão militar das potências estrangeiras.

Isso ajuda a entender por que as Guerras do Ópio foram tão importantes: elas não ocorreram isoladamente, mas dentro de uma crise muito maior do Estado imperial.

tp-7. Cixi e a tentativa de modernização

A imperatriz viúva Cixi tornou-se uma das figuras políticas mais importantes da China na segunda metade do século XIX.

Seu governo esteve associado ao chamado Movimento de Autofortalecimento, que procurava incorporar conhecimentos militares, tecnológicos e industriais ocidentais sem abandonar a estrutura política imperial.

A China criou arsenais, estaleiros, escolas e outras instituições voltadas para a modernização.

A preocupação com o poder naval era especialmente importante porque a China estava cada vez mais vulnerável às potências estrangeiras e, posteriormente, ao Japão.

Por isso, a reconstrução do Palácio de Verão de Cixi também deve ser entendida dentro do contexto político da corte Qing. A relação entre os recursos destinados ao palácio e os investimentos militares, porém, é mais complexa do que a narrativa resumida no trecho do livro pode sugerir.

tp-8. A ascensão do Japão como nova ameaça

Um ponto importante para complementar o capítulo é que a pressão sobre a China não vinha apenas das potências europeias.

O Japão passou por uma rápida modernização após a Restauração Meiji, iniciada em 1868, e transformou-se em uma potência militar.

A rivalidade sino-japonesa culminou na Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894–1895), disputada principalmente pelo controle e pela influência sobre a Coreia.

A China foi derrotada.

O resultado foi extremamente importante porque mostrou que o Império Qing não estava apenas vulnerável diante das potências ocidentais. Uma potência asiática modernizada também poderia derrotá-lo.

A derrota fortaleceu ainda mais as pressões estrangeiras sobre o território chinês no final do século XIX.

tp-9. A divisão da China em “esferas de influência”

Depois da derrota chinesa para o Japão, as potências estrangeiras aumentaram a pressão por concessões, ferrovias, direitos comerciais e áreas de influência.

A Alemanha, por exemplo, obteve a região de Jiaozhou e o porto de Qingdao. A Rússia conseguiu arrendar Port Arthur e Dalian. A França obteve Guangzhouwan, enquanto a Grã-Bretanha conseguiu novos territórios arrendados, incluindo Weihaiwei e uma extensão de Kowloon.

Isso não significava que a China tivesse sido formalmente dividida em colônias como ocorreu em outras partes da Ásia. Porém, diferentes potências passaram a exercer forte influência econômica, militar e política em determinadas regiões.

Documentos diplomáticos norte-americanos do início do século XX registram explicitamente a preocupação com essas “esferas de interesse” e com os territórios arrendados pelas potências.

Fonte complementar: Office of the Historian, U.S. Department of State.

https://archive.ph/4peNs

tp-10. A Rebelião dos Boxers (1899–1901)

A Rebelião dos Boxers surgiu em um ambiente de crescente ressentimento contra a presença estrangeira e contra a influência cristã estrangeira em partes da China.

Os Boxers eram integrantes de movimentos populares e sociedades secretas que combinavam práticas marciais, crenças religiosas e forte oposição à presença estrangeira.

O movimento ganhou força no norte da China e acabou recebendo apoio de setores da própria corte Qing.

É importante fazer uma pequena correção de precisão em relação ao trecho: a Rebelião dos Boxers não foi simplesmente uma revolta organizada pela imperatriz Cixi desde o início. O movimento surgiu na sociedade e, posteriormente, setores da corte passaram a apoiá-lo.

Em 1900, uma força internacional formada por oito potências avançou sobre Pequim para proteger os estrangeiros e suas áreas de presença na cidade.

As tropas chegaram à capital e ocuparam Pequim.

A corte Qing foi obrigada a aceitar o Protocolo Boxer, assinado em 1901.

tp-11. O Protocolo Boxer

O acordo de 1901 impôs novas condições extremamente pesadas à China.

O governo Qing teve de pagar uma enorme indenização às potências estrangeiras e aceitar outras medidas que restringiam ainda mais sua soberania.

A derrota mostrou o grau de enfraquecimento do império.

A Rebelião dos Boxers também agravou a percepção de que a dinastia Qing era incapaz de defender o país diante das potências estrangeiras.

Esse ambiente ajudou a fortalecer movimentos reformistas e revolucionários que posteriormente contribuiriam para a queda do sistema imperial.

tp-12. O fim do sistema imperial

A Rebelião dos Boxers não provocou sozinha o fim da dinastia Qing.

Ela foi, porém, um dos episódios finais de uma longa sequência de crises.

Primeira Guerra do Ópio

→ Tratado de Nanjing

→ abertura dos portos

→ expansão dos privilégios estrangeiros

→ Segunda Guerra do Ópio

→ novos tratados e concessões

→ derrota diante do Japão

→ expansão das esferas de influência

→ Rebelião dos Boxers

→ Protocolo Boxer

→ crise final da dinastia Qing

→ Revolução de 1911

→ queda do império.

Em 1911, a Revolução Xinhai derrubou a dinastia Qing. Em 1912, Puyi abdicou, encerrando o sistema imperial chinês.

Assim, a ideia apresentada por Sônia Bridi de que a humilhação provocada pelas potências estrangeiras contribuiu para o fim do sistema imperial é historicamente relevante, mas deve ser entendida como parte de um conjunto muito maior de crises políticas, sociais, econômicas e militares.

tp-Referências complementares

1 Office of the Historian - U.S. Department of State. “The Opening to China Part II: The Second Opium War, the United States, and the Treaty of Tianjin, 1857–1859.”

https://history.state.gov/milestones/1830-1860/china-2

2 Office of the Historian - U.S. Department of State. Documentos sobre tratados, concessões e presença estrangeira nos portos chineses.

3 Office of the Historian - U.S. Department of State. Documentos diplomáticos sobre as concessões estrangeiras em Xangai.

https://archive.ph/4peNs

4 Metropolitan Museum of Art. Material histórico sobre a destruição do Yuanmingyuan durante a Segunda Guerra do Ópio.

5 Office of the Historian - U.S. Department of State. Documentação sobre comércio, tratados e privilégios estrangeiros na China.

https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1901/d89

tp-Observação para o estudo do capítulo

O ponto central para memorizar é que as Guerras do Ópio não representam apenas dois conflitos militares. Elas marcaram o início de um longo período em que a China perdeu parte de sua autonomia diante das potências estrangeiras.

O encadeamento histórico é:

Comércio do ópio

→ Primeira Guerra do Ópio

→ Tratado de Nanjing

→ Hong Kong e cinco portos

→ novos tratados com outras potências

→ Segunda Guerra do Ópio

→ Tratados de Tianjin e Convenção de Pequim

→ ampliação dos privilégios estrangeiros

→ concessões e extraterritorialidade

→ derrota chinesa para o Japão

→ esferas de influência

→ Rebelião dos Boxers

→ Protocolo Boxer

→ crise final do Qing

→ Revolução de 1911.

Esse encadeamento é particularmente importante porque mostra como um acontecimento levou ao outro e ajuda a compreender por que o período é frequentemente associado, na historiografia chinesa, ao chamado “século de humilhação”.


tp-Os jesuítas na China - diferentes visões históricas

Os jesuítas tiveram uma atuação muito mais complexa na China do que a ideia de que eram apenas “missionários estrangeiros”. Eles participaram de um processo de intercâmbio religioso, científico, linguístico e cultural, mas também faziam parte da expansão mundial do catolicismo e estavam inseridos nas estruturas políticas e coloniais europeias.

Por isso, é importante estudar os jesuítas a partir de diferentes perspectivas: a visão dos próprios missionários, a visão da Igreja Católica, a visão dos chineses que colaboraram com eles, a visão de outras ordens religiosas e a interpretação da historiografia contemporânea.

tp-1. A chegada dos jesuítas

A presença permanente dos jesuítas na China começou no final do século XVI. Michele Ruggieri e Matteo Ricci estabeleceram uma residência em Guangdong em 1583.

Ricci percebeu que simplesmente tentar impor costumes europeus dificultaria a conversão. Por isso, procurou aprender a língua e a cultura chinesas e aproximar o cristianismo de elementos do pensamento confuciano.

Essa estratégia ficou conhecida como “acomodação”.

A pesquisa contemporânea ressalta, porém, que essa política não foi uma invenção exclusivamente de Ricci. Ruggieri teve papel fundamental no início da missão, e Ricci posteriormente modificou a estratégia.

A historiografia mais antiga frequentemente transformou Ricci no “fundador” da missão chinesa, enquanto estudos posteriores passaram a recuperar a importância de Ruggieri e de outros personagens.

Fonte: Oxford Bibliographies, Ana Carolina Hosne.

https://academic.oup.com/reference/62338/reference-article-abstract/554184697

Para os jesuítas, o conhecimento da sociedade chinesa era uma ferramenta para a evangelização.

Ricci adotou roupas e comportamentos associados aos letrados chineses, estudou os clássicos e procurou demonstrar que existia compatibilidade entre determinados aspectos do pensamento confuciano e o cristianismo.

Isso não significava que Ricci considerasse todas as religiões chinesas equivalentes ao cristianismo.

Ao contrário: a estratégia jesuíta envolvia uma interpretação seletiva da cultura chinesa. Os jesuítas procuravam identificar aquilo que consideravam compatível com o cristianismo e rejeitavam práticas que interpretavam como religiosamente incompatíveis.

Esse ponto é importante porque evita duas interpretações simplistas:

“Os jesuítas simplesmente impuseram o cristianismo.”

ou

“Os jesuítas aceitaram integralmente a cultura chinesa.”

Na realidade, houve negociação, adaptação, conflito e tentativa de reinterpretação cultural.

Fonte: Oxford Academic, “Jesuits and China”.

https://academic.oup.com/edited-volume/41330/chapter/352332934

tp-3. A visão chinesa: Ricci como interlocutor e não apenas como missionário

Alguns chineses receberam Ricci e outros jesuítas como interlocutores intelectuais.

Um dos exemplos mais importantes foi Xu Guangqi, funcionário imperial e intelectual que se converteu ao cristianismo.

Xu colaborou com Ricci na tradução de obras científicas ocidentais para o chinês. Entre os trabalhos associados a essa colaboração está a tradução dos Elementos de Euclides.

Outro personagem importante foi Li Zhizao.

Esses exemplos mostram que o contato não funcionava simplesmente em uma direção, da Europa para a China. Houve chineses que selecionaram, adaptaram e utilizaram conhecimentos europeus de acordo com seus próprios interesses.

R. Po-chia Hsia destaca justamente essa dimensão da relação, mostrando que Xu Guangqi e Li Zhizao não eram meros receptores passivos do conhecimento europeu.

Fonte: Oxford Academic, R. Po-chia Hsia.

https://lnk.ink/SoCWC

tp-4. Ciência como instrumento de aproximação

Os jesuítas possuíam conhecimentos de matemática, astronomia, cartografia, engenharia e outras áreas valorizadas pela corte.

Isso abriu portas que provavelmente seriam muito mais difíceis de abrir apenas através da pregação religiosa.

Matteo Ricci chegou a Pequim em 1601 e apresentou presentes ao imperador Wanli, incluindo livros, relógios, instrumentos musicais e outros objetos europeus.

A estratégia funcionou parcialmente porque os jesuítas passaram a ser vistos também como especialistas em determinados conhecimentos.

Posteriormente, jesuítas trabalharam para a corte Qing em áreas como astronomia e cartografia.

Fonte: Oxford Academic, “Jesuits and China”.

https://academic.oup.com/edited-volume/41330/chapter/352332934

tp-5. Mas havia também uma dimensão colonial

Essa é uma perspectiva importante para complementar a narrativa tradicional.

A missão jesuíta estava inserida na expansão mundial do catolicismo e nas estruturas do império português.

A própria Oxford Bibliographies ressalta que a Companhia de Jesus foi mobilizada pela Coroa portuguesa dentro do sistema do Padroado, que estava ligado à expansão europeia.

Portanto, não devemos imaginar os jesuítas como completamente separados da expansão política e econômica europeia.

Ao mesmo tempo, isso não significa que cada jesuíta na China estivesse simplesmente executando um projeto colonial.

A situação era muito mais contraditória: os missionários dependiam de redes europeias, mas precisavam negociar constantemente com autoridades e intelectuais chineses.

Fonte: Oxford Bibliographies.

https://academic.oup.com/reference/62338/reference-article-abstract/554184697

tp-6. A controvérsia dos ritos chineses

Esse talvez seja o episódio mais importante para compreender as diferentes visões sobre os jesuítas.

A questão era aparentemente simples:

Um cristão chinês poderia continuar realizando determinados rituais tradicionais em homenagem aos antepassados e a Confúcio?

Para muitos jesuítas, sim.

Eles argumentavam que determinados ritos possuíam caráter social, familiar, civil ou político, e não necessariamente significavam adoração religiosa.

Outros missionários discordavam.

Dominicanos e franciscanos, entre outros religiosos, questionaram a interpretação jesuíta e consideraram que certas práticas poderiam representar idolatria ou incompatibilidade com o cristianismo.

A disputa cresceu e chegou à Europa.

Fonte: Cambridge University Press, “Chinese Rites Controversy”.

https://www.cambridge.org/core/books/cambridge-encyclopedia-of-the-jesuits/chinese-rites-controversy/54B0F656D92D7920BE20DDFE3518EE92

tp-7. Não foi simplesmente “jesuítas contra o resto”

Essa é uma correção histórica importante.

A controvérsia costuma ser apresentada de forma simplificada como uma disputa entre “jesuítas tolerantes” e “outros missionários intolerantes”.

A documentação mostra uma situação muito mais complicada.

Havia divergências dentro da própria Companhia de Jesus.

Nicolò Longobardo, sucessor de Ricci na direção da missão chinesa, por exemplo, questionou algumas das interpretações de Ricci sobre o pensamento chinês e os termos utilizados para designar Deus.

Portanto, os próprios jesuítas não tinham uma posição absolutamente uniforme.

Fonte: Oxford Academic.

https://academic.oup.com/edited-volume/41330/chapter/352332934

tp-8. A perspectiva chinesa sobre a controvérsia

Outra contribuição importante da historiografia recente é mostrar que os chineses não eram apenas espectadores da discussão.

Intelectuais, funcionários e cristãos chineses participaram do debate.

O historiador Liu Yu observa que a controvérsia envolvia não apenas uma disputa interna entre missionários europeus, mas também diferentes interpretações chinesas e europeias sobre Deus, rituais, ancestralidade e religião.

Isso muda bastante a maneira de enxergar o episódio.

Não era simplesmente:

Europa → decide → China obedece.

Havia chineses discutindo, interpretando, aceitando ou rejeitando diferentes posições.

Fonte: Liu Yu, Journal of Religious History, 2020.

https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1467-9809.12638

tp-9. O imperador Kangxi

O imperador Kangxi teve uma relação particularmente interessante com os jesuítas.

Ele reconhecia a utilidade de determinados conhecimentos trazidos pelos missionários, especialmente em áreas científicas.

Ao mesmo tempo, isso não significava que Kangxi tivesse se convertido ao cristianismo ou que aceitasse que missionários estrangeiros determinassem questões religiosas dentro do império.

A relação era pragmática e política.

Os jesuítas podiam ser úteis à corte, mas continuavam sendo estrangeiros dentro de um Estado que pretendia controlar cuidadosamente a atividade religiosa.

A documentação sobre as negociações entre Kangxi, autoridades Qing, missionários e o representante papal Charles Maillard de Tournon mostra a complexidade dessa relação.

Fonte: Cambridge, “Rethinking the Rites Controversy”.

https://www.cambridge.org/core/journals/modern-intellectual-history/article/rethinking-the-rites-controversy-kilian-stumpfs-acta-pekinensia-and-the-historical-dimensions-of-a-religious-quarrel/CA9E51F3E4E3A48B1AE7345DC252FD02

tp-10. A visão da Igreja Católica

A Igreja Católica acabou restringindo as práticas que os jesuítas defendiam.

Em 1704 e posteriormente em 1715, o papa Clemente XI adotou posições contrárias a aspectos importantes da acomodação jesuíta.

Em 1742, Bento XIV reforçou a proibição.

Isso teve consequências profundas.

A estratégia que havia permitido aos jesuítas aproximar o cristianismo das elites chinesas ficou seriamente comprometida.

Fonte: Cambridge University Press.

https://www.cambridge.org/core/books/cambridge-encyclopedia-of-the-jesuits/chinese-rites-controversy/54B0F656D92D7920BE20DDFE3518EE92

tp-11. Uma interpretação mais recente: o problema não foi apenas religioso

Durante muito tempo, a história tradicional dos jesuítas apresentou a controvérsia dos ritos como uma das principais causas da proibição do cristianismo na China.

Pesquisas mais recentes questionam essa explicação isolada.

A Oxford Bibliographies observa que estudos recentes relacionam a proibição do cristianismo em 1724 também a fatores internos chineses e à expansão do controle estatal.

Ou seja, não é suficiente dizer:

“Roma proibiu os ritos → a China proibiu o cristianismo.”

Havia também questões políticas, controle do Estado, preocupações com organizações religiosas estrangeiras e transformações dentro do próprio império Qing.

Fonte: Oxford Bibliographies.

https://academic.oup.com/reference/62338/reference-article-abstract/554184697

tp-12. Os jesuítas como transmissores de conhecimento

Outra visão historiográfica enfatiza o papel dos jesuítas como intermediários entre dois mundos intelectuais.

Eles levaram para a China conhecimentos europeus de matemática, astronomia, cartografia e tecnologia.

Ao mesmo tempo, levaram informações sobre a China para a Europa.

A circulação não foi apenas científica.

Textos sobre a sociedade, política, filosofia e cultura chinesas ajudaram a transformar a maneira como alguns europeus imaginavam a China.

Assim, os jesuítas funcionaram como uma espécie de ponte intelectual entre Europa e China.

Mas “ponte” não significa neutralidade: eles selecionavam o que observavam, interpretavam a sociedade chinesa a partir de suas próprias categorias e produziam relatos dentro dos objetivos da missão.

tp-13. A visão crítica dos próprios chineses

Também é importante não transformar todos os chineses em admiradores dos jesuítas.

A presença cristã provocou reações variadas.

Alguns intelectuais se interessaram pelos conhecimentos europeus e pelo cristianismo.

Outros rejeitaram a religião estrangeira.

Em determinados períodos ocorreram perseguições locais e restrições à atividade missionária.

Além disso, a religião cristã poderia entrar em conflito com estruturas familiares e rituais tradicionais importantes para a sociedade chinesa.

Por isso, a recepção do cristianismo foi heterogênea.

Não existiu uma única “visão chinesa” sobre os jesuítas.

tp-14. Uma perspectiva ainda mais interessante: os chineses também

transformaram o cristianismo

Esse talvez seja um dos pontos mais interessantes para o estudo.

Quando o cristianismo entrou na China, ele não permaneceu exatamente igual ao cristianismo europeu.

Os missionários precisaram traduzir conceitos religiosos para o chinês, escolher palavras para conceitos como Deus e adaptar práticas à realidade local.

Ao mesmo tempo, cristãos chineses interpretaram essas ideias de acordo com suas próprias tradições intelectuais.

Por isso, alguns historiadores preferem estudar esse processo como um encontro intercultural, e não simplesmente como “europeus levando uma religião para chineses”.

O estudo de Nicholas Standaert é especialmente importante nesse sentido, porque procura recuperar as “vozes chinesas” presentes na controvérsia.

Fonte: Cambridge Encyclopedia of the Jesuits, referências a Nicholas Standaert.

https://www.cambridge.org/core/books/cambridge-encyclopedia-of-the-jesuits/chinese-rites-controversy/54B0F656D92D7920BE20DDFE3518EE92

tp-15. O que isso acrescenta ao capítulo 10 de Laowai?

O trecho de Sônia Bridi menciona que o antigo Palácio de Verão tinha sido projetado por técnicos jesuítas.

Esse detalhe é importante porque mostra que a presença jesuíta na China não se limitou à religião.

Os jesuítas participaram de atividades científicas, técnicas, artísticas e cartográficas ligadas à corte.

Mas existe uma história muito maior por trás disso.

A presença jesuíta pode ser entendida simultaneamente como:

  1. uma missão de evangelização católica;

  2. uma experiência de adaptação cultural;

  3. um canal de intercâmbio científico;

  4. uma relação com intelectuais e funcionários chineses;

  5. uma fonte de conhecimento sobre a China para a Europa;

  6. uma presença ligada às redes imperiais portuguesas;

  7. uma fonte de conflitos dentro da própria Igreja Católica;

  8. um elemento sujeito ao controle do Estado Qing.

Essa multiplicidade é justamente o que torna a história dos jesuítas na China tão interessante.

Referências complementares

1 Ana Carolina Hosne - Oxford Bibliographies, “The Jesuit Missions in China, from Matteo Ricci to the Restoration”. É uma excelente visão geral e atualizada da historiografia.

https://academic.oup.com/reference/62338/reference-article-abstract/554184697

2 R. Po-chia Hsia - “A Jesuit in the Forbidden City: Matteo Ricci 1552–1610”. Importante para estudar Ricci utilizando fontes chinesas e europeias.

https://academic.oup.com/book/25819

3 Cambridge University Press - “Chinese Rites Controversy”. Reúne bibliografia acadêmica fundamental sobre a controvérsia.

https://www.cambridge.org/core/books/cambridge-encyclopedia-of-the-jesuits/chinese-rites-controversy/54B0F656D92D7920BE20DDFE3518EE92

4 Liu Yu - “Behind the Façade of the Rites Controversy”. Excelente para compreender a controvérsia a partir da interação entre concepções chinesas e europeias.

https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1467-9809.12638

5 Cambridge University Press - “Rethinking the Rites Controversy”. Utiliza a documentação das negociações entre missionários, autoridades Qing e o imperador Kangxi.

https://www.cambridge.org/core/journals/modern-intellectual-history/article/rethinking-the-rites-controversy-kilian-stumpfs-acta-pekinensia-and-the-historical-dimensions-of-a-religious-quarrel/CA9E51F3E4E3A48B1AE7345DC252FD02

6 Oxford Academic - “Jesuits and China”. Bom para estudar a chegada de Ricci, a acomodação cultural, ciência e conflitos internos da missão.

https://academic.oup.com/edited-volume/41330/chapter/352332934

7 Macau Ricci Institute - Paul Rule, “The Chinese Rites Controversy: An Overview and Critique”. Útil para questionar algumas interpretações simplificadas sobre a disputa.

https://archive.ph/RZg0z

tp-Síntese para memorizar

A história dos jesuítas na China não pode ser resumida como “missionários que levaram o cristianismo”.

Eles tentaram converter os chineses, mas perceberam que precisavam conhecer e negociar com a cultura local. Ao mesmo tempo, levaram conhecimentos científicos europeus para a China e informações sobre a China para a Europa.

Alguns chineses se converteram e colaboraram ativamente com eles, enquanto outros rejeitaram sua presença. Dentro da própria Igreja Católica, os jesuítas entraram em conflito com outras ordens sobre a interpretação dos ritos chineses.

A disputa chegou ao papa, envolveu o imperador Kangxi e acabou contribuindo para enfraquecer a estratégia de acomodação cultural.

Por isso, os jesuítas podem ser vistos simultaneamente como missionários, cientistas, tradutores, diplomatas culturais, agentes de intercâmbio e participantes da expansão católica europeia.

Essa visão múltipla é mais adequada historicamente do que classificá-los simplesmente como “heróis do intercâmbio cultural” ou como “agentes do imperialismo europeu”.


c11-uma-historia-cabeluda

Prós e contras de serem um casal da imprensa, risco do mesmo vôo, deixarem o filho Pedro órfão, planejamento da educação de Pedro, um dos 2 fará até a filha mais velha Mariana puder fazer isso.

Diz isso em 2005-05

Farão a primeira cobertura fora da China, Pedro e Fafá ficarão sozinhos, conseguem se virar. Sonia e Paulo vão até Seul, na Coreia do Sul cobrir a visita do presidente Lula

…Eles falam chinês, ela português, mas, de alguma maneira inexplicável, se entendem…

No trajeto Paulo passa mão, situação de aflição e engraçada (após) onde a equipe médica discute como fazer o eletrocardiograma por conta da enorme quantidade de pêlos em Paulo, orientais não possuem

Paulo passa mal e é levado ao hospital. Médicos e enfermeiros discutem enquanto ele está pálido, deixando Sônia apavorada. Um enfermeiro retorna com um barbeador e ela percebe que a preocupação era apenas como colocar os sensores do eletrocardiograma no peito muito peludo de Paulo, algo incomum para os asiáticos.

Mesmo após raspar o peito, os sensores não aderem à pele e Sônia e um funcionário do hotel precisam ajudar a segurá-los durante o exame. O diagnóstico é arritmia cardíaca, mas a tradução precária impede descobrir as causas. Paulo fica mais assustado com os bips irregulares do aparelho. Após garantirem que ele não morreria, Sônia o leva de volta ao hotel, onde ele dorme sedado.

Sônia pede ajuda ao único médico que conhece no continente. De Pequim, doutor Ahmed consegue uma consulta com um médico americano da Universidade de Seul, que havia atendido o vice-presidente americano Dick Cheney meses antes.

No Hospital Universitário, Paulo é recebido com tratamento de autoridade. Após examiná-lo, o médico dá o diagnóstico: intoxicação por Coca Light. Paulo não bebe café, mas exagera no refrigerante, que contém muita cafeína.

…Quando o presidente Lula chega, naquela noite, estamos a postos para a cobertura. Mais do que acordos bilaterais, a visita é marcada por pequenas gafes.

…Como a do presidente do Brasil brincando com o dedo vazio da luva branca que foi obrigado a usar para depositar flores no Túmulo do Soldado Desconhecido ou o gesto que fez insinuando potência masculina ao receber ginseng de presente da comunidade brasileira na Coreia…

tp-A revolução nas salas de aula

Si-Bum Kim, coreano de 40 anos, apaixonado por quadrinhos e dono dos direitos de vários personagens na Coreia, inclusive da Turma da Mônica. Casado, 4 filhos, aceita ser modelo para explicar a revolução educacional coreana.

Família Kim:

Revolução educacional coreana: governo investe 20% do que arrecada em iniciativas voltadas à formação profissional. Educação básica recebe prioridade e tornou-se obrigatório estudar até a 8ª série. Ensino médio é subsidiado, com pequena parte paga pelas famílias; ensino superior é privado. Atualmente, 8 em cada 10 coreanos chegam à universidade.

Na família Kim, educação é tratada com “amor”, “paixão” e “carinho”. A filha de 17 anos estuda longas horas e a família gasta 20% da renda em livros e aulas extras, além da escola paga.

Colégio de Yon, filha mais velha, parece um campus universitário. Alunos usam chinelo e meia dentro da escola. Oferta inclui 7 idiomas, música, computação e cálculo avançado. Pesquisas anuais da Unesco apontam os coreanos como os melhores alunos do mundo em várias disciplinas.

Pressão educacional é intensa: adolescentes sentem a expectativa da família e da sociedade. Um jovem de 15 anos afirma: “Não podemos falhar” e que a Coreia “ só aceita homens perfeitos”.

Escola básica considerada a melhor do país: crianças alegres, professora bem paga e muito material didático, incluindo karaokê com músicas de conteúdo educacional. Diretor explica que não são alunos especiais que fazem uma boa escola, mas a escola que transforma os alunos em bons estudantes.

Não há seleção por desempenho: só estudam na escola as crianças que moram no bairro. Esse é o critério para todas as escolas do país; cada criança frequenta a escola mais próxima de sua casa.

c12-chinglish

Livro, Uma vida livre - Ha Jin

Banheiros na China são um desafio constante para Sônia: como jornalista, não controla os lugares que visita e, sendo mulher, não pode simplesmente usar uma moita. Desenvolve uma “técnica de enfrentamento de banheiros fedidos”: sair de casa com papel e lenços umedecidos, dobrar a barra das calças, prender a respiração, cobrir boca e nariz com lenço perfumado e entrar e sair rapidamente, usando o banheiro de cócoras.

A falta de privacidade é outro choque cultural: latrinas são buracos no chão, frequentemente sem divisórias ou portas. Chinesas observam naturalmente a laowai e tentam enxergar melhor. Sônia entra e sai em silêncio, enquanto ouve risadas e conversas depois de sair.

Até no Palácio do Povo há vaso para usar de cócoras. Em uma fábrica, o banheiro tem apenas um buraco comprido, como um córrego, onde operárias se agacham em fila. Em um avião doméstico, Sônia encontra marcas de pés sobre o assento, indicando que alguém subiu no vaso para usá-lo de cócoras.

Sheryl explica que os chineses consideram nojento tocar na louça sanitária. O assento é visto como parte suja do banheiro, enquanto a posição de cócoras é considerada natural. Alguns hábitos permanecem mesmo com a modernização.

Hotéis novos surpreendem pela qualidade, até em lugares remotos. Em Tong Li, Jiangsu, a administração municipal construiu um hotel cinco estrelas com campo de golfe para atrair turistas. As suítes têm banheiro com hidromassagem separado do quarto apenas por vidro, mantendo a ideia de que não é necessária privacidade.

Comunicação em inglês também gera problemas. Funcionários de hotéis afirmam falar inglês, mas muitas vezes não conseguem manter uma conversa. Sônia liga para pedir um sanduíche:

- Do you speak English?

- Yes, speak English.

- I would like to order...

- Yes, English.

Sem conseguir avançar, o funcionário desliga. Depois, um rapaz aparece com o cardápio e pede por gestos que ela aponte o prato. Ele entende e retorna com a comida e flores.

Uma colega brasileira vive confusão semelhante ao perguntar por “mensagem” no hotel. Entende que receberá uma “massagem”, e uma mulher aparece com uma mesa de massagem. Ao tentar corrigir o erro, surge depois um homem, pois “massagem” pode ser código para companhia. Assustada, ela dispensa o homem e, em seguida, uma mulher com roupa provocante aparece. A brasileira se tranca no quarto, com medo de piorar a confusão.

Sônia ressalta que não critica os chineses por não falarem inglês e admira quem consegue superar a enorme diferença entre o chinês e as línguas ocidentais. Sheryl tem facilidade para aprender vocabulário e boa pronúncia, mas enfrenta dificuldades com o “r”, transformando “famous” em “famourrrrs” e “Pedro” em “Bêdlo”.

Sônia ensina música brasileira a Sheryl, começando por “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Sheryl reproduz o sotaque carioca:

- Olha que coisa maix linda, maix cheia de glaça...

Em outra brincadeira, Sônia pergunta como Sheryl reproduziria o “ratatatá” de uma música sobre a Guerra do Vietnã. Sheryl diz que armas na China fazem “pitchico, pitchico, pitchico”. Quando perguntam a Men como soa uma metralhadora, ele responde:

- Hihi hihi ha ha hahahaha hi hi haha!

A brincadeira rende gargalhadas por vários dias.

“Chinglish” é o nome dado ao inglês criado pelos chineses, frequentemente resultante de traduções eletrônicas literais e confusas. Um restaurante anuncia “vegetais privados”, querendo dizer que produz seus próprios vegetais. Outro banheiro pede “No shit”, significando que se deve fazer apenas xixi. “Gentlemen” vira “genitalmen”, algo como “homens genitais”.

Filmes americanos pirateados também recebem legendas em chinglish. Em vez de traduzir as falas, os chineses passam a legenda chinesa por um tradutor eletrônico, produzindo frases absurdas. “Como vai, meu irmão? Entre, sente aí!” vira “Honorável filho da minha progenitora, passe pelo vestíbulo e acomode-se na cadeira”.

Nas capas dos DVDs, críticas em inglês também são interpretadas de maneira errada. Um filme de Pierce Brosnan apresenta “A complete bore!” e “Instantly forgettable” como se fossem elogios, embora signifiquem, respectivamente, uma chatice completa e um filme imediatamente esquecível.

Campanhas contra o “inglês errado”: Xangai e Pequim criam comissões para corrigir placas, nomes de pratos e traduções. O chinglish já criou termos próprios, como “3Q”, usado por jovens em SMS para dizer “obrigado”: 3 = san (sán) e Q = quiu, formando “sánquiu”.

Chinês escrito: a escrita usa milhares de caracteres, cada um com significado próprio, funcionando de maneira semelhante aos números para os ocidentais. O mesmo caractere pode ser pronunciado de formas diferentes em mandarim, cantonês, xangainês, coreano ou japonês, mas mantém o mesmo significado.

Exemplos:

女 = mulher

男 = homem

东京 significa “Capital do Leste”: japonês lê Tóquio e chinês, Dongjing.

北京 = Beijing, ou Pequim, significa “Capital do Norte”.

Unificação da escrita: há mais de 2 mil anos, Qin Shi Huang unificou o sistema de escrita, além do país, pesos, medidas e moeda. Sua tumba, em Xian, revelou o famoso Exército de Terracota, com cerca de 7 mil figuras de guerreiros, cavalos e armas em tamanho natural.

Dificuldades do chinês para estrangeiros: é uma língua de muitos monossílabos, com vários caracteres diferentes que possuem a mesma pronúncia. Além disso, existem os tons, difíceis de perceber para laowais, que podem mudar completamente o significado de uma palavra.

Exemplo da sílaba “ma”:

Existem ainda outros caracteres pronunciados “ma”, podendo significar “maçaneta”, “penico” ou funcionar como partícula de interrogação. Assim, um erro de tom pode transformar uma palavra em outra completamente diferente.

Confusões de pronúncia: um amigo tenta perguntar “Uma perguntinha, por favor…”, mas, com o tom errado, os chineses entendem “Me dê um beijo”. Sônia também provoca risadas ao tentar pronunciar o nome da imperatriz Cixi e acabar dizendo que quer fazer cocô.

Pedrinho, por ter ouvidos ainda não condicionados às diferenças entre os tons, é considerado por Sônia, Sheryl e Li como o único da família com boas chances de aprender corretamente a diferença dos sons e se comunicar em mandarim.

c13-os-negocios-da-china

Wo pu xi mei guo ren, wo xi ba xi ren!

Eu não sou americana, eu sou brasileira!

“Eu não sou americana, eu sou brasileira!” em chinês fica:

我不是美国人,我是巴西人! Wǒ bú shì Měiguó rén, wǒ shì Bāxī rén!

Pronúncia aproximada: “Uó bu shrr Mêi-guó rân, uó shrr Bá-shi rân!”

我 (wǒ) = eu

不是 (bú shì) = não sou

美国人 (Měiguó rén) = americana/americano

巴西人 (Bāxī rén) = brasileira/brasileiro

E sim: “Wo pu xi mei guo ren” está quase certo, mas o correto é “Wǒ bú shì Měiguó rén”.

Comércio de rua, Jianguomenwai, a principal avenida, e indo até as portas da embaixada dos Estados Unidos

Engenharia reversa chinesa, Embraer, custo de um engenheiro US$ 200, exploração de tecnologia, obrigação de um departamento de pesquisa e desenvolvimento

Mercadões pequineses, o mais charmoso é o Hongqiao, perto do Templo do Céu, subsolo, peixaria e frutos do mar

Menciona seu filho Pedro interação no mercado, perguntas sobre os animais, curiosidade, manga da blusa molhada, falsificação de outra Lacoste

Filme Código da Vinci, como funciona a exibição de produções estrangeiras


Catolicismo na China: Igreja oficial, Igreja subterrânea e sedevacantismo

O trecho de Sônia Bridi capta uma divisão real da história do catolicismo chinês, mas alguns pontos precisam ser atualizados e diferenciados. A situação é mais complexa do que a existência de uma Igreja simplesmente “controlada pelos comunistas” de um lado e de católicos perseguidos do outro.

1. Como surgiu a divisão

Depois da Revolução Comunista de 1949, as relações entre a China e a Santa Sé se deterioraram. Em 1951, Pequim rompeu relações diplomáticas com o Vaticano.

O governo chinês passou a defender que as organizações religiosas deveriam ser independentes de instituições estrangeiras. Para o catolicismo, isso criava um problema particularmente delicado: a Igreja Católica possui uma estrutura universal e reconhece o papa como autoridade suprema em questões eclesiásticas.

Em 1957 foi criada a Associação Patriótica dos Católicos Chineses (APCC), organização reconhecida pelo Estado para supervisionar a vida católica no país.

A partir daí surgiu uma divisão prática:

A própria Santa Sé descreveu posteriormente essa situação como duas “correntes” dentro da única Igreja Católica na China, uma oficial e outra subterrânea.

2. O problema central: quem nomeia os bispos?

Esse é o ponto mais importante para compreender a controvérsia.

Na doutrina e na organização da Igreja Católica, a comunhão com o papa possui importância fundamental para a estrutura episcopal.

O governo chinês, entretanto, não aceitava que uma autoridade estrangeira tivesse controle sobre a nomeação dos bispos chineses.

Durante décadas, ocorreram ordenações episcopais sem aprovação papal. Ao mesmo tempo, havia bispos reconhecidos pelo Vaticano que não eram reconhecidos pelas autoridades chinesas.

Assim, podia existir uma situação em que:

Pequim reconhecia o bispo, mas Roma não.

Ou:

Roma reconhecia o bispo, mas Pequim não.

A própria Santa Sé reconheceu essa situação como uma das principais fontes da divisão.

3. O que significa “Igreja subterrânea”?

O termo “Igreja subterrânea” ou “clandestina” normalmente se refere a comunidades católicas que, por diferentes razões, não estavam integradas às estruturas religiosas oficialmente reconhecidas pelo Estado.

Isso não significa necessariamente que todos esses católicos fossem perseguidos o tempo inteiro ou que todos vivessem escondidos.

A situação variou muito conforme a época, a região e a atitude das autoridades locais.

Também é importante evitar a ideia de que existiam duas Igrejas Católicas com doutrinas diferentes.

Para o Vaticano, trata-se de uma única Igreja dividida por circunstâncias políticas e administrativas. Em 2018, a Santa Sé afirmou explicitamente que não considera existir uma “Igreja patriótica” e uma “Igreja fiel”, mas duas comunidades que precisam caminhar para a reconciliação.

4. A Associação Patriótica Católica

A Associação Patriótica não é simplesmente outra Igreja Católica.

Ela é uma organização criada pelo Estado chinês para enquadrar a atividade católica dentro do sistema religioso oficialmente reconhecido.

Esse é justamente um dos pontos de tensão com Roma.

Para o governo chinês, organizações religiosas não devem funcionar como estruturas políticas estrangeiras independentes.

Para a Igreja Católica, entretanto, a comunhão com o papa e a autonomia da Igreja em assuntos propriamente religiosos não podem ser simplesmente subordinadas ao Estado.

Essa tensão explica boa parte dos conflitos históricos.

Atualmente, a Associação Patriótica continua sendo a estrutura oficial reconhecida pelo governo para o catolicismo. Relatórios sobre liberdade religiosa também registram que grupos católicos não vinculados a ela não possuem o mesmo reconhecimento jurídico.

5. A grande mudança de 2018

Em 22 de setembro de 2018, a Santa Sé e a República Popular da China assinaram um Acordo Provisório sobre a nomeação dos bispos.

Esse acordo foi extremamente controverso.

Ele não estabeleceu relações diplomáticas completas entre China e Vaticano, nem resolveu todos os problemas enfrentados pelos católicos chineses.

Seu foco principal foi a questão da nomeação dos bispos.

A Santa Sé considerou o acordo uma tentativa de reunificar as comunidades católicas e permitir que todos os bispos chineses estivessem em comunhão com o papa.

Em 2018, o papa Francisco também reconheceu e readmitiu na comunhão eclesial vários bispos oficiais anteriormente ordenados sem mandato papal.

6. Por que alguns católicos ficaram descontentes?

Aqui aparece uma das principais controvérsias contemporâneas.

Alguns católicos clandestinos haviam passado décadas sofrendo pressão das autoridades justamente por permanecerem fiéis ao Vaticano.

Quando Roma começou a buscar uma reconciliação com os bispos oficiais, alguns desses católicos sentiram que seus sacrifícios estavam sendo relativizados.

A crítica pode ser resumida assim:

“Por que aqueles que permaneceram fiéis durante décadas deveriam agora submeter-se à estrutura que anteriormente os perseguia?”

A Santa Sé respondeu que o objetivo não era transformar a comunidade subterrânea em uma comunidade subordinada ao governo, mas reconstruir a unidade da Igreja.

Em 2019, o Vaticano chegou a publicar orientações afirmando que a liberdade de consciência deveria ser respeitada e que ninguém deveria ser obrigado a dar uma assinatura ou tomar uma decisão contrária à própria consciência.

7. O acordo não encerrou a perseguição ou os conflitos

É importante não interpretar o acordo de 2018 como se a questão tivesse sido resolvida.

O acordo é provisório e trata principalmente da nomeação de bispos.

Em outubro de 2024, Santa Sé e China o renovaram por mais quatro anos. O Vaticano afirmou que o acordo havia produzido resultados positivos, especialmente no processo de nomeação e reconhecimento dos bispos.

Ao mesmo tempo, continuam existindo controvérsias sobre a liberdade religiosa, o controle estatal das comunidades e a situação de grupos que não aceitam participar das estruturas oficiais.

Por isso, existem duas avaliações muito diferentes do acordo.

Visão favorável

Para o Vaticano, o acordo pode ser uma ferramenta diplomática e pastoral para:

Visão crítica

Críticos argumentam que:

Essa segunda perspectiva aparece tanto entre críticos políticos do acordo quanto entre alguns católicos tradicionalistas.

8. E onde entra o sedevacantismo?

Aqui é necessário fazer uma distinção importante.

Não há evidência sólida de que exista na China continental uma grande estrutura sedevacantista organizada e comparável à Igreja Católica oficial ou às comunidades subterrâneas.

O sedevacantismo é uma corrente tradicionalista que sustenta que a Sé de Pedro está atualmente vacante, isto é, que os ocupantes reconhecidos como papas desde determinado ponto da história não seriam verdadeiros papas.

Essa posição é diferente da posição dos católicos subterrâneos chineses.

Um católico subterrâneo pode:

Isso não o torna sedevacantista.

9. O que diferencia um católico subterrâneo de um sedevacantista?

Essa diferença é fundamental:

Católico subterrâneo:

“Reconheço o papa e a Igreja Católica, mas não aceito que o Estado controle a organização da minha Igreja.”

Católico tradicionalista:

“Reconheço a autoridade do papa, mas considero que determinados ensinamentos, reformas ou práticas posteriores ao Concílio Vaticano II são problemáticos.”

Sedevacantista:

“Os ocupantes atuais da Sé de Pedro não são verdadeiros papas; portanto, a Sé está vacante.”

São posições completamente diferentes.

10. Por que o sedevacantismo pode encontrar dificuldades especiais na China?

O sedevacantismo exige uma estrutura própria de formação, circulação de clero, publicação de textos, comunidades e comunicação.

Na China continental, organizações religiosas independentes enfrentam restrições muito maiores do que em países onde grupos religiosos podem se organizar livremente.

Por isso, seria errado simplesmente presumir que existe uma grande “Igreja sedevacantista chinesa” escondida dentro da Igreja subterrânea.

A existência de indivíduos ou pequenos grupos que adotem posições sedevacantistas é uma questão diferente da existência de uma estrutura eclesial significativa.

Até onde as fontes confiáveis consultadas permitem afirmar, não encontrei evidência suficiente para tratar o sedevacantismo como uma corrente organizada e relevante numericamente dentro do catolicismo chinês.

11. A posição de Bento XVI é especialmente importante

Bento XVI publicou, em 2007, uma Carta aos Católicos Chineses que se tornou um dos documentos fundamentais para compreender a situação.

Um ponto particularmente interessante é que ele não simplesmente condenou todos os católicos ligados às estruturas oficiais.

A Santa Sé reconhecia que havia pessoas em situações extremamente complexas e que algumas decisões precisavam ser avaliadas levando em conta as circunstâncias concretas.

Posteriormente, o Vaticano continuou defendendo a necessidade de reconciliação entre as duas comunidades.

Essa posição é importante porque demonstra que a política da Santa Sé não era simplesmente:

“subterrâneos = bons”

e

“oficiais = maus”.

A questão é muito mais complexa.

12. A frase de Sônia Bridi precisa ser contextualizada

Quando Sônia afirma que os católicos romanos “não falam com o governo, a não ser quando são presos e interrogados”, ela está descrevendo a realidade política que encontrou no período de sua reportagem.

Historicamente, isso ajuda a compreender a oposição entre comunidades clandestinas e estruturas oficiais.

Mas a situação mudou desde a publicação do livro.

O acordo de 2018 criou um canal institucional de diálogo entre Pequim e a Santa Sé e alterou significativamente a situação dos bispos.

Portanto, para estudar o livro, é importante separar:

O que Sônia observou naquele momento

de

o que aconteceu posteriormente.

13. Uma questão ainda mais profunda: patriotismo e catolicismo

Existe uma tensão conceitual interessante.

O Estado chinês exige que as organizações religiosas sejam leais ao país e atuem dentro da estrutura política estabelecida.

A Igreja Católica afirma que um católico pode ser plenamente patriota, mas que sua comunhão religiosa universal não pode ser reduzida à autoridade de um governo nacional.

O Vaticano tentou justamente construir uma fórmula que permitisse às duas coisas coexistirem.

Em 2019, por exemplo, a Santa Sé afirmou que o “patriotismo” não deveria significar controle ou fechamento, mas amor ao próprio país e respeito ao bem comum.

Esse é um dos pontos centrais da questão chinesa.

14. A grande controvérsia do catolicismo chinês

Podemos organizar toda a questão em quatro posições principais:

Questão Pequim Vaticano Católicos subterrâneos
Autoridade política Estado soberano Respeitar o Estado Aceitam o Estado, mas resistem ao controle religioso
Papa Autoridade estrangeira em questão sensível Sucessor de Pedro Reconhecido
Bispos Devem ser reconhecidos pelo sistema chinês Devem estar em comunhão com Roma Tradicionalmente ligados a Roma
Associação Patriótica Estrutura oficial Pode participar, mas sem negar a comunhão com Roma  
Igreja subterrânea Não oficial Parte da única Igreja chinesa Sua própria comunidade
Acordo de 2018 Instrumento de diálogo Instrumento de unidade Recebido de formas diversas

15. Referências complementares

Vatican News - Acordo Provisório Santa Sé-China

Explica a assinatura do acordo de 2018 e seu objetivo principal: a nomeação dos bispos.

Vatican News - China e os bispos

Excelente para entender historicamente a divisão entre comunidades oficiais e subterrâneas e a questão da nomeação episcopal.

Vatican News - Cardeal Filoni e a situação da Igreja subterrânea

É particularmente importante porque apresenta a interpretação oficial da Santa Sé sobre a reconciliação entre as duas comunidades.

Vatican News - Orientações sobre liberdade de consciência

Mostra que o próprio Vaticano reconhecia que a implementação do acordo criava dilemas concretos de consciência para o clero chinês.

Council on Foreign Relations - Religion in China

Apresenta uma visão externa sobre a relação entre o Estado chinês, catolicismo, Associação Patriótica e Vaticano.

U.S. Department of State - International Religious Freedom

Útil para uma perspectiva crítica sobre o controle estatal das organizações religiosas e a situação de grupos não registrados.

16. Para o estudo de Laowai

O mais interessante é perceber que o trecho de Sônia Bridi está inserido em uma questão muito maior.

A história pode ser resumida assim:

1949 - Revolução Comunista

↓

1951 - ruptura das relações diplomáticas com o Vaticano

↓

1957 - criação da Associação Patriótica Católica

↓

décadas de divisão entre comunidades oficiais e subterrâneas

↓

bispos nomeados sem aprovação papal

↓

2018 - Acordo Provisório entre China e Santa Sé

↓

reconciliação de vários bispos oficiais com Roma

↓

2020 e 2022 - renovações do acordo

↓

2024 - nova extensão por quatro anos

↓

situação atual: aproximação diplomática, mas persistência de fortes restrições e controvérsias.

O ponto mais importante é não confundir catolicismo subterrâneo com sedevacantismo. O primeiro é principalmente uma condição institucional e política de comunidades católicas que permanecem fora das estruturas religiosas oficiais; o segundo é uma posição teológica segundo a qual a Sé de Pedro está atualmente vacante.

Essa distinção ajuda bastante a compreender por que a história do catolicismo chinês é tão controversa: existe simultaneamente uma disputa sobre liberdade religiosa, uma disputa sobre soberania estatal, uma disputa sobre autoridade episcopal e, em alguns grupos, uma disputa propriamente teológica sobre o papado.


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Incentivo laboral e exercícios, visita ao condomínio de Sheryl, conhecer parque de lá,. perto do Parque Chaoyang, incidente com rapaz deficiente (briga)

Conflito no condomínio: cerca de 30 pessoas cercam Sônia, Sheryl, Li e Paulo, acusando-os de agredir um deficiente e ameaçando quebrar a câmera. Sheryl é empurrada e xingada, sendo chamada de traidora da pátria por ajudar os laowais. Sônia liga para a emergência da embaixada e tenta acalmar a multidão, oferecendo reparação por qualquer dano. Li e Paulo protegem estrategicamente a câmera.

Sheryl relembra outro caso contado por uma funcionária da embaixada: ela e uma amiga americana foram agredidas por uma multidão após protestarem contra um taxista que tentava aplicar um golpe no taxímetro. Mesmo machucadas, foram levadas à delegacia e coagidas a indenizar o motorista.

Sônia interpreta esses episódios como manifestação de uma revolta reprimida: a falta de liberdade de expressão e a repressão acumulam tensão, que pode ser liberada coletivamente contra estrangeiros. O nacionalismo facilita isso, pois as manifestações contra laowais não são vistas como oposição ao governo. Séculos de ocupação, atrocidades japonesas e a propaganda nacionalista da Revolução Cultural alimentam o ressentimento contra estrangeiros.

A geração da Revolução Cultural sente-se injustiçada: denunciou os próprios pais, maltratou professores, abandonou escolas e rompeu tradições. Como professores foram enviados ao campo e universidades fechadas, muitos ficaram com pouca educação e, mais velhos, não desfrutam dos maiores benefícios do crescimento econômico. Ressentem-se das reformas e do sucesso das novas gerações.

A mãe do deficiente segura o braço de Sônia com tanta força que deixa hematomas. Seguranças do condomínio não conseguem conter a multidão. A polícia chega após acionamento da embaixada, ouve moradores e a versão dos jornalistas. Um testemunho confirma que o rapaz é deficiente. O oficial manda todos seguirem para a delegacia e adverte os moradores de que novos conflitos serão punidos.

A cerca de 1 km do condomínio, a polícia para o carro, oficial pede desculpas.

Explica que aquela foi a melhor forma de retirar os estrangeiros sem provocar um confronto entre a polícia e os moradores. Pede que não tenham uma imagem ruim da China e afirma que ainda há muita gente ignorante no país. Sônia se comove com as palavras e conclui que, como o Brasil, a China é cheia de problemas, contrastes e diferentes tipos de pessoas.

Depois do episódio, Sônia passa a andar menos despreocupada pelas ruas. Eric, seu cabeleireiro francês de Marselha e dono de uma grande rede de salões de luxo na China, também sofreu violência. Após uma discussão com o dono de um carro que havia atingido, foi espancado por uma multidão e ficou com a clavícula e o braço quebrados, meses sem trabalhar com tesouras.

Em 2005, o governo chinês reconheceu 70 mil manifestações públicas com 100 ou mais participantes, mas incidentes como o de Eric não entram nas estatísticas.

Acidente de trânsito: Sônia está com Pedrinho quando um táxi bate em seu carro. O passageiro dinamarquês, morador de Pequim, fica ao lado dela e diz:

- Só saio daqui quando você estiver segura.

Sônia acalma Pedrinho, chama Paulo e pede a Sheryl que acione polícia e seguradora. O taxista exige dinheiro:

- Ni gei wo tian! (Me dê dinheiro, me pague pelo estrago).

Sônia finge concordar até a chegada da ajuda. O taxista se decepciona ao saber que ela possui seguro e que a seguradora chinesa cuidará do caso.

Pelas regras de trânsito, o taxista tinha razão, pois quem segue reto tem preferência sobre quem vira à esquerda. Porém, segundo a prática local, quem vira deve reduzir. O dinamarquês acredita que o taxista acelerou de propósito ao perceber que havia um estrangeiro dirigindo, tentando conseguir dinheiro. Sônia observa que, sem a cadeira apropriada e o cinto de três pontos, Pedrinho poderia ter se machucado seriamente.

Na medicina chinesa, acredita-se que aquilo que incomoda o organismo deve ser expelido. Por isso, cuspir, arrotar e soltar gases em público são considerados naturais e normais. Para os laowais, porém, isso é uma grande fonte de desconforto, especialmente em voos domésticos lotados, com pessoas muito próximas e uma constante “trilha sonora” de arrotos, escarros e puns.

A campanha não pretende eliminar as cuspidas, mas discipliná-las: o cidadão deve cuspir em um papel e jogá-lo no lixo. Mesmo assim, o risco de ser atingido por uma cuspida permanece, como quando Sônia, andando de bicicleta, quase foi atingida pela secreção lançada da garganta de um motorista.

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Medicina tradicional chinesa, ajuda reportagens com doutor Ahmed (embaixada), ele explica, entendimento da filosofia chinesa. Único estrangeiro da Academia de Filosofia da China, base no Livro do Imperador Amarelo

O imperador amarelo, Huangdi, teria sido o primeiro grande imperador da China, viveu no século XXVII antes de Cristo, e é considerado o ancestral de todo o povo Han, a maioria étnica chinesa.

Obcecado com saúde, teria ajudado seu médico a compilar todo o conhecimento sobre medicina da época. O livro é referência até hoje. Huangdi teria vivido 100 anos e depois, segundo a lenda, alcançado a imortalidade. Dois mil depois, o Confucionismo o elevou ao posto de divindade.

Reportagem em Jiangsu, próximo ao delta do rio, Malu Guimarães produtora do Globo Repórter, conjunto de vilas abaixo do delta (similar a Veneza), restrições para reportagem, seguem para Tong Li, hotéis e culinária (arroz preto)

Jian - mestre paisagista, metáfora usada para definir a capacidade de planejamento e visão de longo prazo dos chineses.

Corpo humano universo em miniatura, seguimento de movimentos orbitais, QI fluir sem interrupções

…fluxo de energia circula por canais meridianos, cada um relacionado a um dos 5 órgãos reconhecidos pela medicina tradicional chinesa. Neles estão mapeados cerca de 2 mil pontos de acupuntura, utilizam no máximo 150…


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Os 5 órgãos da Medicina Tradicional Chinesa

No trecho de Laowai, Sônia Bridi apresenta uma ideia central da Medicina Tradicional Chinesa (MTC): o corpo seria atravessado por canais, chamados meridianos, pelos quais circularia o qi (氣), geralmente traduzido como “energia vital”.

Há, porém, uma precisão importante para o estudo: na MTC, os cinco órgãos citados não são simplesmente os cinco órgãos anatômicos mais importantes do corpo. Eles fazem parte do sistema chamado Wuzang, ou Cinco Zang: Coração, Fígado, Baço, Pulmão e Rim.

Essa classificação pertence à teoria tradicional chinesa e não corresponde diretamente à anatomia e à fisiologia da medicina moderna. O “qi”, por exemplo, é um conceito tradicional e não uma substância ou energia que tenha sido demonstrada pela anatomia moderna.

1. Os cinco Zang

Zang Chinês Pinyin Elemento Correspondência tradicional
Coração 心 Xīn Fogo sangue, vasos, espírito (shen)
Fígado 肝 Gān Madeira tendões, fluxo do qi, armazenamento do sangue
Baço 脾 Pí Terra transformação dos alimentos, músculos
Pulmão 肺 Fèi Metal respiração, qi, pele
Rim 腎 Shèn Água essência (jing), ossos, crescimento e reprodução

Essas relações aparecem em textos clássicos associados ao Huangdi Neijing, o chamado Clássico Interno do Imperador Amarelo. O texto relaciona, por exemplo, o Coração aos vasos, o Fígado aos tendões, o Pulmão à pele, o Baço à carne e o Rim aos ossos.

É importante não interpretar isso literalmente como se a medicina chinesa estivesse dizendo que o fígado anatômico controla mecanicamente todos os tendões. Trata-se de um sistema médico tradicional que organiza funções do organismo por meio de relações entre órgãos, substâncias, emoções, estações, sabores e outros aspectos.


2. Coração - 心 (Xīn)

Na MTC, o Coração é considerado o principal dos cinco Zang.

Ele está relacionado ao Fogo e, tradicionalmente, aos vasos sanguíneos, à circulação do sangue e ao shen, frequentemente traduzido como “espírito” ou “mente”.

O Huangdi Neijing afirma que o Coração “armazena o shen” e que governa os vasos.

Na correspondência tradicional:

Essas associações fazem parte da cosmologia médica tradicional e não devem ser confundidas com afirmações da cardiologia moderna.


3. Fígado - 肝 (Gān)

O Fígado está relacionado ao elemento Madeira.

Na teoria tradicional, ele participa da regulação do fluxo do qi e está associado ao armazenamento do sangue.

Também é relacionado aos tendões, às unhas e aos olhos.

O Huangdi Neijing estabelece explicitamente relações entre Fígado, tendões, unhas e olhos.

Suas principais correspondências tradicionais são:

Aqui aparece uma das maiores diferenças entre a MTC e a medicina moderna: “Fígado” na MTC é uma categoria funcional muito mais ampla do que o órgão anatômico chamado fígado.


4. Baço - 脾 (Pí)

O Baço está associado ao elemento Terra.

Na MTC, sua função tradicional está relacionada à transformação e ao transporte dos nutrientes provenientes dos alimentos.

Também está associado aos músculos, à boca e aos lábios.

O Huangdi Neijing relaciona o Baço à carne e à boca e estabelece o sabor doce como sua correspondência tradicional.

Suas correspondências tradicionais incluem:

Esse é um dos casos em que a tradução pode causar confusão.

O “Baço” da MTC não deve ser interpretado como se todas essas funções fossem exercidas pelo baço anatômico segundo a fisiologia moderna.


5. Pulmão - 肺 (Fèi)

O Pulmão está relacionado ao elemento Metal.

Na teoria tradicional, ele governa a respiração e está intimamente ligado ao qi.

Também possui relações com a pele e com o nariz.

O Huangdi Neijing relaciona o Pulmão à pele e ao pelo corporal e afirma que o qi do Pulmão se comunica com o nariz.

Suas correspondências tradicionais são:


6. Rim - 腎 (Shèn)

O Rim está associado ao elemento Água.

Na MTC, o Rim possui uma importância muito maior do que simplesmente representar o órgão responsável pela filtração do sangue na anatomia moderna.

Ele está relacionado ao jing, geralmente traduzido como “essência”, e ao crescimento, desenvolvimento e reprodução.

Também está relacionado aos ossos, à medula e aos ouvidos.

O Huangdi Neijing associa o Rim aos ossos e afirma que seu qi se comunica com os ouvidos.

Suas correspondências tradicionais incluem:


7. Os cinco elementos

Os cinco órgãos estão inseridos em outra estrutura fundamental da MTC: a teoria dos Cinco Elementos, ou Cinco Fases (Wuxing).

São eles:

Madeira → Fogo → Terra → Metal → Água

E suas correspondências principais são:

Fígado → Coração → Baço → Pulmão → Rim

A ideia não é que esses elementos sejam substâncias físicas encontradas dentro do corpo.

Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água são categorias utilizadas para explicar transformações e relações existentes na natureza e no organismo segundo a cosmologia tradicional chinesa.

A própria documentação da Organização Mundial da Saúde sobre medicina tradicional chinesa descreve os cinco elementos como Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água e os coloca em relação com os cinco Zang.


8. Os cinco não são os únicos órgãos da MTC

Esse detalhe é fundamental para entender a frase do livro.

A MTC divide os órgãos internos principalmente em:

Cinco Zang:

E Seis Fu:

A OMS apresenta justamente essa divisão entre os cinco Zang e os seis Fu.


9. E os meridianos?

Aqui está uma das partes mais interessantes do trecho.

Os meridianos são chamados em chinês de jingmai e fazem parte de uma rede tradicional de canais e ramificações.

Na concepção clássica, eles conectam diferentes regiões do corpo e estão relacionados à circulação de qi e sangue.

O sistema clássico que chegou à medicina chinesa moderna possui 12 meridianos principais, associados aos sistemas Zang-Fu.

São eles:

  1. Pulmão;

  2. Intestino Grosso;

  3. Estômago;

  4. Baço;

  5. Coração;

  6. Intestino Delgado;

  7. Bexiga;

  8. Rim;

  9. Pericárdio;

  10. Triplo Aquecedor;

  11. Vesícula Biliar;

  12. Fígado.

Além deles, existem os dois vasos extraordinários mais importantes:

A nomenclatura internacional da OMS padronizou os 12 meridianos principais e os 361 pontos clássicos associados ao sistema principal.


10. Uma correção importante sobre os “2 mil pontos”

Aqui vale fazer uma distinção em relação ao texto de Sônia Bridi.

A afirmação de que existem “2 mil pontos de acupuntura” não corresponde ao número do sistema clássico padronizado internacionalmente.

A OMS padronizou 361 pontos clássicos de acupuntura.

Desses:

Além dos 361 pontos principais, existem pontos extras, pontos de diferentes sistemas, pontos auriculares, pontos do couro cabeludo e outras classificações.

Por isso, dependendo do sistema utilizado, podem aparecer números muito maiores.

A própria literatura histórica mostra que a quantidade e a localização dos pontos variaram ao longo dos séculos. A padronização internacional procurou resolver justamente essas diferenças.

Assim, para estudar o livro, eu anotaria:

Livro: aproximadamente 2.000 pontos mapeados.

Sistema clássico padronizado pela OMS: 361 pontos.

Essa diferença é importante porque evita transformar uma estimativa ampla em um número oficial.


11. De onde veio essa teoria?

A história é ainda mais antiga e interessante.

Um dos documentos fundamentais é o Huangdi Neijing, o “Clássico Interno do Imperador Amarelo”.

Apesar de tradicionalmente atribuído ao lendário Imperador Amarelo, não é considerado hoje obra de um único autor histórico. Trata-se de uma coleção de textos formada e modificada ao longo do tempo.

Sua formação é geralmente relacionada ao período anterior e inicial da China imperial, especialmente aos séculos próximos ao final do período dos Reinos Combatentes e à dinastia Han.

O texto apresenta teorias sobre:

É uma das principais fontes clássicas da medicina chinesa.


12. Mawangdui: uma descoberta ainda mais fascinante

Em 1973, foram estudados manuscritos médicos encontrados nas tumbas de Mawangdui, em Changsha.

Esses documentos estavam associados a uma tumba selada em 168 a.C.

Eles são especialmente importantes porque apresentam sistemas de canais anteriores ao sistema clássico dos 12 meridianos.

Os manuscritos descrevem 11 canais, e não os 12 encontrados posteriormente no Huangdi Neijing.

E há outro detalhe surpreendente:

os textos de Mawangdui relacionados aos canais tratavam principalmente de moxabustão e não apresentavam os pontos de acupuntura da maneira como eles aparecem no sistema posterior.

Isso significa que o sistema de meridianos não apareceu pronto.

Ele foi sendo desenvolvido e transformado durante séculos.


13. Uma possível evolução histórica

Podemos visualizar a evolução aproximadamente assim:

Séculos anteriores à era cristã

→ desenvolvimento de conceitos de qi, yin-yang e canais.

↓

Mawangdui - século II a.C.

→ manuscritos com 11 canais.

↓

Huangdi Neijing

→ desenvolvimento de um sistema mais complexo de 12 meridianos, órgãos Zang-Fu e acupuntura.

↓

Séculos posteriores

→ expansão da teoria, inclusão de novos pontos, vasos e sistemas.

↓

Séculos XIX–XX

→ contato cada vez maior com a medicina ocidental.

↓

Século XX

→ reorganização e padronização da acupuntura na China e posteriormente em outros países.

↓

1980–2008

→ esforços internacionais de padronização da nomenclatura e localização dos pontos.

↓

Sistema moderno padronizado

→ 361 pontos clássicos.

A própria OMS registra que houve um longo processo internacional de padronização porque os mesmos pontos tinham diferentes nomes e localizações em diferentes tradições.


14. O que significa “energia”?

Esse é provavelmente o ponto que mais pode gerar confusão.

Quando o livro fala em “fluxo de energia”, está traduzindo o conceito de qi.

Na cosmologia médica chinesa tradicional, o qi é uma categoria fundamental para explicar os processos vitais.

Mas é importante escrever no estudo:

Qi não é equivalente a uma forma de energia física comprovada pela fisiologia moderna.

Da mesma maneira, os meridianos da MTC não correspondem simplesmente a veias, artérias, nervos ou vasos linfáticos identificados pela anatomia moderna.

Há pesquisas tentando investigar possíveis correlações anatômicas ou fisiológicas, mas a própria história dos meridianos mostra que seu conceito mudou ao longo dos séculos. Não existe consenso científico de que os meridianos sejam estruturas anatômicas equivalentes às descritas nos manuais tradicionais.


15. Uma curiosidade histórica muito interessante

Os manuscritos de Mawangdui mostram que a própria ideia de “meridiano” não era fixa.

O sistema antigo tinha 11 canais.

O sistema que posteriormente se tornou dominante passou a ter 12.

Além disso, os antigos canais não eram necessariamente entendidos como “tubos invisíveis de energia” exatamente da maneira como algumas representações modernas apresentam.

A palavra chinesa mai (脈) possui uma história semântica relacionada a vasos, pulsação e canais.

Por isso, historiadores da medicina procuram reconstruir como o conceito foi se transformando ao longo dos séculos.

Isso torna a história muito mais interessante do que a ideia de que os chineses simplesmente “descobriram 2 mil pontos” de uma só vez.


16. Imagem dos cinco órgãos

A imagem abaixo ajuda a visualizar os cinco Zang - Coração, Fígado, Baço, Pulmão e Rim - no corpo humano.

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Doutora Bai, Hospital Sino Japonês, leito cheio, estudantes em volta, técnica do guaxá (raspagem nas costas), pacientes, hérnia, ovários e velho pós avc

Consulta com Doutor Ahmed, 2 sessões, agulha XG no joelho, tratamento lombar

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Estudantes brasileiros no mesmo hospital, Rodrigo Ito e Karina Caligaris

Mistura da farmacologia com ingredientes da medicina chinesa, experiência com seu marido Paulo, alergia por conta da hepatite A no tempo de cobertura dos Contras na Nicarágua, Doutor Ahmed receita medicação natural (pó a diluir). 3 semanas, curado.

Cultura da farmácia, médicos atendem nesse local

Universidade de Pequim, pesquisador Chang Zhangfu, medicina chinesa, ocidentalização

…Chang Zhangfu parece sentir nos ombros o peso da responsabilidade de testar remédios chineses pelo método ocidental. Primeiro, de­ termina a composição química dos chás feitos pelas fórmulas. Depois, conduz o teste cego. Ou seja, um grupo de pacientes recebe a fórmula, outro, placebo, enfim, como se testam remédios no resto do mundo…

tp-beleza-oriental

Pó de pérola, envenenamento com chumbo, doutoura Yi, referência em tratamento estético feminino, premissa sol como agressor a pele, acupuntura

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Cultura de alimentação correlacionado a saúde

…Na China, a alimentação é associada à saúde, inclusive em restaurantes que servem comida como remédio. Em Hangzhou, cidade de forte tradição cultural, fica o restaurante medicinal mais antigo do país, em frente a uma farmácia com 400 anos.

Antiga capital e centro intelectual, Hangzhou preserva universidades, tradições e a beleza do Lago Oeste. A paisagem reúne pontes, pagodes, lótus e salgueiros. Entre os principais pontos turísticos estão os “10 prospectos do Lago Oeste”, que terminam no Pagode das Seis Harmonias, mantendo o requinte arquitetônico tradicional…

…No restaurante medicinal, o chef escolhe entre 150 pratos quentes e 14 frios e explica seus efeitos. O arroz dos oito tesouros, com arroz preto, carne, ervas e fruta-do-lobo, é usado para restaurar o fluxo do Qi.

Para combater o medo, há um preparado de ervas, toucinho e conservas coberto com folha de ouro 24 quilates, relacionada ao uso de minerais como remédios. Na medicina chinesa, emoções e órgãos estão ligados: a raiva, por exemplo, afeta o fígado, enquanto doenças também alteram as emoções.

Para a potência masculina, o prato “dragão sob o céu enluarado” leva um ovo com um cavalo-marinho. Paulo experimenta, apesar do aviso do chef, e considera o prato o mais nojento sob o céu enluarado…

tp-massagem-terapia-e-prazer

Tradição na massagem, inclusive para medicime e obstetrícia, cegos ocupam tal posição, tabu chinês

Reflexologia, pontos do pé influência no organismo

tp-o-cha-a-agua

Costume de beber água quente, motivos sanitários

…A água quente também ajudaria no funcionamento do intestino e laxantes são outra obsessão da medicina tradicional chinesa, seguindo a filosofia de varrer para fora tudo o que é estranho ao corpo.

“É preciso dar água ao rio para o barco navegar”, ensina o ditado chinês…

…Visita mercado de chá de Pequim, Chá de Yunnan prensado, cheiro e aspecto de esterco. Há chás de botões de rosas, crisântemo com açúcar e jasmim, com muitas subdivisões. O jasmim comum mistura folhas ao chá verde; em ocasiões especiais, prepara-se um botão na água quente e, quando ele se abre, o chá está pronto.

O mais delicioso é o woolong, ou iron budha, ou chá vermelho:

1kg de boa qualidade pode custar 500 dólares.

Em Hangzhou, visitam as plantações do longjing, o chá do poço do dragão. Poço famoso é lenda com muitas cópias; na verdade, a água e o clima da região, frio no inverno e quente e úmido no verão, favorecem a planta…

Senhor Zhu e a tradição de família com o chá longjing, vila próspera, pousadas, sopa de pato

Sonia e sua experiência com o tofu chinês, compara ao Tietê mas adora roquefort, já Jayme Martins o contrário

Situação em 2005 junto da empreendedora de jóias Linda Li, não conseguiu comer o tofu. Isso em 2005 durante reportagem para o Globo Repórter

c16-uma-chinesa-em-casa

Fafá e o português de Macau no canal RTP, Fafá voltará ao Brasil, contratam Wang Hua, do interior para apoio até a sobrinha de Sonia chegar a China, esta ficará com seu filho Pedro e estudará chinês

Wang Hua, 32 anos, mãe de 1 filho diz ter 7 anos. O menino ficou na vila da província do Anhui, com avós paternos, como manda a tradição.

Em Pequim, Wang Hua mora num quartinho com o marido, operário construção civil.

Por trabalhar em Pequim, Wang só vê o filho 1 vez por ano, no Ano Novo chinês

Equipe surpresa com férias de 20-12 a 25-01, felizes por terem tempo para outras atividades

…Wang não se abre facilmente. É preciso muito esforço para saber um pouco mais sobre ela. O marido é da mesma vila, onde vive também toda a família dela. O irmão mais velho sofre muito porque só tem uma filha mulher.

- Ele morre de vergonha a cada vez que sai à rua - revela Wang, sem disfarçar o dó que tem do irmão. Ele e a mulher não podem nem tentar um menino, mesmo tendo o direito por serem da área rural.

- Meu irmão é líder do Partido Comunista local e tem de dar o exemplo. Tento argumentar que uma filha mulher não é uma desgraça - meus pais tiveram 6 (e 2 homens) e sobreviveram.

Wang não cede:

- Muito ruim, muito ruim. Muita vergonha. Anhui é a província com o maior desequilíbrio entre o número de homens e de mulheres nascidos 124 meninos para cada 100 meninas.

Isso significa que é a província com o maior número de abortos seletivos. Ao saber que espera uma menina, a mãe faz aborto, que é permitido a qualquer momento da gravidez. O infanticídio também é muito alto. É grande o número de meninas que são mortas ao nascer. O governo proíbe os médicos de revelarem o sexo do bebê ao fazer ultrassom, mas nunca se ouviu falar que alguém tenha sido punido por descumprir a ordem.

Tomamos conhecimento de que o filho da Wang só tem 1 ano a mais que o Pedro, não 3. O cálculo no interior da China é diferente. A criança nasce já com 1 ano, porque conta a idade desde a concepção. E no primeiro Ano-novo chinês, passa a ter 2 anos, mesmo que tenha apenas 1 mês de idade, como era o caso do pequeno Wang…

Chico Pinheiro e José Luís Chiarelli (Chia), vão passar um tempo por lá.

Cultura da vergonha, Pequim baixo índice de crimes, porte de arma restrito por motivações políticas. Busca de dinheiro no Banco da China com bicicleta

- Hei, eu tô cheio da grana! Venham me assaltar!

Perplexos, os populares assistem à exibição do laowai doido berrando numa língua estranha e dão gargalhadas. Certamente teriam a mesma reação se ele estivesse gritando em chinês. Na China, qualquer um pode esperar ser induzido a entregar seu capital por livre e espontânea vontade, em golpes comerciais.

Mas não ser assaltado. Um vendedor pode argumentar durante 1 hora para que alguém pague mais pela mercadoria que ele está oferecendo. Mas acertado o preço, o troco sempre está certo…

Conta o caso da indústria têxtil (calçado) em Dongguan, brasileiros do sul na região. Outro caso, a incorporação de pilotos comerciais das extintas brasileiras, Transbrasil, Vasp e Varig. Regiões Taiwan, Macau e Shenzhen

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Descreve Xangai como Blade Runner ou romance de Gibson

Grande densidade populacional (14 mi. na época), transformação de planejamento, 1990 a 2010, contexto histórico de Xangai e correlação com as políticas de Deng. Menciona a geração de riqueza e as 400 milhões de pessoas tiradas da pobreza

Cultura em Xangai, bilionário e educação ao filho, Wang Lili e a estética, frivolidade e pensamento feminino

Lado masculino, manter a linhagem

…No jargão laowai, ocidentais que só namoram chinesas são acusados de ter “febre amarela”. Casais de chinês com ocidental são raros, pois homens chineses seriam mais conservadores e preocupados com a linhagem familiar e a obediência da esposa à sogra.

A prosperidade também teria favorecido o retorno discreto das concubinas, agora como amantes de homens poderosos. Sônia cita a lenda de que dirigentes comunistas reservavam dois quartos de hotel durante reuniões nacionais: um para a esposa e outro para a amante, ressalvando que é exagero generalizar…

Comentários de Qingdao e de Tianjing, exporta mais que o estado de São Paulo, concorrência entre províncias para aumento de influência no partido

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Visita a província Jiangsu, energia, carvão e nuclear, garantia de visitação, burocracia, efetivação da reportagem

Novos colegas de imprensa, France 2, Philippe Rochot e Sylvain Giaume

Usina de Lianyungang, tecnologia russa, sistemas de segurança, fazem questão de mostrar, para assegurar ao mundo que não estão reproduzindo uma nova Chernobyl.

Visita não saí como esperado, sem reportagem, motivação, outro incidente, constrangimento troca de roupa íntima na visitação

Suqian, pronuncia-se “sutiã” (cidade)

…Com o fim do ano, Sônia e a equipe se preparam para as férias no Brasil, mas antes precisam renovar os vistos. Na Imigração, o oficial acusa os laowais de viverem ilegalmente como casados e manda que se casem na embaixada.

Sônia reage com elogios, afirma que a legislação chinesa deixa aos estrangeiros seguir os costumes de seus países, caso não cometam crimes. O oficial hesita e, convencido pelos elogios, concede os vistos sem exigir casamento.

Ao contar o episódio ao embaixador Castro Neves, ele brinca e propõe realizar a cerimônia de casamento no jardim da embaixada…

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Voltam ao Brasil para férias depois retornam a Pequim, mudanças onde moravam, sobrinha presente

…- Nihao! - e um complemento: - Qin sung shui bei bi ar lin san.

E que ninguém me faça uma pergunta, porque só consigo repetir lentamente a frase acima, que quer dizer: “Por favor, traga água para o prédio Norte B, apartamento 203”. Depois de um tempo, o rapazote atendia o telefone, e quando eu começava a falar, ele já interrompia:

- Ah, ahá, laowai! - poucos minutos de­pois, batia à porta. Já estávamos íntimos, e ele se foi…

Ajuste da internet, legislação, ADSL, técnico James Tsao, consegue linha pós paga, porém ligações fora do fuso

Fim ano do galo, começo ano do cachorro, fogos de artifício

tp-abaixo-de-zero

Atividades no gelo com o filho e marido, festival de Gelo de Harbin, [Manchúria] (https://pt.wikipedia.org/wiki/Manch%C3%BAria) Harbin cidade, capital da província de Heilongjiang,

Proximidade de Vladivostok, reportagem, nativa com roupa leve

Desastre ecológico do rio Songhua, 13-11-2005

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Viagem ao Japão, pessoalmente mede o progresso do país em como é sofisticado o banheiro do aeroporto

…Logo ao aterrissar, quem vem de Pequim, por exemplo, pode iniciar uma análise sobre as diferenças abissais entre as duas culturas. Sempre brinco que o banheiro de um aeroporto é a melhor medida do nível de desenvolvimento de um país.

Quanto mais desenvolvido, mais limpo, mais confortável, as portas fecham direito, há ganchos para pendurar a bolsa ou o casaco, espaço para a mala de mão.

Nessa escala, o Japão é líder isolado. Está um século à frente do segundo colocado - a Escandinávia…

…Nos banheiros japoneses encontra-se também uma cadeirinha para sentar um bebê enquanto a mãe estiver utilizando o toalete, além de trocadores de fraldas e apoiadores para que os mais velhos se equilibrem. Os japoneses preferem a privada que se usa de cócoras, mas em todo banheiro há na porta o desenho do tipo de sanitário para que o usuário escolha.

A instalação hidráulica é feita de maneira que nenhum banheiro cheire mal. E que vasos sanitários os japoneses fazem! Eles desenvolveram toda uma tecnologia para os momentos no banheiro. Ao se acomodarem no assento aquecido e autolimpante, os desavisados devem se assustar com o painel de controle cheio de botões. Um desses botões aciona um chuveirinho dianteiro; outro, um traseiro.

Há água quente e fria. Alguns dispõem de creme e perfume…

Em 2 anos, Sônia faz 12 viagens ao Japão e percebe fortes diferenças sociais e culturais entre chineses e japoneses. Chineses mais barulhentos, expansivos e falam alto; japoneses são silenciosos, discretos, gentis e reverentes. Ambos evitam dizer “não” diretamente, mas os japoneses usam gestos e sorrisos para demonstrar a negativa.

Na aparência, chineses mantêm roupas mais simples e conservadoras, enquanto os japoneses valorizam elegância e combinações sofisticadas. As chinesas, após décadas do uniforme Mao, passam a usar cores, estampas e adornos de forma exuberante e kitsch. As japonesas preservam um estilo clássico, elegante e moderno, com quimonos, chapéus e sobreposições; entre as jovens, cabelos desalinhados e roupas ousadas inspiradas nos mangás.

Chinesas e japonesas compartilham um comportamento considerado infantilizado: falam como crianças, andam aos pulinhos, dão tapinhas e cobrem a boca ao rir. No Japão, existe ainda um culto cultural à juventude feminina, associada à sensualidade. Algumas colegiais encurtam as saias e frequentam bairros de Tóquio, onde trocam companhia e atenção a homens mais velhos por presentes de marca. Sônia compara essa prática a uma versão infantilizada do papel da gueixa.

Máquina de roupa íntima usada no Japão, caso da Dra. Shen, 50 anos médica em Pequim

…Ela me atende e, enquanto preenche um formulário para solicitar um exame, pergunta:

- Você ainda sente desejo sexual? E antes que eu diga qualquer coisa, a médica prossegue:

- É normal a mulher perder o desejo depois dos 40 anos. Mas não esqueça de fingir que gosta. Eu sei que é um sacrifício, mas é importante para o marido. Antigamente, a primeira mulher podia ajudar seu esposo a encontrar uma moça mais nova.

Hoje, eles acham sozinhos e não gostam que a gente saiba. Portanto, se você souber de alguma coisa, fique quieta…

Sinto imensa piedade por aquela mulher, tão bem-sucedida, tão talentosa, tão infeliz, com sua cabeça presa em outro tempo. Tento dizer que se uma mulher não tem desejo nem prazer, deve buscá-lo.

E, se o marido tem outra, ela que o mande às favas e procure um amor de verdade. Mas a doutora Shen levanta a cabeça e me olha como se não tivesse dito nada. Seu rosto mantém-se impassível. Pego a receita e vou embora, calada…

Jornalista japonesa Yuka Tanimoto, caso da princesa Masako

Relato de Sônia sobre o Japão, ajuda do paulistano da Saúde Mitsuo Kawasaki, produtor Dekassegui para a rede Globo.

Dekassegui - é o termo japonês para designar trabalhador temporário. É usado tanto para os brasileiros quanto para os agricultores japoneses que, durante o inverno, impossibili­ tados de trabalhar na lavoura, em­ pregam-se nas fábricas.

Controvérsia do templo xintoísta Yasukuni, crimes de guerra e relações internacionais com os vizinhos

tp-kurihama

Reformatório japonês, grande número de brasileiros, filhos crescem sem supervisão dos pais

Caso do Adelson BBrit

…é um negrão de 1,80 metro e não corre em suas veias uma única gota de sangue japonês. Esse grande diplomata informal das causas dos brasileiros nasceu na Bahia e descobriu que tinha um dom especial para aprender idiomas…

Discussão onde ser a base de cobertura jornalística, Japão ou China, Sonia e Paulo preferem a China, por conta da burocracia caso precise entrar no país

c21-o-afeto-reprimido

Voltam do Japão, crescimento do filho, Sra. Wang e sua sobrinha Graziella, abraço na Sra. Wang

Chineses pouco afetuosos (orientais em geral), influência da Revolução Cultural e costumes, em Pequim, irmãos Gao, Zhen e Qiang Gao, artistas contemporâneos, ateliê em Dashanzi, distrito 798, eles retratam muito a falta de afeto

Sonia se surpreende com seu filho Pedro de 4 anos que consegue traduzir chinês para português e confirma com Sheryl que a tradução está correta

Sra. Wang busca seu filho, vergonha de trazer a casa de Sonia, sogra apegada ao neto, nega levar a casa de um laowai

Qi gong - ginástica

Controvérsia com falongong

c22-deng-pufeng

Deng Pufang, filho de Deng Xiaoping, Pufang agredido durante o período maoista Universidade de Pequim, agressão e jogado do 4° andar, paraplégico

- O sonho é sempre bonito. A realidade, cruel.

O filho de Xiaoping, defensor dos deficientes e direitos humanos, seu pai sofreu repressão do período de Mao, voltou a política para fazer a reabertura, único erro foi a repressão de 1989 na Praça da Paz Celestial.

China esconde crianças deficientes, política de filho único

Clínica em Pequim de reabilitação, técnicas da medicina tradicional chinesa com as técnicas ocidentais, caso de reabilitação do garoto irlandês, Dr. Zhang

c23-novos-males-novas-curas

Viciados em internet, Dr. Wong, tratamento similar ao adotado para drogas, jovens perdem ano letivo, 3h no máximo uso de cyber café (lan house)

tp-celulas-tronco-cultura-e-etica

Dr. Huang, melhor médico da área genética na China, aborto permitido na China, uso de células olfativas que se transformam em outras (pode virar embrião), usam de bebês 7 meses

…o médico não se deixa angustiar por nenhum conflito moral

- Se não usar as células dos fetos, os abortos não deixarão de acontecer

afirma o doutor Huang… Apenas as células não serão aproveitadas em benefício de outros. “Os outros” já alcançam o número de 2 mil pacientes. A grande parte deles estrangeiros, que recebem o transplante para tratar lesão cerebral ou de medula.

Há uma ala só para os laowais. Conversamos com um italiano, um enfermeiro espanhol, um engenheiro inglês. Todos registram pequenas melhoras após o transplante. O espanhol, por exemplo, lembra que 2 dias depois de receber as células olfativas pôde deixar o respirador:

- Ainda não posso andar, mas respirar sozinho é uma melhoria incrível de qualidade de vida.

Quanto tempo irá durar essa sensação? É progressiva? O médico não sabe as respostas. Também tem poucos dados de acompanhamento de longo prazo dos pacientes. Mostra, no entanto, uma pilha de cartas de pacientes e famílias que agradecem pela chance de terem sido medicados. Uma equipe da BBC de Londres passou 1 mês acompanhando os pacientes do Dr. Huang e registrou o caso de uma inglesa que se levantou da cadeira de rodas e andou. Ela estava há 5 anos paralisada e, 5 dias depois do transplante, conseguiu se levantar…

c24-hostilidade-festiva-na-fronteira

Questão da Caxemira, Sonia visita a região, Amritsar, Punjab, reduto de Sikhs, usam sobrenome Singh, roteiro até Dharamsala, Himalaia, entrevista Dalai Lama, antes templo douradado dos sikhs e região de Wagah

Entrada no templo dourado, locais usam kirpan (punhal) na cintura, exploração do templo

Direção a fronteira, “cerimônia” de rivalidade

c25-O-exilio-do-dalai-lama

…Se eu soubesse recitar mantras budistas, estaria recitando. Eu me pego rezando o Pai Nosso, a Ave Maria, o Creio em Deus Pai, até o Ato de Contrição.

Tento me lembrar da nonna, minha avó Isabella, rezando o terço, e da rotina de orações que se seguem, uma colada na outra. Será que em suas preces ela lembrou de mim?

Será que con­ segue lembrar os nomes de 36 netos? Não anima pensar que, se houver alguém me ouvindo lá em cima, não vai me levar a sério - criada católica, ateia praticante…

200 km até o ponto no vale do Himalaia, comunidade Punjab indiana, vacas, esterco seco para calor, leite para proteína, degelo do Himalaia, água

Rodas de oração e sentido horário, tempo não volta

Pressão chinesa ao Brasil, visita do Dalai Lama, jornalista Isabel Raupp, correspondente em Nova Délhi, esposa de diplomata, apoio para entrevista com Dalai Lama

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Tibete, certa autonomia em justiça e governança

Crimes contra pessoas, justiça indiana, questões civis, conselho local. Desde 2001, o governo no exílio possui um parlamento eleito democraticamente, processo de democratização iniciado em 1961, rompendo com o antigo sistema feudal e a ditadura teológica do Tibete.

No Departamento de Astrologia, computadores para acelerar cálculos. Homens e mulheres trabalham juntos, direitos femininos ampliados, em contraste com o Tibete dos anos 1950, antes da invasão chinesa e do exílio do Dalai Lama.

Segundo a tradição tibetana, astrólogos e monges identificam a criança reencarnação do Dalai Lama. Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama, encontrado aos 2 anos, interior do Tibete. Aos 4, levado a Lhasa, educado pelos monges liderar a religião e também o país.

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Tibete, governo no exílio, astrologia e a escolha do Dalai Lama

O trecho de Sônia Bridi reúne quatro assuntos diferentes, mas relacionados: a organização da comunidade tibetana no exílio, a democratização dessa comunidade, a astrologia tradicional tibetana e a instituição do Dalai Lama.

Há também algumas informações que merecem atualização ou contextualização histórica.

1. O que aconteceu com o governo tibetano depois de 1959?

Depois da revolta tibetana de 1959 e da fuga do Dalai Lama para a Índia, foi estabelecida em Dharamsala uma administração tibetana no exílio, conhecida atualmente como Central Tibetan Administration (CTA).

Ela não é reconhecida como governo soberano do Tibete pela Índia ou pela maioria dos Estados como um governo nacional independente. Funciona, na prática, como uma administração da comunidade tibetana exilada.

Esse ponto é importante para entender a palavra “governo” usada no livro: trata-se de um governo em exílio, sem controle territorial sobre o Tibete.

A comunidade estabeleceu instituições legislativas, executivas e judiciais próprias.

2. A democratização começou antes de 2001

Sônia menciona 2001 como um marco da democratização. Isso está correto como um momento decisivo, mas o processo começou décadas antes.

Em 1960, foi criada a primeira Assembleia de Deputados do povo tibetano no exílio.

Em 1961, o Dalai Lama apresentou uma proposta de constituição democrática para um futuro Tibete.

Em 1963, foi promulgada uma constituição que introduziu reformas institucionais e começou a substituir práticas tradicionais por mecanismos democráticos. A própria administração tibetana registra a abolição de determinados títulos hereditários e privilégios tradicionais.

Em 1991, foi adotada a Carta dos Tibetanos no Exílio, estabelecendo uma estrutura mais claramente baseada na separação entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

Em 2001, ocorreu um passo importante: o chefe do Executivo da administração tibetana passou a ser eleito diretamente pelos tibetanos.

E em 2011, o Dalai Lama abriu mão de suas funções políticas e administrativas, transferindo a autoridade política para lideranças eleitas.

Portanto:

text 1960 → Assembleia de representantes ↓ 1961 → proposta de constituição democrática ↓ 1963 → constituição e reformas ↓ 1991 → Carta dos Tibetanos no Exílio ↓ 2001 → eleição direta do chefe do Executivo ↓ 2011 → transferência do poder político do Dalai Lama Essa sequência é importante porque mostra que 2001 não foi o início da democratização, mas uma etapa de um processo iniciado nos anos 1960.

3. Uma mudança histórica ainda mais profunda

A transformação de 2011 é particularmente importante.

Durante séculos, a instituição do Dalai Lama combinou autoridade religiosa e poder político no Tibete.

Em 2011, Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama, renunciou formalmente ao papel político que ainda mantinha dentro da administração tibetana no exílio.

A própria Carta foi alterada para transferir a autoridade política aos líderes eleitos.

Isso significa que a situação descrita no livro - em que o Dalai Lama era simultaneamente líder religioso e político - precisa ser distinguida da estrutura atual.

Hoje, o Dalai Lama continua sendo uma autoridade religiosa e simbólica de enorme importância para muitos tibetanos, mas não exerce mais o poder político formal da administração tibetana no exílio.


4. O antigo sistema tibetano era uma teocracia?

Aqui é necessário ter bastante cuidado com a terminologia.

Sônia utiliza a expressão “ditadura teológica” e caracteriza o antigo sistema como feudal.

Esses termos aparecem em diferentes interpretações da história tibetana, mas não são descrições neutras universalmente aceitas.

A sociedade tibetana anterior a 1959 possuía:

uma aristocracia hereditária;

grandes propriedades monásticas;

camponeses e trabalhadores vinculados a diferentes formas de obrigação;

instituições religiosas com grande poder;

autoridades locais;

uma estrutura política fortemente ligada às instituições budistas.

O Dalai Lama ocupava simultaneamente uma posição religiosa e política central.

A administração tibetana atual reconhece que havia títulos hereditários e privilégios que posteriormente foram abolidos durante a democratização no exílio.

Por outro lado, historiadores divergem sobre o quanto o termo “feudal” é apropriado para descrever o Tibete.

Alguns pesquisadores utilizam “feudal” para destacar relações de propriedade, dependência e obrigações sociais.

Outros consideram o termo inadequado ou excessivamente baseado em categorias da história europeia.

Portanto, para uma prova ou resumo do livro, é melhor registrar:

Sônia caracteriza o antigo sistema tibetano como feudal e teocrático, enquanto a historiografia apresenta diferentes interpretações sobre essa caracterização.


5. O que significa “teocrático” nesse contexto?

A palavra teocracia é utilizada porque as instituições religiosas possuíam participação direta no poder político.

O caso do Dalai Lama é especialmente importante.

Ele era considerado uma autoridade espiritual e também ocupava a posição de chefe político do Tibete.

Isso diferenciava o sistema tibetano de um Estado moderno secular, no qual a autoridade política é formalmente separada das instituições religiosas.

Mas isso não significa que todos os aspectos da administração fossem simplesmente decisões religiosas.

Existiam funcionários leigos, aristocratas, administradores, tribunais, autoridades locais e outras instituições.

Por isso, “teocracia” descreve um aspecto fundamental do sistema, mas não explica sozinho toda a organização política tibetana.


6. Justiça e autonomia da comunidade no exílio

Sônia menciona que crimes contra pessoas ficam sob a Justiça indiana, enquanto questões civis podem ser tratadas por instituições tibetanas.

O princípio geral por trás disso é a diferença entre autonomia comunitária e soberania estatal.

A comunidade tibetana pode administrar diversas questões internas, culturais, educacionais e comunitárias, mas não possui soberania territorial na Índia.

Isso significa que:

Índia → soberania territorial e autoridade estatal

Comunidade tibetana → administração interna de assuntos próprios

Essa distinção é essencial.

A comunidade tibetana no exílio não possui uma soberania equivalente a de um Estado independente.


7. E o Departamento de Astrologia?

A astrologia ocupa um lugar tradicional na cultura tibetana.

Em 1958, foi criado em Dharamsala o Tibetan Medical and Astro Institute (Men-Tsee-Khang), instituição que reúne duas áreas tradicionais:

A astrologia tradicional tibetana é utilizada para elaborar calendários, determinar datas consideradas favoráveis ou desfavoráveis, realizar interpretações relacionadas à vida de uma pessoa e auxiliar em determinadas decisões religiosas e culturais.

Ela não deve ser confundida com a astronomia moderna.

Astronomia → estudo científico dos corpos celestes e do Universo.

Astrologia → sistema tradicional de interpretação das relações entre fenômenos celestes e acontecimentos humanos.


8. Por que computadores são utilizados?

O trecho de Sônia traz uma imagem interessante:

fórmulas milenares + computadores modernos.

Isso não significa que a astrologia tradicional tenha se transformado em astronomia científica.

Significa que cálculos que anteriormente eram realizados manualmente podem ser automatizados.

É semelhante ao que acontece quando alguém utiliza uma calculadora para resolver uma fórmula matemática antiga.

O computador acelera:

Assim, tecnologia moderna pode ser utilizada para preservar ou praticar uma tradição muito antiga.


9. Astrologia e religião

A astrologia tibetana está historicamente relacionada ao budismo tibetano, mas não se limita a ele.

Ela recebeu influências de diferentes tradições, incluindo sistemas indianos e chineses.

Isso é importante porque a cultura tibetana não se desenvolveu isoladamente.

Ao longo de sua história, o Tibete recebeu influências:

A astrologia tornou-se parte de um sistema cultural mais amplo que inclui calendário, medicina, religião e práticas sociais.


10. Como é escolhido um Dalai Lama?

Aqui entramos em uma das tradições mais fascinantes do budismo tibetano.

O Dalai Lama é considerado, na tradição Gelug do budismo tibetano, uma manifestação sucessiva de um bodhisattva chamado Avalokiteshvara, ou Chenrezig em tibetano.

Quando um Dalai Lama morre, acredita-se que ele possa renascer em outro corpo.

A busca pelo novo Dalai Lama envolve diferentes sinais e procedimentos religiosos.

Tradicionalmente podem ser considerados:

Portanto, não é simplesmente um processo de “votação” ou de escolha administrativa.

É um processo religioso de reconhecimento de uma reencarnação.


11. O caso do 14º Dalai Lama

O atual Dalai Lama nasceu em 6 de julho de 1935, em Taktser, na região de Amdo.

Seu nome de nascimento era Lhamo Dhondup.

Ele foi reconhecido ainda criança como a reencarnação do 13º Dalai Lama.

Em 1939, foi oficialmente reconhecido como o 14º Dalai Lama e chegou a Lhasa em outubro daquele ano. Sua cerimônia de entronização ocorreu em 22 de fevereiro de 1940.

Aqui existe uma pequena diferença em relação à formulação de Sônia.

Ela afirma que Tenzin Gyatso foi encontrado aos 2 anos, levado a Lhasa aos 4 e educado pelos monges.

A cronologia oficial do próprio Dalai Lama registra:

Portanto, a ideia geral do livro está correta, mas as datas e idades podem ser apresentadas com maior precisão.


12. A educação do Dalai Lama

Depois de reconhecido, o menino passou a receber educação religiosa e filosófica.

A formação tradicional incluía estudos de:

A formação era extremamente rigorosa.

O objetivo era preparar o Dalai Lama para exercer sua função religiosa e, naquele período histórico, também política.

O próprio Dalai Lama relata que começou sua educação monástica formal aos 5 anos.


13. O Dalai Lama como líder político

O trecho de Sônia é especialmente importante porque mostra que o Dalai Lama não era apenas uma autoridade religiosa.

No antigo sistema político tibetano, ele também exercia autoridade temporal.

Em 17 de novembro de 1950, aos 15 anos, Tenzin Gyatso assumiu oficialmente o poder temporal do Tibete.

Isso aconteceu em um momento extremamente conturbado, depois da entrada das forças da República Popular da China no Tibete.

Assim, o jovem Dalai Lama tornou-se simultaneamente:


14. Uma questão interessante: reencarnação e sucessão

A sucessão do Dalai Lama não é simplesmente uma questão espiritual.

Ela também possui enorme importância política.

Se o Dalai Lama é uma instituição religiosa com influência política e cultural, reconhecer sua próxima encarnação significa também definir quem será considerado seu sucessor legítimo.

Isso ajuda a explicar por que a sucessão do Dalai Lama se tornou uma questão politicamente sensível entre:


15. O caso do Panchen Lama

Para compreender essa questão, é fundamental conhecer o Panchen Lama.

O Panchen Lama é uma das figuras mais importantes do budismo tibetano e possui uma relação histórica particularmente próxima com a sucessão do Dalai Lama.

Depois da morte do 10º Panchen Lama, ocorreu uma disputa sobre o reconhecimento de sua reencarnação.

Em 1995, o Dalai Lama reconheceu Gedhun Choekyi Nyima como o 11º Panchen Lama.

Pouco depois, ele desapareceu da vida pública e as autoridades chinesas reconheceram outra criança, Gyaincain Norbu, como Panchen Lama.

O caso tornou-se um dos principais exemplos de como a questão das reencarnações tibetanas adquiriu dimensão política.


16. A questão do próximo Dalai Lama

O próprio Dalai Lama declarou que a instituição poderá continuar, mas também discutiu publicamente a possibilidade de que ela não tenha sucessor ou que a tradição seja modificada.

Em uma entrevista, ele chegou a questionar a própria possibilidade de algumas reencarnações reconhecidas historicamente terem sido incorretas.

Isso mostra que a sucessão não é simplesmente uma regra automática.

Existe uma discussão religiosa interna sobre:

quem decide?

quais sinais são válidos?

a instituição deve continuar?

quem possui autoridade para reconhecer a próxima encarnação?


17. Por que a China se interessa pela sucessão?

Porque o Dalai Lama possui enorme importância simbólica para os tibetanos.

Para Pequim, a questão da sucessão também envolve soberania, estabilidade e autoridade política.

O governo chinês afirma que a escolha das reencarnações deve obedecer às regras estabelecidas pelo Estado chinês e às tradições históricas reconhecidas pelo governo.

O lado tibetano no exílio rejeita a ideia de que o governo chinês tenha autoridade religiosa para determinar a reencarnação do Dalai Lama.

Portanto, uma questão aparentemente religiosa transforma-se em uma disputa sobre:

Religião + identidade + legitimidade + soberania + política.


18. Mulheres e democratização

Sônia também destaca a situação das mulheres.

A comunidade tibetana no exílio introduziu progressivamente mecanismos de participação feminina.

A própria administração tibetana registra que representantes mulheres foram incluídas na Assembleia durante as primeiras etapas da democratização.

A Carta dos Tibetanos no Exílio também estabelece igualdade perante a lei e proíbe discriminação baseada em sexo, religião, raça, língua ou origem social.

Isso não significa, porém, que todas as desigualdades sociais tenham desaparecido.

A mudança institucional precisa ser diferenciada da transformação efetiva das relações sociais.


19. Uma questão importante sobre o “Tibete machista”

A caracterização do Tibete pré 1959 como simplesmente “machista” também precisa ser contextualizada.

As mulheres tibetanas ocupavam posições sociais diferentes conforme:

Região;

Classe social;

Condição familiar;

Comunidade religiosa;

Situação econômica.

Havia restrições e desigualdades, mas também existiam formas específicas de autonomia feminina dentro da sociedade tibetana.

Portanto, é melhor evitar a ideia de que:

Tibete antigo = mulheres sem direitos

E

Exílio = mulheres plenamente emancipadas.

A realidade histórica é mais complexa.

A própria documentação da administração tibetana no exílio destaca avanços na representação política e nas oportunidades educacionais e profissionais das mulheres, mas isso deve ser entendido como parte de um processo de modernização institucional.


20. O grande paradoxo apresentado por Sônia

Esse trecho do livro mostra uma transformação muito interessante:

Antigo Tibete

→ autoridade religiosa e política concentrada;

→ aristocracia e instituições monásticas;

→ sucessão baseada na tradição da reencarnação;

→ pouca participação política moderna;

↓

Tibete no exílio

→ constituição;

→ parlamento;

→ eleições;

→ participação feminina;

→ separação entre poderes;

→ transferência do poder político do Dalai Lama para dirigentes eleitos.

E existe um paradoxo:

Uma sociedade que preserva tradições religiosas muito antigas ao mesmo tempo em que cria instituições políticas modernas.

Essa combinação é uma das características mais interessantes da comunidade tibetana no exílio.


21. Questões para aprofundar o capítulo

Questão 1 - O Dalai Lama ainda governa politicamente?

Não.

Essa é uma informação que precisa ser atualizada em relação à descrição histórica do livro.

Em 2011, o 14º Dalai Lama transferiu suas responsabilidades políticas e administrativas para lideranças eleitas. A administração tibetana afirma que essa mudança encerrou o papel político formal do Dalai Lama.

Ele continua sendo uma autoridade religiosa e uma figura central da identidade tibetana.


Questão 2 - A comunidade tibetana no exílio é um Estado?

Não.

Ela possui instituições próprias de governo, mas não possui soberania territorial sobre o Tibete nem é reconhecida internacionalmente como um Estado tibetano independente.

É uma administração política da comunidade tibetana no exílio.


Questão 3 - Quando começou a democratização?

O processo começou nos anos 1960.

Os principais marcos são:

1960 → primeira assembleia representativa

1961 → proposta constitucional

1963 → constituição democrática

1991 → Carta dos Tibetanos no Exílio

2001 → eleição direta do chefe do Executivo

2011 → transferência da autoridade política do Dalai Lama


Questão 4 - O que diferencia o Dalai Lama de um presidente?

O presidente de uma república obtém sua autoridade por um processo político constitucional.

O Dalai Lama é reconhecido por meio de uma tradição religiosa de reencarnação.

Historicamente, porém, a instituição acumulou autoridade religiosa e política.

Depois de 2011, essas duas funções foram separadas na administração tibetana no exílio.


Questão 5 - Por que a astrologia é importante?

Porque ela faz parte de um sistema cultural tradicional que relaciona calendário, religião, medicina, ciclos naturais e práticas sociais.

Seu uso de computadores demonstra que uma tradição antiga pode incorporar tecnologia moderna sem necessariamente abandonar seus métodos tradicionais.


Questão 6 - A escolha do Dalai Lama é uma eleição?

Não.

Tradicionalmente, trata-se do reconhecimento de uma criança considerada a reencarnação do Dalai Lama anterior.

É um processo religioso que pode envolver sinais, sonhos, consultas oraculares, astrologia e reconhecimento de objetos.


Questão 7 - Por que a próxima reencarnação pode gerar uma crise política?

Porque quem reconhecer a próxima encarnação poderá influenciar a legitimidade da liderança religiosa tibetana.

Se Pequim reconhecer uma criança e a comunidade tibetana no exílio reconhecer outra, poderá surgir uma situação semelhante à disputa ocorrida com o Panchen Lama.


22. Resumo final para estudar

O Tibete tradicional possuía um sistema político no qual a autoridade religiosa e a autoridade temporal estavam fortemente ligadas. O Dalai Lama era simultaneamente líder espiritual e chefe político.

Após o exílio de 1959, a comunidade tibetana estabelecida na Índia começou a criar instituições próprias. A democratização foi gradual: começou na década de 1960, ganhou uma estrutura constitucional em 1991, passou a eleger diretamente o chefe do Executivo em 2001 e culminou, em 2011, com a transferência da autoridade política do Dalai Lama para líderes eleitos.

Paralelamente, tradições antigas foram preservadas. A astrologia tibetana continua sendo praticada e utiliza ferramentas modernas, como computadores, para realizar cálculos baseados em métodos tradicionais.

A tradição da reencarnação é especialmente importante para compreender o Dalai Lama. Tenzin Gyatso nasceu em 1935, foi reconhecido como a reencarnação do 13º Dalai Lama ainda criança, chegou a Lhasa em 1939 e foi entronizado em 1940. Aos 15 anos, em 1950, assumiu formalmente o poder temporal.

A história posterior mostra uma transformação profunda: a instituição que durante séculos combinou poder religioso e político passou, no exílio, por um processo de democratização e separação entre autoridade espiritual e poder político.

Por isso, o trecho de Sônia Bridi pode ser estudado a partir de 4 palavras-chave:

TRADIÇÃO → REENCARNAÇÃO → DEMOCRATIZAÇÃO → EXÍLIO

E existe uma quinta palavra que conecta todas elas:

LEGITIMIDADE.

Quem possui autoridade para governar?

Quem possui autoridade religiosa?

Quem reconhece a reencarnação?

Quem representa os tibetanos?

E até que ponto uma tradição religiosa pode coexistir com uma estrutura política democrática moderna?

Essas perguntas ajudam a entender por que a história do Tibete continua sendo simultaneamente religiosa, cultural e política.


Encontro com Dalai Lama, rito do debate, similaridade com andinos

Conversam, Dalai Lama curioso com a China atual, relato de Sônia sobre como ele se exilou

Limpeza de imagem da China, libertação de jornalista, visita de Hu Jintao aos Estados Unidos

Entrevista de fato

c26-sucesso-incomoda

Perseguição a Dra. Yi por conta do seu sucesso com laowai

- Estou pensando em ir embora da China - afirma ela.

- O que você acha?

Não sei por que algumas pessoas acham que posso responder a perguntas que envolvem consequências tão grandes. Decisões tão pessoais. Mas me sinto responsável pela desgraça que, sem querer, ajudei a provocar.

- Para onde a senhora pensa ir? Para o Brasil?

- Não. Lá tem muito sol. Pensei no Canadá. Minha filha está lá estudando. Um médico amigo que tem uma clínica em Toronto me ofereceu trabalho.

Sheryl e seu período de cantora, 2 semanas em Hong Kong, precisa de visto

muita-testosterona

Paulo na dermatologista, sem Sonia, deseja cauterizar uma verruga perto da axila

Paulo é atendido por uma médica chinesa que fala bem inglês. Ela pergunta o que o levou a procurar uma dermatologista.

- Apareceram umas verrugas no meu braço e estão me incomodando. Gostaria de cauterizar.

- Tire a camisa, por favor.

Ele faz o que a médica pede. E expõe seu já famoso peito cabeludo.

- Oh, meu Deus! - ela exclama e sai pela porta.

Chama a enfermeira.

- Wei Qi, venha aqui ver!

A enfermeira entra no consultório, arregala os olhos e diz:

- Hum, muita testosterona, não?

- Sim, muita testosterona.

Testosterona é o hormônio masculino. Na China, acredita-se que homem cabeludo mais potente - por ser a testosterona a responsável pelo crescimento de pelos no corpo. Paulo fica parado ali, sem saber se ri ou veste a camisa de volta, e a enfermeira coloca a cabeça para fora da porta:

- Hu Meimei, Li Xihua - o desfile dos nomes não termina.

Ela chama todas as mulheres do hospital para ver o homem cabeludo.

- Quando me dou conta - diz Paulo, estou cercado de mulheres vestidas de branco, me olhando e exclamando: muita testosterona! Muita testosterona mesmo!

Digo-lhe que nem imagino se tal cena teria acontecido se eu estivesse junto, porque talvez elas se controlassem ao ver que aquela testosterona já tinha dona.

Mas sendo na China, não sei…

c27-enxergando-longe

Verão em Pequim, 40ºC, controle de ar condicionado:

Na China, o ar-condicionado só pode ser li­gado se a temperatura dentro de casa passa dos 30ºC. Fiscalizar o cumprimento dessa regra é difícil. Muitas universidades pesquisam um método de monitorar a temperatura ambiente nos domicílios para pegar infratores. O país precisa economizar energia a qualquer custo.

Sua filha tranca a matrícula no Brasil e volta a China para ficar 6 meses com a família, passeiam, Mariana laowai exótica, muito assédio nas ruas, vida noturna em Pequim junto com sua prima e outros da embaixada

tp-ditadura-ou-planejamento?

Centralização agiliza mas também gera desastre, usina 3 gargantas

O que me irrita é os brasileiros não perceberem que o motor do crescimento chinês é o planejamento. Em 2005, eles entraram no 11º Plano Quinquenal.

São capazes de estudar as experiências dos outros países, avaliar erros e acertos, e tomar decisões sobre o próprio futuro. A China investe milhões de dólares em passagens de avião e hospedagens para comitivas e mais comitivas visitarem outros países.

Elas fazem pesquisa de mercado, entendem as formas de produção, conhecem projetos educacionais. O plano para 5 anos é seguido à risca mesmo que mude a facção do partido que está no comando. E é constantemente adaptado de acordo com as mudanças macroeconômicas, as necessidades que vão surgindo.

Basta olhar para a África e entender um lado nefasto desse planejamento com nova musculatura econômica, a China se expande geopoliticamente. A China quer assegurar matérias-primas para tocar adiante seu crescimento vertiginoso e para isso faz qualquer negócio. Quando apoia o governo do Sudão criticado pelo mundo inteiro pelo genocídio que promove na região de Darfur, a China está fazendo o que todas as potências fizeram antes: defende seus interesses e…

uma banana para o mundo! Um país que pouco preza a própria reputação em respeito aos direitos humanos não tem pudores em apoiar seja quem for para garantir petróleo, ferro, cobre ou transferência de tecnologia. Quem acha que os americanos são diferentes, que pense nos direitos das mulheres da Arábia Saudita, cuja monarquia é apoiada pelos Estados Unidos.

Rápida imersão no modelo chinês com o brasileiro Sergio Miranda da Cruz, representante na China da UNIDO, a Organização para o Desenvolvimento das Nações

Estratégia deles na época, capacitação, setor de serviços, urbanização, atenção aos recursos limitados

tp-depois-de-pao-e-feijao-saude-e-educacao

Cultura fortemente baseada no confucionismo

tp-recomendacao-de-leitura

Cores da Montanha - Da Chen

Ensino básico, escolas pagas, integrais, mais renda melhor educação, zona rural alto custo em educação e saúde, falência familiar

…Ao investigar as causas da miséria no campo, o governo descobriu que a queda na produção agrícola em algumas regiões devia-se à necessidade de os camponeses terem que buscar emprego nas cidades para pagar escola e tratamento médico.

Intercâmbio de professores estrangeiros (anos 2009), parcerias entre universidades de fora, famílias com muitos recursos, filhos estudam fora

Universidade Tsinghua, politécnica para universidade mesmo

…Para isso trouxemos de volta para Tsinghua a Filosofia, a Literatura e todos os outros cursos que tinham sido retirados depois da Revolução…

tp-escolinha-escolao

…lema da educação pré-primária é: promover conhecimento, gentileza e beleza

…Parece estranho, mas as pré-escolas se concentram em desenvolver um senso estético relacionado ao idioma. Crianças de 3 anos aprendem a recitar poemas imensos da dinastia Tang, escritos há centenas de anos, com uma linguagem arcaica. Não entendem metade do que dizem. Mas vão memorizando sons e os ideogramas equivalentes. No sistema público chinês, como no brasileiro, há escolas de excelência e escolas de chão batido…

…O número de estudantes no ensino fundamental e médio é maior do que toda a população brasileira. E as escolas funcionam das 8 da manhã às 4 e meia da tarde, em turno único.

A China tem 99% de alfabetizados entre 15 e 25 anos de idade - números da Unesco, o que significa erradicação do analfabetismo. A China espera em uma geração promover a revolução social e econômica que a Coreia fez, tendo como base a educação, numa escala imensamente maior. Se vai conseguir, é outra questão.

O autoritarismo impede o pensamento criativo, o desenvolvimento de habilidades fundamentais para haver inovação tecnológica. Mas uma visita a escolas básicas de Pequim faz a gente acreditar que eles serão capazes de se estabelecer como potência, e logo…

Ensino fundamental, programação de computadores na 5ª série, inglês, caso da tradução de Sheryl, crianças respondem em inglês

…A geração que chegará ao mercado de trabalho em 2020 será bilíngue…

tp-livros-e-letras

Passeio no shopping com livraria em Pequim, oeste da cidade, programa familiar

…Precisamos pedir licença o tempo todo para avançar pelos corredores. Parece promoção em véspera de Natal. É um dia comum. A livraria está lotada não pela oportunidade de comprar barato, mas de poder ter acesso ao conhecimento.

Educação é importante na China porque os chineses a compreendem como o seu caminho, o caminho de um quarto da população mundial para o mundo desenvolvido…

28-uma-copa-do-outro-lado-do-mundo

Período de copa do mundo de futebol, filho Pedro não muito a fim de futebol

Transmissão, atraso e censura

…A maldita censura chinesa está atrasando o sinal em mais de um minuto, para poder cortar se, por acaso, a transmissora do sinal mostrar uma placa escrita, por exemplo, “liberdade para o Tibete” ou “independência para Taiwan” ou, pior, “Hu Jintao pinta o cabelo”. Uma decepção e uma revelação.

Em dia de jogo, podemos viver no futuro. Um minuto à frente de um quarto da população mundial. Sabendo tudo o que acontece um minuto antes deles. Que pena que não existe banca de apostas em tempo real…

c29-viagem-ao-topo-do-mundo

Reportagem trem da altura, Pequim a Lhasa capital do Tibete, sorteio, imprensa, liberado com governo, máximo 2 pessoas, perderão cobertura dos Jogos Nadam e a partida de futebol Brasil x França

Reunião de preparação com os organizadores, oxigênio, banho, 2 dias de viagem, mais 1 dia para banho (3 dias sem banho)

Sob orientação do Dr. Ahmed tomam Diamox para altitude, sangue mais ácido, forçar pulmão, 3000m de altitude

tp-um-trem-para-as-alturas

Reencontram os 2 jornalistas da França, Philippe Rochot e Sylvain Giaume, preparação do embarque ao trem

…Seremos 6. Paulo fica com 1 cama embaixo, onde pode sentar e acomodar a câmera aos pés para dormir. Eu fico com a do meio, e no 3º andar se instala um fotógrafo grandão da Agência Reuters.

No beliche ao lado, um repórter dinamarquês, um cingapurano e um alemão. Logo vejo que só poderei dormir esticada. Se virar de lado e encolher as pernas, fico com os joelhos ou com a bunda de fora. Entre os 2 beliches, um corredor estreitinho. Todos temos nossos laptops, os telefones, as câmeras para recarregar baterias, mas só uma tomada. Vamos nos revezar no uso dela…

Banheiro sem chuveiro, arcaico, lenço umedecido para banho, vagão de Laowai, nativos e comitiva do governo chinês

Derrota do Brasil, rumo a oeste, Gansu, Gobi e Qinghai

Jornalistas alertas na janela enquanto outros descansam, avisos, paisagem, alces iaques, nômades, soldados a cada 1-2 km

Efeito da altitude nos itens, equipamentos e pessoas, 4600m, em direção ao Monte Tagula 5200m, chegam e seguem a descida para Lhasa, antes parada na estação de Naqu

Chegada a Lhasa, recepção por locais, acomodação no hotel com check-in já feito banho tomado. Lhasa a 3600m de altitude

tp-a-fe-e-a-lei

Palácio de Potala, onde Dalai Lama viveu antes do exílio, noite mal dormida, ligações ao quarto, garotas de programa

Dificuldades com a comitiva, sem muitas gravações, visitação ao Jockhang, guia informal pelo lugar, monges, imagem proibida de Dalai Lama

Panchem Lama, o segundo, na data com 19 anos, desaparecido desde os 6 anos, rumores que está sobre cárcere e o Partido Comunista colocou outro em seu lugar

tp-lhasa-sitiada

Lhasa é de maioria Han, chinês, tibetanos minoria, tragédia da primavera de 2008 em Lhasa

tp-uma-cidade-no-topo-do-planeta

Destino Naqu, 4200m de altitude

tp-indicacao-de-leitura-enterro-celestial-Xin-Ran

Ritual dos monges tibetanos com os mortos, conhecedores de anatomia e doenças, religião xamânica Ban, antes do budismo

Parada oficial para conhecer envasamento de água mineral na altitude, escoamento para Pequim, iogurte de iaque

Naqu é cinematográfica para Guerra nas Estrelas, forte cultura local, ar rarefeito, Sonia precisa de oxigênio, próxima parada Lago Namtso, está a 5200m de altitude, cercado por cadeia de montanhas, total 7000m de altitude

falésia - falésia é um paredão rochoso ou de terra íngreme, localizado à beira-mar, esculpido pela ação contínua das ondas (abrasão marinha), da chuva e dos ventos.

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tp-galhos-secos

Filmagens em parque no oeste da Cidade Proibida, fenômeno da oferta de casamentos, cultura patriarcal, homem responsável pela família e pais, mulher quando casa deve obediência a família do marido

Tem alguns casos ilegais, como Sheryl que mora com o namorado (casou-se em 2007) manda dinheiro aos pais, sua morada é com seu cônjuge e sogra

População de maioria masculina

Incidente no parque pelos locais, ofensas a Sheryl

tp-loteria-genetica-conta-bancaria

Matrimônio tratado como contrato empresarial, benefícios a longo prazo, conta bancária alta e sucesso profissional, em cada 10 mulheres, há 13 homens (3 excedentes)

…A pobreza de variedade de sobre­ nomes é tão grande que há uma piadinha explicando a invasão da China pelos mongóis. Um general teria perguntado a Gengis Khan:

- Mas como vamos invadir a China, um país tão grande, com tanta gente?

- Simples. Primeiro matamos todos os Li, os Wang, os Chen, os Zhang e os Liu. Com os que sobrarem, a gente negocia.

Como os brasileiros, os chineses fazem piada com as próprias fraquezas e desgraças, riem à toa. Mas podem carregar grandes amarguras…

Geração de jovens homens chineses solteiros

tp-pequenos-imperadores

Não se refere a Pu Yi

tp-indicacao-de-leitura

O Último Imperador - Bernardo Bertolucci

Filhos únicos fruto da política de mesmo nome, chamados de último imperador

…Mimados, estragados, irresponsáveis, pequenos tiranos. Esses são os adjetivos ligados ao conceito de pequeno imperador. Eles crescem e vivem tão rodeados de atenção que se acham o próprio Império do Meio - o sol gira em torno deles.

O que gravita em torno deles é uma constelação, conhecida como 4 x 2 x 1 parece esquema de ataque, mas representa o encolhimento de gerações 4 avós, 2 pais e 1 filho…

Caso da colega de sala de Pedro, Li Jia, pressão dos avós, tem irmã com os avós paternos, pai no sul e resto de sua família em Pequim para estudar em lugar melhor

Sonia entrevista a família com ajuda da professora

…Li Jia é a personagem perfeita - me diz Melissa, uma canadense de origem alemã que se formou em pedagogia, se especializou em método Montessoriano e aceitou o desafio de levar conceitos educacionais do Ocidente para a China.

- Tive que tapar a visão da porta para dentro da sala por causa da avó dela, mas não adiantou, ela passou a ficar na janela o tempo todo.

A pobre menina não pode ficar à vontade na sala de aula, sempre vigiada pela avó. Quando surpreendi nainai (vovó) Li dentro da sala, ajeitando o cabelo da neta, chamei os pais.

A conversa com os pais ajudou, mas não resolveu. Ela ainda chega extremamente cedo para buscar a neta e não resiste a ficar espiando. Melissa fala com a mãe de Li Jia, aceita ser entrevistada. Sheryl acerta os detalhes e 2 dias depois estamos entrando no apartamento da família.

Fica no mesmo condomínio da escola. É a primeira vez que entro na casa de um chinês novo rico. Não me surpreendo, infelizmente. Lembro de ter visitado uma versão menor - bem menor - desse apartamento e que gostei muito. Mas, neste, há uma profusão de dourados, além dos sofás imensos com encosto alto e, enfeitando as paredes, algumas fotografias de casamento com excesso de Photoshop. É de doer.

Li Jia é uma menina gordinha, coisa nova na cultura chinesa. Mas entendo quando a avó nos conduz até a sala de jantar e encontro 2 adolescentes, as babás, alimentando Li Jia. Outra mocinha cuida de um bebê.

- Li Jia não é filha única?

- Não, porque somos originários de uma cidade pequena no interior da província de Hunan conta a avó.

- Então minha filha teve um segundo, mas, infelizmente, é menina também

As palavras cravam como uma punhalada no peito. E ela fala assim, com a maior naturalidade. A preferência por meninos nunca é declarada em meias-palavras. A mãe ainda não chegou do trabalho e a avó se apressa em buscar fotos. Mostram uma linda jovem chinesa num estúdio de TV. A mãe de Li Jia era apresentadora da emissora de TV do Hunan e abandonou a carreira para se casar. As fotos do casamento mostram que o marido é bem mais velho e não muito formoso. A avó conta que ele tem uma grande indústria de laticínios - produz iogurte, achocolatados em caixinhas longa vida, produtos que estão se tornando populares na China.

Mas a fábrica fica no sul e ele passa a maior parte do tempo lá, enquanto a família se estabilizou em Pequim para poder educar as crianças em escolas melhores.

Na capital, a mãe mudou de carreira. Montou uma fábrica de roupas infantis que faz muito sucesso entre os chineses.

A avó mostra catálogos das roupas em que a maior parte dos jovens modelos fotográficos é laowai. A única criança chinesa no catálogo é Li Jia. O avô também está lá. E os 2 dão uma entrevista extremamente sincera sobre todas as expectativas que têm para o futuro da netinha. Ele é matemático, foi professor universitário, e se dedica a ensinar aritmética à menina de 5 anos num nível assustadoramente alto.

Ele chama Li Jia, vai perguntando e recebendo respostas. Sheryl traduz e fico convencida de que meu filho, que mal sabe somar 2 e 2, deve ser retardado. Ainda mais quando o avô me diz:

- Nossa neta tem uma inteligência superior, ela vai conseguir tudo o que quiser na vida, ela é melhor do que os outros. E, já que é menina, é bom que seja superior aos outros.

Então é isso: torturar uma menina de 5 anos com matemática e literatura - ela lê um livrinho em mandarim e faz um joguinho de perguntas e respostas como demonstração - para que ela seja extremamente inteligente e, assim, compensar o fato de ter nascido do sexo errado.

A mãe chega e impressiona. É ainda mais bonita do que nas fotos. Movimenta-se com elegância, fala firme e delicadamente ao mesmo tempo. Uma autêntica beldade chinesa. E confessa que se preocupa com a influência dos pais sobre a filha.

- Eles são movidos pelo amor. Mas sei que isso tem sido pressão demais sobre Li Jia. Conversamos muito sobre isso, mas é difícil controlá-los.

O arranjo familiar é um pouco diferente. A mãe também é filha única, por isso cuida dos pais dela. Os pais do marido estão com outro filho, no sul. Quando nos despedimos, a avó traz três caixas, cada uma com 20 caixinhas de um composto lácteo fabricado pelo genro, e nos dá de presente.

- É para o Pedro - diz ela.

- Ele é muito magrinho…

tp-o-sumico-de-ryan

Garoto de 4 anos, já tem nome chinês, vive no condominio com avó e mãe (30 anos), brinca com Pedro filho de Sonia, Pedro indaga a saudade do colega, Sheryl liga para a mãe, ela seoparou-se do marido, garoto foi para Xangai

tp-retribuicao

Permuta, como fez reportagem com a família de Li Jia, agora precisa ceder o filho para sessão de fotos para o catálogo de roupas infantis, regra chinesa, ganhou um favor, precisa retribuir

5h de sessão, convite a Sonia para uma campanha, trocadilho, caminhão cheio de japonês, caminhão cheio de laowai

c31-yunnan

Local onde se chove muito (distinção do inverno para o verão), cidade de Lijiang - rio bonito

Rio estremamente limpo, bares e restaurantes, gelam bebidas com a água do rio, lembrança de Caçador/SC, fogão a lenha

Cidade com muitos da etnia naxi, dizem que são próximos dos japoneses, apesar da distância, tem o mesmo hábito de organização e limpeza

Tratamento de água, 3 poços, 1 para beber, 2 para cozinhar e lavar, 3 para banho, esses vão para a fossa, jamais voltam para a corredeira do rio

2 cidades, velha e nova, governo chinês criação de imitação, naxi resistem, sem conflitos com os han

Orquesta peculiar, instrumentos enterrados no período da revolução cultural, retomada da cultura

Visita a sra. Yang, casa aristocrata, serve licor de ameixa, forte, volta ao local após a revolução hoje vive com filha, o marido da filha e primo distante da família

Cultura naxi, mulheres trabalham, homens bebem chá e escrevem poesia

tp-doutor-ho

Mora com esposa e filho, todos naxi, uniu seu conhecimento com voluntários da 2ª Guerra Mundial (inglês), reconhecido na medicina chinesa, medicina fitoterápica, Sonia vira piada com fita ao Brasil:

Quem diria, que chá de picão é bom para hemorroidas

Casou-se sem conhecer a esposa, 62 anos juntos e 5 filhos

tp-a-garganta-do-salto-do-tigre

Viagem e estrada montanhosa, motorista bem ruim, parada para comer pera, superstição com a fruta, não pode dividir e comer 1 pedação, separação do casamento - fen li

Negociação na beira da estrada, cobra, cereja e filosofia budista

Chegam ao parque da Garganta Do Salto Do Tigre, importante para o rio Yangtsê e formação da China

tp-pes-de-lotus

Vila da Estradinha, só velhos e criança, forte odor na vila

Lago de compostagem, com todo tipo de esterco (inclusive humano)

Cultura do pé de lótus, milenar, conseguiram a reportagem com a desculpa de mostrar a dança do dragão

Sra. Wu, conta a história de como era jovem e a dificuldade com os sapatos aos 4 anos de idade, sofrimento durante a revolução e nos campos de trabalho

No final, a líder do grupo, uma mulher magrinha e risonha, com uma dentadura postiça branquinha, branquinha, faz uma despedida como nunca tive antes na vida. Braço direito levantado, se volta para mim e deseja:

- Que seu marido seja sempre forte e viril. Que você tenha muitos filhos homens. Que seja sempre bonita e saudável. Que seu patrão lhe dê uma promoção e aumento de salário. Que tenha sempre muito arroz na sua mesa. Que seus filhos lhe deem muitos netos…

A lista de bons desejos ainda ecoa em meus ouvidos. Mas o que me intriga é pensar como, ainda hoje, submetemos nossos pés aos saltos altos em nome de um fetiche sexual.

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Jantar em Wuhan, capital de Hubei, polo automotivo, como São Bernardo Do Campo recepção como chefe de Estado.

Ao entrar na sala, Paulo Zero, a Ana Escalada e a Rosana Teixeira, que estão nos acompanhando, me olham com uma cara sacana de quem diz “assuma a chefia aí, minha amiga”. É claro que sobra para mim. Sento-me ao lado do vice-prefeito e, além de ouvir um discurso sobre a amizade da China com o Brasil e como eles estão entusiasmados com uma possível melhora na parceria entre os dois países, sou obrigada a fazer um discurso, de improviso, agradecendo. Paulo grava, só para poder rir da minha cara mais tarde - ele, Ana e Rosana.

- Vocês me pagam - prometo-lhes, entre dentes, na saída. Eles se mordem para não rir.

De lá, viemos para o restaurante e o banquete. A conversa vai, com aquelas observações que já cansamos de ouvir.

- Estive no Brasil - relembra um dos anfitriões. - O céu lá é muito azul.

O chinês está indo muito bem, até que emenda:

- Mas tem muita sujeira na rua. E muita gente pobre.

A vontade é de responder que ele, como um cidadão de um país com renda per capita que é um quinto da brasileira, pode falar à vontade. A China nos ultrapassou em riqueza absoluta, mas quando se divide a riqueza pelo número de habitantes ainda estamos muito, mas muito à frente. Só não sei por quanto tempo.

Estou digerindo a observação quando o vice-prefeito pergunta:

- Na sua televisão, vocês falam mal do governo?

A mesa inteira para até de mastigar e fica me olhando, esperando a resposta:

- Como o senhor sabe, o Brasil é uma democracia - inicio. O presidente é escolhido pelo povo e é respeitado como representante de cada um de nós. Então, não falamos mal do governo. Apenas denunciamos quando há corrupção, decisões equivocadas, planos malfeitos ou mal executados. Apenas isso. Em lugares com democracia e liberdade de imprensa o governo tem mais legitimidade e respeito, mas está sujeito a fiscalização constante do povo e da imprensa.

E ninguém vai preso por causa disso.

O resto da refeição é feito em silêncio. Mas ele deveria estar preparado para a resposta quando perguntou. Na China, falar em democracia e legitimidade e sugerir que os governantes possam ser corruptos pode dar cadeia.

tp-verao-de-2006

Caso de denúncia do Sr. Fu Xian Cai, dinheiro da expropriação da Usina de 3 gargantas desviado, camponeses sem amparo Pressão do governo chinês, eliminação de fonte jornalística, Tv Alemã ARD, jornalista Jochen Graebert

Abalado com tanta crueldade, ele resume a inquietação de um jornalista estrangeiro na China:

- Estamos numa situação diabólica: ou nos calamos, ou expomos nossas fontes a ataques brutais como esse. Diabólica tanto para nós quanto para os ativistas chineses.

A única forma de pressão que os opositores dispõem é tornar sua causa conhecida no exterior. Cenas de confronto com a polícia só são encontradas nos arquivos das TVs estrangeiras geralmente gravadas por ativistas que conseguem fazer a fita chegar às mãos de repórteres. Mas nunca impunemente.

O Clube dos Correspondentes Estrangeiros registrou, de 2004, quando a tocha olímpica chegou a Pequim, até o meio de 2006, 72 casos de jornalistas estrangeiros detidos ou agredidos por autoridades locais. Não há estatística sobre o número de fontes punidas por falarem conosco.

tp-vila-dos-injusticados

No sul de Pequim, uma pequena favela se forma ao redor da Corte de Petições. Ela abriga gente que veio apresentar queixa e não pode voltar ao seu local de origem. Esperam por uma Justiça que nunca chega. É a vila dos peticionários.

Impossível um laowai se aproximar do local, ainda mais com uma câmera. À paisana, a polícia fecha o caminho a quadras de distância.

Em agosto, outra ocorrência cruel cala a voz de mais um ativista. Nesse caso, ainda mais chocante porque ele era cego. Chen Guangcheng teve seu momento de glória na China - foi um exemplo mostrado na TV.

Afinal, era um deficiente que, contra todas as possibilidades, estudou e se formou em direito. Mas Chen resolveu usufruir de tamanha celebridade usando-a para fazer o bem. Ao ser procurado na província de Shandong, por exemplo, com a denúncia de casos de abortos forçados, tornou-a pública.

Acontece que na China a responsabilidade de fazer cumprir a lei e as metas do governo cabe aos políticos locais. E as metas de controle de natalidade estavam sendo ultrapassadas em Shandong - o povo simplesmente resolveu ter mais filhos.

As autoridades locais teriam resolvido a questão sequestrando mulheres grávidas e forçando os abortos em qualquer estágio da gravidez. Uma delas estaria a poucos dias do parto.

A reportagem, com entrevista da presidente do clube, Melinda Liu, e de Jochen, foi ao ar no Bom Dia Brasil. Em horário da China, às 6 horas da tarde. Pouco depois, toca o telefone. É o embaixador Castro Neves, que viu a reportagem ao vivo.

A embaixada tem uma parabólica imensa e é o único ponto em território da China continental no qual se pode assistir à TV Globo.

- Sônia, você tem certeza de que está segura? Você e Paulo podem ser expulsos! preocupa-se o embaixador Castro Neves.

Diante de tanto abuso, a expulsão é o menor dos riscos.

reportagens-archive.is

mais-ativistas-archive.is

video-reportagem

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8h de avião saindo de Pequim, taxista karaokê, taxista Jeff

…Jeff é personagem interessante, mas não foi por causa dele que viemos tão longe. Nossos dias de Ásia estão chegando ao fim e decidimos fazer uma série sobre desenvolvimento em quatro países: Cingapura, Vietnã, Índia e China. Japão e Coreia, cujas trajetórias são bem conhecidas no Brasil, ficam de fora…

O caso de crescimento de Cingapura (enxuto e relato na época)

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Fluxo de motocicletas, polo industrial, Ho Chi Mihn, a antiga Saigon

…É como um resumo do Vietnã de hoje: as cicatrizes da guerra e a transformação promovida pelo Doi Moi, o processo de renovação da economia começado há 15 anos e que rapidamente erradicou o maior mal que afligia o país: a fome. Hoje, o Vietnã é o segundo maior exportador de arroz do mundo.

Como na China, a reforma começou no campo e foi espalhando seus benefícios pelas cidades. Mas o modelo de desenvolvimento é diferente, menos fantástico e mais igualitário.

Em um escritório simples, num prédio igualmente despretensioso no centro da capital, Hanói, encontramos o homem que planejou a mudança histórica do Vietnã.

Ele lutou na guerra, perdeu um filho num bombardeio, defendeu fervorosamente os preceitos de uma economia socialista. Mas quando a fome assolava o país, nos anos 80, liderou a virada. Sem pudores, Lê Doang Doanh explica suas motivações:

- A situação estava se deteriorando tão rápido que a sobrevivência do regime estava em risco recorda ele.

- Nós, vietnamitas, sabemos pegar em armas e expulsar os opressores. Fizemos isso com os chineses, os franceses e os americanos. Poderia acontecer o mesmo com o regime.

Sem destino por uma estrada nos arredores de Ho Chi Mihn, procuramos um agricultor que represente essa revolução econômica. A improvisação é possível porque nosso controlador tinha regras rígidas, mas pouca rigidez no cumprimento delas.

E, ainda menos, capacidade de se organizar. No fim das contas nem precisava ter planejado. Cada agricultor que encontramos desfia uma longa história de sofrimento. De filhos que pereceram, pais que morreram muito cedo de fome, bala ou explosão de minas.

Um grupo de estudantes, todos de uniforme impecável e lencinho vermelho no pescoço, atravessa pela estrada estreita que corta os arrozais. Ele nos guia até a casa do avô de um deles. Encontramos um menino pescando no arrozal.

- E tem peixe aí?

- Tem muito, a gente solta os filhotinhos e eles crescem e se reproduzem explica.

O dono daquela lavoura apresenta as filhas e os netos. Diz meio envergonhado que perdeu o único filho homem – Ah, a sina asiática! Algumas filhas permanecem solteiras, outras moram por perto e ajudam na próspera fazendinha. Nos fundos da casa eles criam tartarugas, para comer, em tanques de barro. No arrozal, criam peixes e camarões. Tomamos chá e o sol vai baixando, fazendo do arrozal um espelho vermelho. Um rapaz vai espalhando as armadilhas para camarões, a água pelos joelhos. A paisagem fascina, a conversa é boa. Chung está impaciente para ir embora.

À noite, parece que a batalha de Dien Bien Phu está sendo travada nas minhas entranhas. Meu estômago queima como napalm na floresta. Estou com febre, enjoada, morrendo de dor. Uma intoxicação alimentar, evidentemente.

Como peguei, onde peguei, não saberei nunca. Mas entre as refeições e o chá na beira do arrozal uma bactéria encontrou seu caminho para invadir minhas resistências e se entrincheirar no meu organismo. Penso que vou morrer. Mas vivo para sofrer no dia seguinte, me arrastando no calor das Ruas de Saigon, incapaz de acompanhar o ritmo do Paulo, que está gravando as imagens que ilustrarão nossas reportagens…

Crescimento parecido com as reformas de Deng, mas foram tomados de forma igual, Deng favoreceu alguns antes (este já falou sobre)

Greves, empresas de China e Taiwan, 14h de serviço mas pousada na fábrica

- Eles estão ávidos por emprego, não por escravidão - diz o diretor do Banco Mundial, Martin Rama.

- Aqui, o sistema em que o patrão é quase dono do empregado não pega. E o governo sabe que só negociando pode evitar conflitos.

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Índia, polo forte em tecnologia da informação, Gurgaon (norte), 50km de Nova Delhi, Bangalore (sul)

E aí terá os contrastes da Índia. Mais da metade da população é analfabeta. Mas os poucos que conseguem chegar ao ensino superior têm a melhor formação que se pode esperar nas melhores universidades dos países desenvolvidos. Médicos, engenheiros, programadores de computador indianos são disputados mundo afora. Representam o melhor que se pode ter, pelo menor preço.

2006, 2h até a capital, com infraestrutura, tempo será menor

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Do avião, avistam nuvem mais baixa, poluição, cidade de Shaanxi, norte da China

Leitura, cigarro em vôo

…Resolvo falar com a comissária de bordo.

- Tem alguém fumando dentro do avião. Isso é perigoso.

Dali a pouco ela volta:

- Não vi ninguém fumando e não há fumaça nos banheiros.

- Mas o cheiro de cigarro é muito forte. Claro que tem alguém fumando. Olhe a fumaça saindo do ar-condicionado.

Com uma cara meio envergonhada, ela reconhece.

- Talvez na cabine, o comandante…

Talvez. Talvez é a palavra que o chinês usa para fazer uma afirmação que ele não quer assumir. Ela sabe que é o piloto quem está desobedecendo às regras. A autoridade, neste país, é sempre absoluta…

Torre do antigo templo de Yan’an, nunca derrubada pelos japoneses durante, a 2ª Guerra, ponto de referência para bombardeio, Mao vivia neste local, sede do Partido Comunista Chinês de 1935 a 1948

…Derrotado pelas forças do Kuomitang de Chian Kai Chek, na província de Jianxi, no sul, o exército comunista, liderado por Mao Tsé-Tung e Zhou En Lai, foi forçado a uma retirada que ficou conhecida como A Longa Marcha, 12,5 mil km cortando o centro da China.

Eles atravessaram montanhas geladas, enfrentaram a fome com as forças do Kuomitang no seu encalço. De cada 10 comunistas que partiram de Jiangxi, só 1 chegou a Yan’an.

Quem não sabe da particularidade das habitações locais não percebe. Mas Yan’an tem 2 cidades: uma convencional, com casas e prédios, ao longo do vale cortad pelo rio; outra, escondida para dentro das montanhas, uma cidade subterrânea, feita de cavernas. É esse povo das cavernas que buscamos, mas começamos pelas cavernas nas quais Mao Tsé-Tung morou, há várias, já que ele vivia mudando de endereço para despistar os espiões.

Estão lá a mesa que Mao usava, a cama na qual ele dormia. A mais interessante é a caverna que foi sede do Departamento de Propaganda do Partido Comunista Chinês na verdade um complexo de cavernas interligadas que abrigava as emissoras de rádio, que transmitiam em chinês e inglês, e a agência de notícias Nova China, a Xinhua, que viria a ser a agência oficial do governo chinês.

Aqui, o mito Mao Tsé-Tung foi forjado a partir da história da Longa Marcha, a tremenda derrota que reduziu seu exército a 1 décimo da força de que dispunha vista como a resistência sobre-humana, o heroísmo dos ideais que sobrevivem às condições mais adversas. Ainda hoje os chineses visitam as cavernas de Mao como quem participa de uma peregrinação religiosa.

120 milhões moram nesses locais (2/32/3) população brasileira, funeral noturno, fogos de artifício, espantar fantasmas

Refeição com nativos, senhora agricultora

Estufas caseiras, plantio de cultura de verão durante o inverno

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Solteiros mortos, procuram par para casamento fúnebre, Paulo usa cartolina para refletir sol, ajuda de Sheryl que tem medo do cemitério, usaram cartolina, pois Paulo esqueceu o rebatedor

Cavernas que formam a Universidade de Yan’an, Sonia compra vazos e uma lamparina mas pelos costumes, dão azar, amontoados de nativos comerciantes

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Rio Li e a paisagem, Shan-shui, montanha e água, pegam barco, chuva ácida, pescador local usa cormorões para pesca (pássaro), leve amarração no pescoço, balança o barco, aves mergulham e pegam peixe

Um dos lugares mais belos que visitou diz Sonia, Guilin fica ao sul do país, região de Guangxi, lenda do menino que virou dragão para lutar com outro e a batalha formou o local

Muitas minorias na região, Longsheng, costado do dragão, povo Zhuang, mulheres carregam as coisas de gravação, 5km acima, chegam a vila de Longji

Para melhores imagens precisam subir mais, centro da vila de Longji, região responsável por boa parte do arroz, homens trabalham na colheita

Região cultiva muito milho e pimenta

Visita não amistosa ao povo Yao, mulheres de cabelo até os pés, avisadas pela prefeitura sobre a visita de laowai

Dilema do povo Yao, abraçar a modernidade ou manter as tradições

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tradições

Menina de 12 anos, treino de equilíbrio e acrobacia, relógio, Wuqiao, a cidade que reivindica o título de inventora do malabarismo e das artes circenses

A história teria começado com agricultores, que durante o inverno implacável do norte da China não tinham atividade e, muito menos, dinheiro. Então começaram a fazer malabarismo com espigas de milho, a equilibrar ancinhos, se contorcer até entrar em cestas de palha, a fazer acrobacias desafiando a lei da gravidade.

Apresentando-se nas feiras, conseguiam o suficiente para comer. Às vezes, mais. Um foi passando a habilidade ao outro, novos truques e atrações se sucederam até Wuqiao se tornar uma grande escola de circo. Isso teria sido há 4 mil anos. A tradição persiste.

Passada por gerações tutor da escola, chama irmão para ver laowai, cada tutor ensina 15 crianças, 150 yuans (20 dólares), ensino integral

História do professor, casou e virou professor, proibido de seguir carreira de artista, irmão desafiou os pais e rodou o mundo com circo russo

200 km de Pequim, província de Hebei

…Wuqiao é o maior centro de formação de artistas de circo do mundo. Há 60 escolas registradas, 50 mil estudantes. No internato que visitamos, os alunos começam o treinamento aos 3 anos de idade e saem aos 17. E chamar de linha de montagem não é exagero. Num salão do tamanho de um ginásio coberto, meninos de idade entre 8 e 12 anos fazem fila, tomam impulso e saltam seus mortais sobre os colchões - 1, 2, 3… vamos contando… 13, 14, 15, 16!…

…A acrobacia se tornou uma profissão tão lucrativa para quem consegue entrar nas grandes companhias chinesas, que pais de classe média pagam caro para os filhos estudarem na melhor escola de Wuqiao. Anuidade de 5 mil dólares não é para qualquer chinês. A escola vale o que cobra. Tem até um teatro com palco muito bem montado, no qual os alunos se apresentam para público pagante.

Aqui encontramos Li Ge, apontada por todos como a grande promessa para os palcos profissionais. Ela tem nove anos, é filha de engenheiros e pediu aos pais que a mandassem para a escola depois de ver um show de acrobacia na TV. Nos concursos nacionais, coleciona medalhas. E ganhar concurso de acrobacia na China é como ter título mundial…

Wuqiao cidade pobre, atração turística para enriquecer, parque temático de acrobacia

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Paju - 파주시 - Gyeonggi - Coreia do Sul Paju é uma cidade da província de Gyeonggi, na Coreia do Sul. Foi considerada uma cidade em 1997. Por estar localizada ao sul da cidade de Panmunjeom no Paralelo 38 N, muitas bases do exército norte-americano e coreano estão localizadas na cidade, com o objetivo de proteger a capital coreana

Panmunjeom - assinatura do armistício de 1953, Guerra Da Coreia

Refugiado 1 da Coreia do Norte, homem, 35 anos, professor

10 anos antes, fome com esposa e filha, colheita de arroz prejudicada, morte da sobrinha, fuga para a China, corrupção de guarda, emprego, vive em Seul

Refugiado 2 da Coreia Do Norte, mulher, 25 anos

Sobrepeso (raridade entre orientais), sonho a irmã, formação em TI,

- Sofro muito diante de um prato de comida até hoje – confessa X.

- Não consigo parar. A fome me persegue e me joga para dentro do prato. Simplesmente não me controlo.

- Minha irmã dizia que queria ser professora porque, no Dia do Professor, as crianças sempre levam alguma comida de presente – recorda. – Então ela dizia que pelo menos uma vez por ano não passaria fome.

Cidade de Kaesung no sul, polo de desenvolvimento, mão de obra do norte, baixos salários

Exibição do comboio do norte

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Preparação para saírem da China, Pedro Bassan novo correspondente

…Estamos terminando dois grandes projetos: um é para o Globo Repórter, trata da velha China, nos levou a Yunnan, Guilin, Wuqiao, Yan’an e tantos outros lugares; o outro é a série sobre desenvolvimento da Ásia, que irá ao ar em janeiro, quando já não estaremos mais aqui…

…O plano inicial era voltarmos para o Brasil, mas acabamos sendo transferidos para Paris. Fechar o ciclo da China de repente ficou mais pesado, porque envolve também preparações para a vida nova que nos espera na Europa em 2007.

Pedro Bassan, que se tornará o novo correspondente na China, chega para reconhecer o terreno…

…Wang foi conquistada por Bassan à primeira vista. E ela nunca mais falou em ir embora conosco. Xiao Li, só de mencionar o nome dele, sorria. Sheryl já está contratada para os próximos dois anos. Estão todos em segurança - Wang, Li e Sheryl, aos cuidados do Bassan e da Joana Thimóteo, a mulher dele, produtora da TV Globo. E eles estarão em boas mãos chinesas. As melhores que se pode encontrar…

Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres - CBERS

Sheryl não continua na equipe, segue para Hong Kong em outro trabalho

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Chan Laiwa, família manchu, considerada laowai pelos han, 4 séculos de governo Chan Laiwa, 25 anos depois, primo Pu Yi, fantoche do governo japonês

…A jovem Chan Laiwa foi operária, trabalhou no campo, foi “reeducada” pela Revolução Cultural. E, na primeira oportunidade que teve, já com quase 40 anos de idade, foi para Hong Kong. Na possessão inglesa, suas ambições de mulher de negócios tiveram espaço para crescer. Montou uma empresa de construção civil e viu logo a oportunidade de lucrar na China continental quando a abertura econômica começou.

A empresa da princesa empreendedora ajudou a levantar a cidade-modelo de Shenzhen. Primeiro, ela ficou milionária. Hoje, é bilionária.

Encontramos Chan Laiwa em Pequim, no distrito de Gaobeijian, a área de fabricação e comércio de móveis. Em meio aos antiquários e restauradores, ela montou um museu para exibir uma coleção fantástica de móveis antigos feitos em madeira de sândalo vermelho - uma madeira tão dura e resistente que na China antiga valia tanto quanto ouro ou jade. Cada peça vale milhares de dólares, e ela tem centenas. O acervo do museu é estimado em 25 milhões de dólares…

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Caso da cidade de Huaxi, holding com ações aos locais para controle dos empreendimentos, ação oposta ao comum

…Huaxi é uma experiência econômica fascinante, mas pouco aberta ao mundo exterior. Nossa visita foi finalmente aceita porque Huaxi depende de minério de ferro do Brasil para sua siderúrgica. No pragmatismo chinês, laços comerciais valem mais que mil palavras carinhosas…

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…Sempre pensei em despedidas como o primeiro passo para novos encontros. Ao partir, carrego comigo a bagagem que interessa - a vida que levei, as coisas que aprendi, as amizades que construí. Sofrer as despedidas, entretanto, é parte do processo. Nos últimos dias, elas têm sido abundantes…

Natal antecipado em 05-12-2006 com comunidade brasileira na embaixada em Pequim, Sonia fica gripada, relata a neve, os guardas e a virada para 2007

Participação no programa Mais Voce 1

Participação no programa Mais Voce 2

Participação no programa Mais Voce 3

epilogo

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Xiao Li o motorista com influência nos costumes, via família Bridi, trabalhou com Bassan após a partida da família, Li tem sua própria frota

Sheryl volta de Hong Kong, ajuda Bassan, dedicada ao ioga

Sonia desde então voltou a China mais 5x

Trem bala pelo país…

…Em 2004, levamos doze horas para ir de Chongqing, no alto Yangtsê, até Yichang, onde estava sendo construída a Usina de Três Gargantas. Hoje, no trem que corta montanhas numa série infindável de túneis a 250 km/h, o percurso, com paradas e tudo, vai durar apenas quatro horas. Este é só um trechinho da rede de 26 mil km de ferrovias só do gaotie - que em alguns trechos tem velocidade de 350 km/h. O primeiro trecho foi o Pequim-Tianjin, inaugurado em 2008…

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Jonathan Spence

Evolução da China, novas gerações, Xi Jinping como novo imperador, não adepto a democracia como Hu Jintao

“Nothing, above all is comparable to the new life that a reflective person experiences when he observes a new country. Though I am still always myself, I believe I have been changed to the very marrow of my bones.”

“Nada, acima de tudo, se compara à vida nova que uma pessoa que reflete experimenta quando observa uma terra desconhecida. Apesar de eu ainda ser sempre eu mesmo, acredito que fui mudado até a medula de meus ossos.”

Goethe - Viagens à Itália

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No início do Ano do Galo, uma cena de superpopulação, o almoço dos bombeiros abrigados na cabine do caminhão. Quem quer sopinha de macarrão?

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O Templo do Céu, monumento histórico mais bonito da China, de onde fizemos a transmissão ao vivo no aniversário da TV Globo.

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Pedro descobre a China: andando de camelo com Fafá; suportando o constante assédio dos chineses para tirar foto com o filhotinho de laowai; com Wang, sua guia no mundo chinês e um sopro de afeto na nossa vida; escolhendo o lanchinho no mercado de comidas estranhas de Wangfujing, e fazendo rugido de tigre na Muralha, com Paulo, Mariana e eu.

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Acima: com Sheryl, minha sobrinha Graziella e Li, gravando na demolição. O espaço aberto era a rua dos bares de Pequim.

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Na sala de aula, Pedro é um estranho no ninho.

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A paisagem vai sendo transformada e muitos relutam em deixar suas casas mesmo quando tudo está demolido ao redor.

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Os destroços do hutong são o playground da menina. Ela gostou de ver os laowais nesse dia. A mãe ficou com medo.

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Na fronteira, o enfrentamento coreografado entre Índia e Paquistão faz a hostilidade entre os países parecer disputa de futebol, com torcida apaixonada.

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O Palácio de Verão, no noroeste de Pequim, foi construído pela imperatriz Cixi com o dinheiro que deveria ser usado para a China construir uma armada para enfrentar os ingleses. O barco de mármore foi a única embarcação do projeto - nele, a imperatriz tomava chá nos fins de tarde.

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A bordo do trem Pequim-Lhasa, em sua viagem inaugural. Um raro momento em que jornalistas estrangeiros são autorizados a trabalhar no Tibete.

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A nômade e a filha, que não me mostrou a face enquanto esperávamos o trem. A mãe foi lavar o rosto e trocar a camisa para posar para a foto.

Na beira do Namtso, os tibetanos que nos levaram em seus cavalos observam, sempre rindo, enquanto Paulo grava e sofremos com a falta de oxigênio.

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Vila de pastores de iaque, na altitude. O viúvo que entrevistamos e os filhos. Vendo como eu estava ofegante na altitude de mais de 4.000 metros, ele fez questão de carregar o tripé.

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Vila da Estradinha, senhora com os pés de lótus. Um raro momento de reunião familiar na vila onde só restaram os velhos e as crianças. Os adultos que se foram em busca de emprego na cidade passam em casa entre uma empreitada e outra.

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Lijiang, nas montanhas do Yunnan, é um tesouro arquitetônico da etnia Naxi. A sabedoria no uso da água, no sistema de três poços: no primeiro fica a água para beber; no segundo, a água para lavar os alimentos, e, no terceiro, a água para lavar utensílios e roupa.

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Uma escola rural de acrobacia em Wuqiao. Ambiente simples, ensino sofisticado. As crianças aprendem a arte que começou com seus antepassados, sem perder uma lição sequer do ensino fundamental, obrigatório durante nove anos na China.

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No Templo Dourado, em Amritsar, na Índia, menino da religião sikh, no banho ritual, na água chamada de “néctar da imortalidade”.

os-autores

Sônia Bridi e Paulo Zero são correspondentes internacionais da TV Globo em Paris desde janeiro de 2007. Em 2005 e 2006, foram pioneiros na cobertura latino-americana na China.

Antes disso, Sônia foi repórter especial da TV Globo no Rio de Janeiro e São Paulo, e correspondente internacional da emissora em Nova York e Londres.

Entre as suas coberturas mais importantes, a Rio 92, as eleições presidenciais da Argentina em 1999, o caso Monica Lewinsky e a tentativa de impeachment do presidente Bill Clinton, as Copas do Mundo de 1994 (EUA) e 1998 (França), a eleição do presidente Lula e as chacinas da Candelária e Vigário Geral, no Rio.

Especialista em coberturas de Ciência e Tecnologia, acompanhou o desenvolvimento do projeto Genoma Humano. Sua denúncia de falhas de projeto em Angra 1 levou ao fechamento da usina para reparos durante um ano.

Paulo Zero é veterano de coberturas internacionais. Há 30 anos, com apenas 20, já era correspondente da TV Globo nos Estados Unidos (em Nova York e Washington).

Através de suas imagens, os brasileiros acompanharam a primeira visita do papa João Paulo II à Polônia (1979), a crise dos reféns no Irã (1979), a guerra civil em El Salvador (1979 a 1984), a guerrilha da Nicarágua (anos 1980), o terremoto do México (1985), o massacre da Praça da Paz Celestial em Pequim (1989), a Guerra do Golfo (1991), o massacre de Ruanda (1994), a epidemia de ebola no Congo (1995), as Olimpíadas de Atlanta (EUA) e Sidney (Austrália), as Olimpíadas de inverno de Nagano (Japão) e Salt Lake City (EUA), as Copas do Mundo da França e do Japão e Coreia do Sul (2002), e a queda das torres gêmeas do World Trade Center (2001).